Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
A morte da carpa
Havia tristeza ontem no Parque Castelo Branco em meio ao bulício da Feira: a carpa adestrada (tinha até o nome de Simone) morreu de insolação porque, habituada à água turva, não suportou ficar num meio cristalino. O que Simone, apontada pelos biólogos como da espécie cabeça-grande, fazia para virar uma vedete como nos anos 60 isso se dava com o touro charolês Ricardo?
Simples: a carpa é de um modo geral amestrável, condicionável por estímulos, o mais apto dos peixes de água doce, o que obviamente não a aproxima em termos de habilidades e aprendizados ao golfinho. Atendia pelo nome, de qualquer ponto do tanque, deixava-se pegar e haviam até improvisado mamadeira para essas demonstrações, e ela dava o show simulando um lactente.
Essa retirada do ecoambiente dá margem a muitas reflexões. Os caiçaras dizem apropriadamente matei tantos peixes porque a captura e a transferência do meio é a morte. O verbo matar é uma definição mais adequada, mesmo quando o peixe ainda está vivo e salta no cesto, na rede ou na areia da praia.
Isso também se dá com os homens. Não se tira impunemente dos seus hábitos para situações novas. Vejam agora o que se dá com a maioria dos governadores eleitos do Brasil: estão em Brasília, atentos a tudo o que ocorre, farejam os cortes e a extensão e profundidade do ajuste fiscal, enfim se mexem.
Já o nosso governador, Jaime Lerner, como se desfrutasse o merecido repouso de guerreiro, que acabou de sair da batalha de Pirro, está em safari na África do Sul às voltas com elefantes e leões, que, é claro, não lhe são dóceis como os áulicos palacianos, sempre dispostos a exaltar suas nem sempre claras e visíveis virtudes.
O Paraná não sabe como fechar suas contas do trimestre final, no exigível imediato há falta de R$ 400 milhões, mas somando tudo e, afastando aquilo que pode ser empurrado com a barriga como os precatórios, como sempre faz, existe uma necessidade de quase R$ 2 bi. A grana do Banestado, às voltas com a fúria do interbancário, de R$ 4,1 bi, nesse aperto é bem capaz de ficar na moratória, a arrecadação chegou no limite e é inelástica, as ações da Copel, se agora forem vendidas pegam um preço desprezível em função da convulsão das bolsas.
Enfim, estamos engolfados de problemas emergentes, que vão além das enchentes, e não cuidamos adequadamente do que está por vir, e o governador passeia. Está no seu habitat, adequado, aliás, ao viajar na maionese, uma das suas artes, infelizmente não traduzível para os Jogos Mundiais da Natureza. Deixem-no na doce contemplação das savanas, o fulgor rubro do horizonte.
Pena mesmo foi o que aconteceu com a carpa Simone. É um exemplo da violência da mudança de ecossistema, por menor que seja a alteração, a troca da água marcada pela turbidez pela cristalina. Pavana para a carpa.
FOLCLORE
Mãe Diná, a pitonisa, já disse: a final do Campeonato Nacional será entre o Coritiba e o Corinthians. O clássico Coco. Haja cacófato
AXIOMA Manchete do Correio Braziliense de anteontem indicava que o ensino superior das universidades públicas deixaria de ser gratuito. Austeridade demais para o assistencialismo à brasileira, cultor do Estado-albergue. O governo que não está disposto, na hora de partilhar sacrifícios com o garrote fiscal, apressou-se em desmentir. O pagamento não é questão fundamental, não vai resolver a questão financeira das universidades e as evidências de desperdício e prodigalidade, mas seria uma medida justa, adequada a um novo Brasil que vira as costas para a demagogia e o populismo.
Quando fiz a Universidade ela era paga e para os que não tinham recursos, como era o meu caso, havia a isenção obtida junto ao diretório acadêmico e com a competente comprovação. Provocamos o debate do assunto da CBN e a maioria dos que se manifestaram era favorável ao pagamento por entenderem que os que mais podem é que ficam com as vagas da universidade gratuita e os mais pobres sofrem com o peso das mensalidades das particulares.
GLOSA O Papa condena na Encíclica Fé e Razão o cientificismo e também o fundamentalismo e especialmente o vazio do nosso tempo na filosofia. Nada mais chocante do que a ordem totalitária que se está eregindo com o neoliberalismo, este sim de raiz confessional, apontado com um determinismo.
Quando se usava a episteme religiosa para combater o determinismo da moda, embora alcançando apenas uma parte do mundo, como socialismo real, dizia-se que o homem precedia o Estado e que por isso não poderia ter uma relação de servidão. E o mercado, hoje apontado como a mão invisível, precede, por acaso, ao homem ou é apenas uma de suas extensões sociais e culturais?
BIZARRICE Numa coisa o Jaime Lerner está certo: entre o Luis Roberto e o Caio Soares, este último parece mais adequado preceptor. União da Vitória dá muito mais do que o Aníbal Khury e o Ervin Bonkoski, como se vê.
SPRAY Mais leilão no Banestado. Entre os arrematáveis, alguns bens das Malas Ika, uma briga em família, cujo mico sobrou para a mãe Joana financeira. - Pelo jeito (e mais com as notícias de recompra de títulos podres estaduais) o saneamento do banco oficial vai ter problemas, como se não bastassem as razões políticas já arguidas por deputados de oposição que acham a grana demasiada. - Um caso de voto distrital radical é o de Airton Rovedo com seus 17 mil votos em União da Vitória. - A crise do jornal Indústria & Comércio está na cara: amarelou. Estava com um tipo de papel jamais visto. Cartão amarelo já recebeu de toda a classe jornalística, inclusive dos profissionais que o carregaram nas costas durante muitos anos e que o transformaram numa escola. - Jornal do Oeste dizia ontem que Requião venceu em 12 dos 21 maiores municípios do Paraná, como se isso servisse de consolo. Não chega a ser a vitória moral do Brasil no Mundial da Argentina, ainda mais depois da delação do goleiro do Peru, mas o raciocínio é válido pra quem tem que recompor as forças de oposição. Incrível é que não olhem como uma falha não terem derrotado um governo tão vulnerável e quando todas as condições favoreciam. Incompetência, sem dúvida.
CROMO Pássaros invisíveis fazem com árvores e ramagens gorjeiem.
AFORÍSTICO A inveja que intelectuais têm de Fernando Henrique é de lascar: ela é visível nas linhas e dispensa entrelinhas.





