Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Um segundo turno simulado
Parece incrível, mas a enxurrada de documentos comprometedores contra o governo, que chega aos meios de comunicação, é de tal intensidade que dá a impressão de que vivemos uma simulação de segundo turno, que só não foi alcançado por incompetência da oposição porque o que o Palácio Iguaçu se esforçou e, de forma sistemática, para perder, não está em gibi nenhum.
O alvo quase sempre é o Banestado. Só faltam os seus defensores alegarem que está na UTI, e qualquer revelação de verdade pode lhe ser fatal. Por falar nele, hoje tem leilão e pelo menos parte do acervo a ser torrado é prova documental da incompetência dos dirigentes da instituição em sua vulnerabilidade diante da ação solerte do tráfico de influência.
Um deles, especialmente o das Malas Ika, prova a incompetência conjunta de uma sociedade que rachou em disputas internas familiares, a despeito da convicção religiosa comum, e do Banestado, que não tomou cautelas suficientes para preservar-se ao assimilar o mico de mais uma operação desastrosa.
Circula por aí, nos meios de comunicação especialmente, um dossiê, ainda fragmentário, de peças da CPI dos Títulos Públicos relativas a essas manobras feitas no banco estadual. Como dizia Hamlet, quando há método demais na loucura, ela se torna suspeita. A maneira como o banco embarcou no bagunça dos títulos podres, como os de Alagoas, Pernambuco, Guarulhos, Osasco, São Paulo é inaceitável a um olhar técnico, embora compreensível no filtro da política. Pois tudo isso que deveria ter sido enfocado na campanha eleitoral, o que permitiria um julgamento mais claro dos que quebraram a instituição, o que decorreu da cultura acumulada no compadrio e na mutretagem entre amigos ao longo do tempo, aparece agora por aí em tom de fato novo. Um dos alertamentos técnicos é o de que as coisas poderiam ser diferentes e que as aquisições a preços elevados poderiam ter sido evitadas se houvesse a medida singela de um contacto com o Estado emissor dos referidos papéis.
A emissão de debêntures e mais o festival da Leasing seriam suficientes para colocar o governo em clinch, e no limiar do nocaute. Talvez por temer que o seu período fosse devassado, o candidato oposicionista se limitou a colocar na Internet as atas do Banestado, material de difícil e complicada consulta, apesar da contundência de algumas afirmações do presidente do banco a respeito dos diretores que expuseram a organização à fraude e a negociatas.
O fato é que tudo aconteceu e nada iremos saber se jogarem, como se pretende, a poeira para baixo do tapete, numa espécie de anistia (anestesia) geral, salvando imprudentes e delinquentes, incompetentes e malandros, sem que sobre eles nem sequer se faça uma triagem para ver onde há delito e incompetência. Como a Mãe Joana, essa loba romana que amamenta muito mais do que Rômulo e Remo, tem as tetas prodigiosas, os sugadores agradecem.
AXIOMA
Claro. Depois da privatização, que infelizmente não levará privadas (ou melhor WCs) a todos os domicílios, chegaremos à glória: cada brasileiro terá o seu celular, o que, no entanto, não lhe assegurará acesso ao pão
GLOSA Só no governo Lerner conseguiríamos tanta glória: um paranaense no mundial de surfe (Peterson Rosa, de Matinhos); Giba, o melhor do vôlei, é da terra; no escrete nacional, três paranaenses (Rogério, Alex, Élber); Rexona, campeão brasileiro feminino. Enfim o perna de pau é só o governo, mas dá tanta sorte que até parece pé de coelho.
BIZARRICE O senador Roberto Requião desceu o pau em irregularidades do Banco do Estado e tudo foi visto pela TV Senado. Aí a sociedade finge que não ouviu e o banco, na defensiva, sugere que não pode falar por causa do sigilo. É o caso de perguntar: por que o senador não fez esse tipo de ataque na campanha eleitoral? É a síndrome do segundo turno.
SPRAY Uma das figuras atacadas, nominalmente, no pronunciamento de Requião na TV Senado foi Algaci Túlio, apontado como beneficiário de irregularidades com precatórios. - Botar cordão sanitário no Banestado, depois do que houve, é como maquiar o doente terminal: a sociedade exige, pelo tamanho do sacrifício, que se pretende com o fim da instituição na via privatizante, que se esclareça tudo. - Hoje sai leilão: do dia 15 deste mês até parte da manhã de hoje houve vistoria a peças que vão a arremate. Cada uma tem sua história e uma das mais cabeludas é a das Malas Ika. Numerosas peças da indústria, apta pela qualidade dos seus produtos a competir no mundo globalizado, estão lá como testemunho do absurdo. - Gustavo Fruet mantém contatos com a bancada federal para evitar que o aperto fiscal acabe estabelecendo cortes para o metrô da cidade. Pelo jeito, ainda por muito tempo, o único metrô da capital será aquela boate da Alameda Cabral. Por sinal que é bem devagar. - Um arquiteto paranaense, Marco Alzamora, está denunciando os abusos no desvio de verbas do prefeito de Porto Seguro (BA), Ubaldino Pinto Júnior, que acabou prejudicando totalmente as propostas do profissional para o remanejamento urbano da cidade histórica, em função dos 500 anos da descoberta. - Até o dia 30 haverá discussões nas escolas sobre o Plano de Desenvolvimento de Pessoal da Educação, em função dos resultados do seminário havido entre 12 e 17 deste mês em Faxinal do Céu e que reuniu 1.700 diretores e mestres. Sessenta representantes de todas as regiões do Paraná fazem encontro no início de novembro para a busca de consenso. Estão nessa mestres, APP-Sindicato e Secretaria de Educação.
FOLCLORE Morreu em Pelotas o médico humanista (ex-reitor da Universidade local) Amílcar Gigante. Como o melhor da lembrança de alguém é a do homem em ação, recordo dos programas do Partido Socialista na eleição de 1962, que eu ancorava, nos quais ele desmistificava com a máxima desenvoltura a terapia de determinados remédios da moda. Com sua ironia elegante, hoje, num discurso, arte em que ele era um gênio, diria que falsificá-los não os melhoraria. Os fascistas o impediram de continuar lecionando na Federal no Paraná. Melhor para Pelotas e a clínica médica-modelo que lá foi instalada. Discípulo de Lysandro dos Santos Lima, cidadão do mundo, um libertário, eu o assisti num congresso da UPE a desmontar críticas da direita ao Restaurante Universitário com uma fala sobre o balanço alimentar das refeições, suas calorias, lipídios, protídeos, uma aula de dietética numa resposta política de segundanista de Medicina e responsável pela direção do famoso RU, a bandeja que nutre.
CROMO Narciso poderia ter se deixado aprisionar ao ver a sua imagem refletida nos olhos da mulher contemplada ou no espelho dos seus óculos de sol.
AFORÍSTICO Por quantos anos, Senhor, votaremos ainda no menos pior?





