Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Discussão bizantina
Bastou o prefeito de Curitiba, Cássio Taniguchi, afirmar, com a lucidez habitual, que o futuro governo Lerner deveria ter um sentido técnico para que o Buda, Aníbal Khury, e os seus seguidores (praticamente todo o Legislativo, incapaz de dispensar-lhe a tutela) vissem na declaração uma volta àquilo que abominam - a tecnocracia. Nada disso: o quadro que está por vir não é muito animador para as práticas habituais da fauna política, especializada em não exercer o menor compromisso com a realidade, mas afundar-se na fantasia vil dos estômagos satisfeitos, da felicidade por atacado, em nome de uma falsa compaixão com a pobreza e a exclusão vertida na compulsão de nomear e afinal prometer, a três por dois, acertar todas as demandas pessoais e coletivas, o que desde logo é prova de hipocrisia e apenas de cortejamento ao populacho.
O fato de o governo ter necessariamente que adotar tonalidade dominantemente técnica decorre menos da vontade do governador ou de qualquer integrante de sua equipe, mas da impossibilidade de fugir ao impositivo quadro de austeridade que as circunstâncias colocam em função do ajuste fiscal. E isso não vai elidir a ação dos políticos que, ao contrário, vão ser mais expostos e desafiados como categoria e cuja repulsa popular está visível nos registros da mais recente eleição com os votos nulos, brancos e a abstenção, especialmente nos pleitos proporcionais que tratam mais diretamente da corporação.
Bastou, porém, que Aníbal Khury, tentando fazer o gênero sábio, criticasse as declarações do prefeito (que não se curva ao charme do deputado, tanto que condenou abertamente a demagogia da anistia das multas do trânsito, um dos piores espetáculos de baixaria e nanismo intelectual de que se teve notícia em nossa história recente), para que a claque, habituada ao amém e sem qualquer exame aprofundado do assunto, o apoiasse. Afinal, eles não sabem fazer outra coisa, ainda que se deva reconhecer que, em muitos aspectos, o Turco não deixa de ser um defensor da corporação e nesse aspecto merece a delegação.
Um Estado que gasta mais de 70% do que arrecada com pessoal é um fora da lei e isso não se enfrenta com discurso, decálogos de boa intenção, mas dureza até porque não há outra alternativa. Nesse caso há uma imposição técnica à qual a razão política deverá ajustar-se, mesmo que contra a vontade e esperneando. O dado político será convencer os corretores da esperança, os políticos, que não há outra opção. É o dá ou desce. O ciclone do ajuste fiscal, corte de R$ 30 bi nos gastos públicos, limita o campo do governo e também o dos políticos porque não há mais lugar para exortações populistas. É o fim da cantoria e a classe vai ter que se postar, de outra forma, diante da realidade.
AXIOMA
Curitiba é a cidade em que a frequência de sequestros é semelhante à de casos de batedores de carteiras. E esse assunto, que é técnico, fica também aos cuidados dos políticos, como se sabe, por fragilidade do governador
GLOSA Das centenas de candidatos ao concurso de comissários de menores, um terço deles é de advogados. Há a maior apreensão na prova prática que vai decidir os ocupantes das quatro vagas. O Brasil de hoje tem um cenário em tudo parecido com o pós-guerra na Europa. Só falta para os países emergentes um Plano Marshall, como aquele que levantou o Velho Continente à recuperação.
BIZARRICE Para convencer os políticos de que medidas duras serão para valer, o governo estadual poderá recorrer à alegoria, às demonstrações práticas: assim, quando os deputados se postarem contra a austeridade, o governador convidará Aníbal Khury, o Orlando Pessuti, o Rafael Greca e ele próprio para andarem de helicóptero. Como o avião de rosca, como diz o Mário Pereira, não sairá do lugar, a metáfora será imediatamente entendida.
Como um aparelho para voar depende do número de gordos, assim também há limites com um orçamento limitado.
DEFINIÇÃO Como diziam os latinos, omnes definitio periculosa est. Toda definição é perigosa. Às vezes uma palavra aparenta uma coisa e é outra: pedófilo não é um defensor do pedágio, embora até simultaneamente possa sê-lo.
SPRAY Saneamento do Banestado na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado vai ser mais sofrido do que o caso dos empréstimos internacionais. No discurso de anteontem, além de mostrar novas e cabeludas irregularidades na proteção aos interesses do ex-deputado e vice-prefeito Algaci Túlio em operações para acertar terceirizações na Rádio Clube, Requião disse que vai exigir os 12 últimos balancetes, o que será suficiente para condenar o governo Lerner. - Há quem diga que o Lerner viajou justamente por causa disso. Na realidade, como detesta tomar atitudes políticas, temia que lhe pedissem apoio no segundo turno e se horrorizava com a idéia de fazê-lo em favor de Maluf, o que é pior do que engolir bário para radiografia do estômago. - Está razoavelmente bem encaminhado o caso da jornalista Graça Gomes: o Ministério Público suspendeu os procedimentos administrativos que intentava contra a funcionária e esta vai submeter-se à perícia médica. Graça tem sequela de uma cirurgia de coluna, o que a levou a processar o neurocirurgião, que a operou, por erro médico. - Catarinenses andam muito aguçados outra vez com os paranaenses: tudo é pretexto para emulação. O governador eleito, Espiridião Amin, ao dizer que jamais importará empresários, quis obviamente criticar a industrialização paranaense; há a briga pelo mar territorial e o campo de petróleo. Pois agora os catarinas estão chiando que no anúncio da Global Telecom as imagens dominantes são paranaenses. Isso já rescende à frescura. - Na Prefeitura de Curitiba sai o HSBC Bamerindus, entra o brasileiríssimo Banco do Brasil. No fundo, uma questão de reciprocidades, tão-somente. Se o atendimento piorar, não vai ser bom para o banco oficial, cujo garoto propaganda é o mesmo do Bamerindus, antes da sua passagem para o controle internacional.
FOLCLORE Duro com os vigaristas, o delegado Bukowski, que atuou em Londrina e também em Curitiba, foi vítima de uma perfídia de um malaco que lhe vendeu um pardal (não é pardais, como dizem alguns linguistas habituados a comprar um pastéis) com as penas pintadas de doirado para simular um canário.
CROMO Uma alegria solar no estádio: Luiz Geraldo Mazza Neto, 4 anos, torcia para o Coxa domingo, já iluminado pelo fato de ter dado a mão para a Mônica, aquela do Maurício Souza, no sábado, no Palácio de Cristal. Ah! Que inveja de não ter mais o caleidoscópio dos seus olhos para reenxergar o mundo.
AFORÍSTICO A corrupção é um óleo lubrificante da política.





