Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Ao bater do martelo
O Estado quebrou. Como a origem do problema tem uma dimensão metafísica como a do dilema entre quem nasceu antes, o ovo ou a galinha, as maiores asneiras vão sendo ditas sobre o que fazer com o dinheiro eventualmente oriundo da liquidação do patrimônio público. Essa estória, por exemplo, de querer formar o Fundo de Previdência com a grana da Copel é a maior prova de que nunca vimos tanta patetice acumulada num só governo. As pessoas deveriam ser obrigadas a se calar, antes de emitir juízos tão temerários.
Recorde-se que antes disso, quando se examinava o futuro do Banestado, uma das teses era a de que o estabelecimento poderia continuar operando em favor precisamente desse Fundo. Não há fundamento de doutrina e filosofia que mostre forma tão absurda de o governo tentar safar-se de uma responsabilidade como o que se dá com a preocupação relativamente aos aposentados, para ver quem os paga e assim tirar, num passe de mágica, parte considerável dos dispêndios com pessoal e ajustar essa rubrica às imposições da Lei Camata, não tão bela quanto a autora.
Que esse destino dos recursos baixaria despesas, mais do que gráficas, nem se discute. Todavia, o raciocínio não se funda em algo bem programado, mas num tipo de improviso (a maior prova está no açodamento em manter o Banestado para atender à mesma demanda, algo como tirar água do mar com um caneco para ver se o esvazia) inaceitável em gente madura. Joga-se uma empresa, a mais importante estatal do Paraná, na qual não havia espaço para aprontar o que se fez no Banestado, à sorte de um leilão para cobrir o setor público ineficiente.
Pergunta-se: mas essas pessoas têm noção do valor de uma Copel? Bom, se a noção de defesa do patrimônio público for equivalente à exercida no Banestado e, especialmente, nos casos da Corretora e da Leasing, os perdulários vão detonar o resto daquilo que foi penosamente acumulado. Vamos levar tudo ao debate.
Minada pela impotência, a oposição faz muito bem em reclamar uma auditoria junto ao Senado em cima dos problemas do Banestado, em que pese a rudeza da sua situação. Se o governador não hesitou em premiar o autor das proezas da Leasing é porque ratificou o que foi feito, e o avalizou. Está, portanto, comprometido não apenas por omissão, mas por ação. Não saiu ungido das eleições com uma diferença de votos que torne decisões como essas, se é que as adotará, indiscutíveis. Já que o Estado quebrou em suas mãos, que pelo menos seja eficiente como síndico da falência.
AXIOMA
Lerner chega hoje, mas não se sabe se viaja ou não amanhã. Afinal, ninguém é de ferro. Ademais, já imaginaram suportar a turma palaciana?
GLOSA Apesar do pessimismo reinante, que precede a adoção do pacote imposto pelo FMI, um sinal de atividade econômica foi detectado: aumento significativode consumo de combustível. É a turma de carro procurando emprego ou fugindo dos credores e oficiais de justiça.
BIZARRICE As negociatas que beneficiaram o vice-prefeito Algaci Túlio e algumas empresas no Banestado estão relatatas no site da Internet do senador Requião. Dá a impressão de faísca atrasada, já que, como candidato, insistia em manter um ar de pastor evangélico. Lembra até a anedota do portugês que agrediu o judeu. Ao lhe perguntarem por que o fizera, disse que acabara de saber o que eles haviam feito com Cristo.
EPIGRAMA Jornalistas belgas andam por aí fazendo investigações sobre a vinda da Renault para cá. Um exercício, segundo Fábio Campana, proustiano: Eles estão à procura da Renault perdida, o que deve redundar em tempo perdido.
SPRAY O Banestado está de tal forma fragilizado pelos acontecimentos que sua direção não sabia ontem se tomaria ou não alguma medida contra a divulgação na Internet da denúncia do senador Roberto Requião. - Os próprios advogados estão ouriçadíssimos em função do ato intempestivo do governador, que mandou parcelar dívidas de inadimplentes, que já estavam sendo processados na Justiça Federal e que agora, vejam o absurdo, estão acionando o banco por perdas e danos. Sequela dos dramas da Leasing. - A falta de lealdade interna no governo é assustadora e se torna nítida no caso da denúncia contra Algaci Túlio. À boca pequena, alguns sugerem que a operação era até para levantar dinheiro para campanha eleitoral, como se isso absolvesse alguém ou abrandasse eventuais culpas. - Em todos os casos de corrupção deste governo sente-se um traço dominante: a frouxidão e a falta de comando, pois quando o governo não concorda com a irregularidade mostra-se manietado para agir, uma espécie, é claro, caricata de um Prometeu acorrentado. - Incrível: os políticos querem um máximo de participação na hora da reforma e do corte de gastos, quando apenas detêm reivindicações para postos em secretarias e diretorias. Dá para adotar a justiça salomônica: o governador indica as secretarias a serem extintas e na lista reduzida das que sobrarem aceita as indicações. Assim como naquela parábola: um corta a maçã e outro escolhe qual das partes que lhe cabe. - Vem aí nova pressão para aumentar o pedágio. Hoje deve ser julgado no Tribunal Regional de Porto Alegre um recurso dos consórcios contra a obrigatoriedade de tocarem as obras pela tarifa atual. Se sair o reajuste e o governo não reagir (e da forma a mais veemente possível) estaremos diante de uma farsa e de um crime eleitoral demonstrado a posteriori.
FOLCLORE O Paraná, ontem, deu mostras de fibra e de brio, mas segue no seu calvário, uma vez que apenas empatou com o Corinthians. Como a maior parte da torcida é dos outros dois times, as gozações prosseguem (ambos esquecem que o castigo pode vir a qualquer momento e à noite haveria prova) e uma delas sugeria que as pessoas que fossem ao estádio do Boqueirão de camisa paranista entrariam de graça e aquelas que fossem de calção e chuteira poderiam não apenas entrar como, até quem sabe, jogar pelo time.
MÁXIMA Diz-se que cada governo tem o povo que merece, o que não significa que a recíproca seja verdadeira. Governos que cedem à chantagem - o nosso é um deles - tornam-se, em certas circunstâncias, menos dignos do que os achacadores. Quem os cultiva e os ceva é ele próprio. É só observar.
CROMO A água limpa, cristalina demais, matou a carpa. Como pode acontecer tudo isso quando sobra tanta lama para acertar a turbidez? Os que vivem da lama detestam, como o Drácula, a claridade, a transparência.
AFORÍSTICO Uma lufada de bom senso: no DataFolha, o Mário Covas saiu na frente.





