Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Lerner, um refém?
Há uma dupla natureza em todos os governos, que revela o enlace dos grupos que o integram na questão política e empresarial. Tal fato sempre ocorreu, mas hoje, com a diminuição radical do Estado, essas forças, que gravitam em torno do poder, acabam sendo interessadas direta ou indiretamente na privatização. Tanto que os que se habilitam, por exemplo, a explorar o novo cartório da vistoria eletrônica dos automóveis são integrantes notórios da equipe ou mediadores em favor dessa demanda.
A preocupação em botar uma pá de cal na roubalheira, que adernou o Banestado, jogando a poeira acumulada para baixo do tapete e declarando uma anistia geral à custa do dinheiro que é de todos nós, mostra como essas forças interagem e como se empenham para que nada fique esclarecido porque a sobrevivência do grupo, na dupla condição de força política e empresarial, é a razão maior.
Como a oposição, através dos governos que estiveram no poder, está igualmente comprometida (a maior parte do furo é dela), a situação fica facilitada para todos: os bilhões que foram escamoteados vão ser compensados com os R$ 4,1 bi da operação saneadora e privatizadora. E todos vão dormir o sono dos justos. E o governo assume um prejuízo que ameaça o futuro comum.
Pergunta-se: e a maioria da sociedade, que paga o prejuízo, é apenas convocada a vestir roupa de palhaço, a bolinha vermelha em lugar do nariz, para o papel de bobo, de enganado permanente ou teria o direito de espernear, provocar o Ministério Público, delatar maroteiras, berrar? Como a culpa é de muitos e tornar-se-ia indispensável fixar os específicos graus de responsabilidade, não tem o menor sentido essa angustiada defesa do governador como se ele fosse uma vítima das circunstâncias e nada tivesse a ver com os atos delinquentes, muitos dos quais praticados em sua gestão em benefício de grupos muito específicos, como nos lances da Leasing e da Corretora. Pode ser que em função da malha de grupos políticos e empresariais, o governador não passe de um refém. O que não anula a necessidade de investigação profunda e muito menos reduz a sua responsabilidade e a dos envolvidos no processo.
AXIOMA
O ódio esportivo e político nega a comiseração e a piedade: um atleticano, talvez buscando uma compensação para a dificuldade de classificar o time, diz que o Paraná é uma espécie de múmia porque será enterrada com todas as suas faixas
GLOSA Se o pênis do brasileiro diminuiu por causa da crise, é possível que seu crescimento anterior estivesse indexado, de forma radical, à inflação.
BIZARRICE Há saques de gênio em campanha eleitoral: o ícone do bigodaço, usado por mulheres e crianças, do Dutra, no Rio Grande do Sul, é um desses casos raros de linguagem ontológica pelo que expressa de essencial como a faca só lâmina de João Cabral de Melo Neto. Coisa de gênio, como a idéia de tirar o vermelho do PT é de burro e dos pós-graduados.
SPRAY Como não poderia deixar de acontecer, houve calote a granel na campanha eleitoral: fornecedores de material (camisas, bonés, bottons, decalques etc) acionam comitês na Justiça. - Desta feita, porém, não houve a redução monetária ao dólar, como ocorreu em campanhas anteriores até a do segundo turno municipal. - Gustavo Fruet, sério como sempre, às vezes até demais, sugere que o orçamento municipal para 99 está otimista. Na verdade, a Lei de Meios foi feita antes do clima de agora, quando se tende a superestimar o que virá com o garrote fiscal. - Recessão: a Chrysler, de Campo Largo, já encurtou a rédea. Em Santa Catarina, demissões na Kolbach e Marisa, em Jaraguá do Sul. - Empreiteiras estão, outra vez, desobrigadas de fazer as obras do Anel de Integração. Vão ficar simplesmente administrando a crise, pintando pistas e dando assistência com ambulâncias. Uma turma do Tribunal Regional de Porto Alegre assim decidiu. Um detalhe: se o governo dobrar, outra vez, a tarifa, já em plena recessão, vai dar morte, virá o caos. Postura inicial do governo é insistir em recursos para mostrar que, com a redução dos compromissos e alteração de cronograma, a tarifa atual paga o suficiente para a retomada das obras. Nessa postura tem o apoio de toda população. - Ratinho está sendo cobrado por ter mostrado esquetes representados. A Globo, que a despeito da sua opulência, perde horários importantes apelando de outra forma, anestesiando e projetando a família carioca em desagregação como se fosse amostragem do Brasil, tenta posar de boazinha. Ninguém esquece da sua colaboração societária aos milicos e à ditadura, a empulhação do bloqueio aos comícios das Diretas Já e a edição, safada e canalha, do debate entre Collor e Lula. Isso sem falar no show em lugar da informação, o amor dos símios, a pseudo-ciência do Fantástico etc. - O secretário da Justiça, Eduardo Rocha Virmond, concorda com Aníbal e Belinati: todo o secretariado deve pedir demissão. - Por falar em Justiça, o Conselho Penitenciário conta com três novos membros: o criminalista Élio Narézi, o procurador de justiça Edson Vidal e o diplomata Orlando Soares Carbonar. - Ontem, Boca Maldita, correndo de mão em mão dossiê sobre Algaci Túlio nas negociações com precatórios e Banestado. A do Durval Amaral é fichinha.
O fato é que até agora, tirando os casos clássicos da Leasing e da Corretora Banestado, os eventos conhecidos envolvem parlamentares estaduais. Todos se julgam, no entanto, à margem de qualquer censura porque sabem que Aníbal Khury os defenderá e em favor deles fará pesar o sigilo. Tanto que até pedem para abrir as suas contas quando sabem, de antemão, que isso não se dará. Mas tentaram derrubar o Neco Garcia quando tratou de leve do assunto.
FOLCLORE Piadinha meio sem graça: o César Maia, no Rio (e isso é bem daquele universo), estaria distribuindo camisinhas sob o fundamento de que era para evitar o garotinho que poderia vir.
EPIGRAMA Sigam-me os que não forem inadimplentes, poderia dizer um deputado para saber quem está ou não enrolado, direta ou indiretamente, com o Banestado. Saber quem diz a verdade nesses casos é tão simples quanto desvendar quem soltou gases num elevador com três pessoas. Às vezes o de ar mais indignado é o autor.
CROMO O que para um leigo é repulsivo pode ser o belo para um cientista diante do microscópio eletrônico. Mas uma bela lição de moral poderia ser tirada do exame de fungos e bactérias, vistas ao microscópio, em nota de US$ 100.
AFORÍSTICO Se para privatizar gigantes como as teles e a Vale do Rio Doce não se deu chance ao debate, imagine-se o que se dará na aldeia com a demolição da Copel. Parece que estamos mergulhando no maior dos despotismos quando mais se fala em participação e democracia.





