Luiz Geraldo Mazza
O governador hedonista
Há quem olhe o Rafael Greca, por uma questão de estilo, como o mais hedonista dos nossos políticos. A sua alegria, que tem uma força sensorial, que o faz não um animador de quermesse, como já apontaram, mas tentando ir bem além da paróquia, é contagiante, carnavalesca. O hedonismo, como ensinou Epicuro, seria o prazer pela prática da virtude. Mas o sentido que a palavra ganhou, como escola filosófica e econômica (Gide se ocupou disso), é a do prazer, a curtição voluptuária, o desejo (fundamento psicanalítico) levado a extremos.
Pois quem parece disposto, mesmo nas situações mais adversas, à prática da curtição, é o nosso governador. Enquanto vemos um Esperidião Amin, falando como governador eleito de Santa Catarina nos altos escalões da República, o nosso viaja e deixa o governo praticamente acéfalo, sem capacidade de tomar iniciativas em cima do quadro que está por vir, de extrema contenção, aperto fiscal, imposição de enxugamento radical da máquina pública. O que Dona Emília, governadora em exercício, pode fazer, não bastasse a nada discreta discriminação que vive a sofrer por parte de uma certa ‘‘elite’’ do sistema, se não há determinação clara em torno do problema?
O hedonismo é visível na preferência pelas coisas agradáveis, feitos culturais e esportivos e no horror às questões sérias, fugindo como Drácula da luz da invasão de terras, que segue tranquila, e dos problemas de segurança que delegou à classe política, enquanto cresce a malha do crime, bem penetrada, como se viu no caso de Almirante Tamandaré, que não deve ser o único, no meio da polícia, e a envolvendo cada vez mais.
O que está por vir é bem pior do que se imagina. As montadoras, que tanto saudamos, no Brasil inteiro vão recuar em seus programas de produção no aguardo das medidas de aperto fiscal e que provavelmente aumentarão a crise.
A marcha dos investimentos pode ser detida. Já tivemos o exemplo da fábrica da Electrolux que iria sair em Fazenda Rio Grande e ficou para as calendas, como também ocorreu em outros casos. Enquanto o governador viaja, o governo pára e assim agindo deixa de antecipar-se, embora alguns secretários estejam aí babando oratória sobre assunto que não dominam como o garrote programado.
E a época é adequada para rasgos de generosidade, como a do projeto parlamentar que pretende garantir estabilidade por dois anos aos servidores das estatais, quando não se sabe se durarão tanto tempo ou se os presumíveis sucessores aceitariam esse ônus, que lhes tiraria a liberdade de compor seus quadros. É o caos programado: estamos no mar tempestuoso e o timoneiro se mandou à procura de tranquilidade. Reeleito, vai continuar reviajando.

AXIOMA
‘‘Se houve marmelada nas urnas eletrônicas da capital e da Grande Curitiba é possível. Mas como tem abóbora e jiló misturados, passou na inspeção.’’ Mais uma colaboração do anarco-jurista Elísio Marques.


GLOSA O PDT decidiu voltar atrás na idéia de expulsar os infiéis. Na verdade, de 61 prefeitos apenas três apoiaram a chapa oposicionista. Mais apropriado seria fazer um inquérito em profundidade para descobrir a causa da lealdade num momento em que os prefeitos andam matando cachorro a grito.
BIZARRICE Consta que quando Joubert Gonzaga Vieira foi diretor do Porto de Antonina, desabituado da linguagem contratual, e lhe falaram em ‘‘terno’’ (referência a grupo de três pessoas que operam nas cargas), ele disse que já havia providenciado numa alfaiataria da Capital.
A MADRUGA ‘‘Última Hora’’ do Paraná criou a tradição do repórter da madrugada, e volta e meia havia a matéria mostrando um filho de juiz, de deputado ou de empresário importante em cana. Era a glória do jornal. Se ainda houvesse esse hábito, teria saído a notícia da madrugada de 14, quando policiais militares prenderam o filho de um conselheiro do Tribunal de Contas porque ele, mais um amigo, negava-se a pagar a conta da Boate Sex Night Club. No tempo de UH, estaria escrachado.
SPRAY Proclamados os eleitos ontem, sem prejuízo dos recursos pendentes, inclusive o dos questionamentos do PMDB, a oposição perde batalha igual à de 1990, quando uma cautelar inominada de Martinez pretendia impedir a posse de Requião. - Foi criado na época um clima artificioso, envolvendo a imprensa nacional, em cima do caso ‘‘Ferreirinha’’ e, embora o processo devesse correr em segredo de justiça, todo mundo sabia que a matéria seria julgada na segunda-feira no TRE. - A ‘‘Veja’’ estadual trazia o falso pistoleiro na capa e faixas na cidade recomendavam a revista, isso sem contar as matérias dos jornais nacionais. - O relator do processo, jurista Egas Muniz de Aragão, deu parecer contra o ato temerário. Na sequência, o TRE daria continuidade ao procedimento contra a fraude. - Como se vê, Requião, em 85, servindo-se abusivamente da máquina oficial conduzida por Richa e Maurício Fruet, arrebanhando milhares de eleitores do interior para ‘‘boca de urna’’, ganhou a prefeitura de Lerner. E agora sofreu o repique. Como chiar diante da justiça poética? - Consta que Lerner, depois de apuradas todas as urnas, teria esfregado as mãos e dito, sorrindo, que havia ‘‘dado o troco’’. Uma confissão do uso das mesmas armas ou apenas um ato de descompressão, depois de tanta ansiedade? O mal que se esconde nos corações humanos só o Sombra sabe. O Jamanta nem imagina.
O CARÁTER Na área jornalística, as atitudes marcantes de caráter não são nada comuns. Amanhã um homem de caráter do nosso meio, o Valmir Gomes, recebe a cidadania honorária de Curitiba. Generoso, disposto a correr riscos pelos amigos e a equipe, pouco se importando em ter ou não a retribuição, é um exemplo marcante de coragem e dignidade.
FOLCLORE O chimpanzé do Passeio Público sai da jaula e vai para o Bar do Pasquale. No balcão, Dona Izaura atenta e, no salão, apenas um cliente dos mais sóbrios, caipirinha do lado, lendo o editorial do Estadão. Para uma leitura dessas o mais adequado aconteceu: o nosso ‘‘primo’’ foi até o local bem devagar e com a ponta do dedo mexia na caipira, doce-amarga, e a sorvia com o mais intenso. Dona Izaura, ao ver a cena, desmaiou e o cliente nem viu o macacão se arrastando para fora até ser apanhado pelos guardas do zoológico.
CROMO Sensorial: o odor do pão com banana na sacola do grupo escolar mais o giz e o apagador, da sala e do guarda-pó, da tinta, da borracha, do penal. Liberdade era o recreio que nos liberava do cativeiro e até a merenda fraca parecia um banquete.
AFORÍSTICO O sonho acabou: agora só temos coxinha, risólis e quibe.

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