Luiz Geraldo Mazza
O despertar sonâmbulo
O governador voltou, desmentiu as especulações ao dizer que ninguém fala por ele (o que não acontece na área de segurança, a mais vulnerável de sua gestão), o que também é de uma obviedade ululante, mas encontrou o Paraná mergulhado numa realidade que afronta o cenário por onde andou: só de uma tacada, a fábrica Philip Morris botou 800 trabalhadores na rua, e as tão decantadas montadoras estão obrigadas igualmente a mexer nos seus cronogramas por causa da crise.
Enfim, ele despertou num cenário de sonambulismo que nada tem a ver com o quadro que descrevia na campanha e muito menos com a calmaria que desfrutou em suas longas e merecidas, mas demoradas, férias. Valeu, porém, a decisão de brecar as especulações que vinham da Assembléia, onde até a pauta de reportagem é feita num gabinete, o que confirma aquilo que o jornalista Freitas Neto aponta como deformação máxima do nosso tempo: em vez de o profissional ir à fonte, a fonte é que vai aos meios de comunicação.
Ao saber do aumento considerável da taxa de desemprego e do quadro de recessão que se vai delineando, o governador deve efetivamente preservar a capacidade de iniciativa, ainda que deva partilhá-la com os políticos, mas sem a tutela pretendida e imposta na arrogância de alguns deputados, fazendo coral a tudo o que Aníbal Khury fala. O modelo de desenvolvimento, que ajudou a montar, desde a Cidade Industrial, está sob o fogo da globalização. Da mesma forma que a Renault veio para cá depois de fechar duas fábricas na Europa, uma delas na Bélgica, também as multinacionais que aqui operam podem encolher por motivação externa. O adiamento dos projetos de expansão da Electrolux, cuja fábrica de Fazenda Rio Grande era aguardada com grande ansiedade, é prova disso, como também o ocorrido agora com a indústria fumageira.
Se essa globalização continuar apenas sacrificando empresas brasileiras (o governador desmentiu a privatização da Copel, todavia sem ênfase) e não agregando vantagens, especialmente no mercado de trabalho, iremos mal. De outro lado, essa expectativa exagerada com a safra de grãos (80 milhões de toneladas, o que não é nada, se considerarmos que Argentina com área bem menor obtém 60 milhões e a China Continental vai a mais de 200 milhões com área cultivada semelhante à do Estado do Pará), como capaz de dar um grande apoio na questão dos empregos, é um tanto quanto discutível. Já no início do Plano Real o setor foi a chamada ‘‘âncora verde’’. Se numa crise efetiva desse respostas tão fortes, seria admirável.

GLOSA
O governador não mexe no secretariado na medida em que ele mais se parece com um sectariado. Sectário e áulico são coisas preciosas


AXIOMA Bancários saíram à rua para pedir aumento. Sabem que o sindicalismo está esvaziado, que a crise e o nível de emprego são fatores inibidores, contudo vão à luta. Não custa lembrar que na 2ª Guerra Mundial, em cidades bombardeadas da Alemanha, em meio ao furor da luta, o padeiro e o leiteiro entregavam as suas mercadorias. Lutar é uma forma viva de esperança, não importando se a batalha é ganha ou não, pois o objetivo mais abrangente é o de ganhar a guerra.
BIZARRICE Cada vez que se atiça a cruzada, verdadeira guerra santa contra os vendedores ambulantes; as maiores barbaridades são cometidas. É claro que se pode localizar esse tipo de comércio, mas os ‘‘outlets’’, mini-shoppings, aparentemente legais, são mil vezes piores. A rotatividade é de motel dessas lojas em microespaços, conquanto traduzindo uma viração típica de crise. O comércio legal se agarra num inimigo menor do que a inadimplência, o abuso das luvas delinquentes cobradas no centro de Curitiba e que inviabilizam de saída qualquer negócio, a cupidez tributária do governo etc. Pior que ambulante é gente assaltando e matando, ameaça bem maior ao comércio e ao comerciante.
SPRAY Além dos 800 demitidos da Philip Morris (que provavelmente não curtirão as delícias da terra de Marlboro), havia, ontem, a contabilizar, mais 64 da Volvo e sem falar na retração da Chrysler. - De repente as expectativas, um tanto quanto exageradas, em torno do 2º pólo automotivo, não se realizarão e aí haverá cobranças e sequelas políticas inevitáveis. - Lerner soube de todas as notícias negativas, sem abalar-se. Já o prefeito Cássio Taniguchi foi a campo em busca de alternativas para minorar o problema e também manteve importantes contatos políticos com deputados federais e estaduais da aliança que operou especialmente na Região Metropolitana. Cautela indispensável para a defesa que deverá ser feita no sentido de evitar que o ajuste fiscal atinja a Grande Curitiba de forma irremediável. - O Tribunal de Contas tem competência para fazer auditorias no Banestado? E a troco de quê esse interesse apenas agora, já que aquele órgão auxiliar do Legislativo, cuja competência se limita ao exame da legalidade orçamentária dos atos públicos, está mais do que informado ao longo do tempo em torno das falcatruas, das bobeiras, incompetência, fraude e desídia daquele estabelecimento? - O processo de saneamento do Banestado vai ser prejudicado em vários fronts: pelo grupo delirante que acredita ainda na manutenção de uma estrutura sem recuperação, pelos políticos que sugerem com isso a defesa da corporação de empregados e tentam manter o clima eleitoral, pelos pragmáticos que lançaram essa bobeira da Caixa Econômica estadual. Há gente demais atrapalhando e poucos, muito poucos, ajudando. - Como o senador Requião promete insistir em denúncias como a que atingiu duramente o vice-prefeito Algaci Túlio, dá para esperar um vulcão em erupção quando o caso Banestado chegar na CAE do Senado.
EPIGRAMA Como alguns empresários estão sugerindo que se pague trabalhador com mercadoria e não moeda, tudo seria aceitável se o preço fosse o de custo e não aquele que acumule lucro e despesas.
FOLCLORE Uma anedota sobre o técnico Márcio Araujo, do Paraná, está no juízo feito sobre suas qualidades é dito, na maior tranquilidade, por um dos raposas da cartolagem. ‘‘É um rapaz fino, um gentleman. Ideal para ser o nosso genro, mas nunca para técnico do meu time!’’
DEFINIÇÃO Empresário, segundo Mencken, ‘‘é o único homem, além do verdugo e do gari, que vive se desculpando por sua ocupação, para fazer parecer, quando atinge o objetivo do seu trabalho - isto, é ter ganho uma montanha de dinheiro - que o dinheiro não era o objetivo do seu trabalho.’’
CROMO ‘‘Passa-anel’’ - ou ‘‘pedrinha do céu’’ - folguedo infantil, vive mais em nossa memória do que nas calçadas das praças e pátios de colégio. E quem canta, por acaso, ‘‘vamos passear no jardim celeste,// Geroflê, Geroflá//’’
AFORÍSTICO Com o Lerner fora, os políticos deitavam e rolavam. Lerner voltou e desautorizou especulações e eles sumiram do noticiário. Numa imprensa que aceita tudo é assim mesmo.

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