É clássica a novela de Gregório Samsa, de Franz Kafka, que se vê, ao despertar como num sonambulismo, transformar-se aos poucos em barata. Como tudo o que escreve, vai colocando as coisas num clima de absurdo, como faz em ‘‘O Processo’’, dignificado no cinema por Orson Welles, uma visão bastante depressiva da condição humana e dos seus conflitos na família e diante das instituições como a justiça e a polícia.
Pois o cidadão Carlos Eduardo Ross, de Curitiba, está há dois dias vivendo um drama kafkiano: o caseiro de uma propriedade da família, no Barigui, encontrou um inseto muito parecido com o barbeiro, o triatomíneo causador da Doença de Chagas. Como há mais de 30 espécies, era preciso identificar o inseto. E aí é que começa a novela: da Secretaria de Saúde o empurraram para a municipal, que o transferiu para a Vigilância Sanitária, daí para um serviço de zootecnia no bairro Uberaba, onde a única pessoa habilitada a resolver o problema estava em férias.
O brasileiro se sente menos do que uma barata, como Gregório Samsa, e próximo do verme que é da escala zoológica menor e mais adequado para caracterizar os que aceitam, como ritual, a humilhação: ofendido, mal atendido, embora com todos os impostos pagos, pronto para receber o pisão que o libertará dessa malha de absurdos e opressões.
Muitos anos atrás um primo meu, o médico Alberto Acioly Veiga, que antes de dedicar-se à clínica geral teve uma passagem de pesquisas científicas em Ribeirão Preto e por isso estava familiarizado com endemias, viu na parede do seu apartamento em Caiobá um exemplar do barbeiro, o temível chupança.
Capturou-o com um copo e ao ser feito o exame apurou-se que se tratava de um barbeiro e, o que é mais incrível, infectado, o que se dá numa frequência de um para uma centena. Procedida a investigação do encadeamento epidemiológico, apurou-se que o inseto atuava junto a um criadouro de gambás onde se estabeleciam as bases para a contaminação. Cito o caso para mostrar que não é impossível o fato se dar em regiões não endêmicas. As endêmicas se situam no Norte Pioneiro.
A municipalização da saúde, que como tese é correta, por descentralizar e baixar custos operacionais, deveria habilitar os seus organismos a dar respostas rápidas a um problema como esse sem amarrar-se na perplexidade de investigar se o barbeiro é municipal, estadual ou federal. Mas o serviço público é vítima da sociedade do espetáculo e a aranha marron, por causa também da frequência dos seus ataques, ganha um status que o chupança ainda não alcançou.
Desolado, seu Carlos Eduardo, ainda de posse do barbeiro, pergunta se se dá nesse caso o mesmo que ocorre com a Copel que pede aos usuários para não ligarem para aquela empresa para avisar da falta luz. A luz não espanta apenas o Drácula, mas também a escuridão da burocracia inerme e inerte.
BIZARRICE - O índio para pressionar o governo na demarcação de suas terras está apelando para a derrubada de torres de transmissão de energia e rompimento de barragens (que tal o exercício desse democratismo a la CUT e PT em Itaipu pelos avá-guarani, tão silvícolas que usam a camisa do Flamengo e não abrem mão do gravador e do radinho do pilha?); o sem-terra não está nem aí com a questão legal quando invade uma propriedade, sob o fundamento de que tem direito à vida (se todos forem cobrar assim, viraremos logo o Zaire). Assim, pois, os magistrados vão fazer também a sua mobilização para não perder os seus direitos. A reunião vai ser no dia 26 e o volante de convocação tem um tom assembleísta: ‘‘Não podemos permitir a destruição do Poder Judiciário’’.
Anteontem, em decisão do STF contra os interesses do governo, ficou provado que o problema não é de autonomia, mas de avaliação da anatomia do poder, o que o atravanca e o torna ineficiente. ‘‘Os vencimentos estão sendo achatados’’, dizem. Imaginem o dos servidores de outros poderes.
SPRAY - Aplicado ao Paraná, por extensão, o princípio de que não devem ocorrer aumentos diferenciados (o que de certa forma se dá no reajuste de 28,8% dado pelo STF), o caixa do Estado estouraria. Há professores que tiveram aumentos superiores a 100% no acumulado, enquanto o resto ‘dançou’. - O tema ainda mais regougado nos meios políticos é de advocacia administrativa e atinge parte nuclear do poder estadual. Também na área forense o assunto é muito enfocado. - Num momento em que se unem na ‘‘mobilização pela justiça e a cidadania’’ é, no mínimo, estranhável que um release da Procuradoria Geral de Justiça seja intitulado assim: ‘‘Juiz liberta chefe da quadrilha do ICMS’’, ao enfocar um caso ligado à falsificação de guias. Com Ministério Público trombando dessa forma com o Judiciário as coisas em nada favorecem o convívio. - Por sinal que aquele caso do exame preambular viciado do Ministério Público não deve terminar em pizza. Pegaria mal para a instituição, praticamente transformada num quarto poder, como o ‘ombudsman’ da sociedade, botar panos quentes em assunto tão sério. - Do Judiciário, uma inovação a saudar com a atual direção: o fim das catracas tira a ponte levadiça que separava advogados e partes da Justiça.
FOLCLORE - Cometi um erro, dias atrás, ao atribuir a Washington Luís o apelido de ‘‘seu M钒, quando foi dado, conforme me corrige o leitor Maurício de Assis, na campanha presidencial de 1922, pelos eleitores de Nilo Peçanha ao concorrente Artur Bernardes. O apelido surgiu na letra de um samba que animava o carnaval daquele ano, de autoria de Freire Júnior e Careca e que tinha este refrão: ‘‘Ai seu Mé!/ Ai seu Mé!/ Lá no Palácio das Águias, olé!/ Não hás de por o pé...’’ Diz mais o Maurício: ‘‘Assim, ‘seu Mé’ era o Artur Bernardes. Washington Luís (26-30) recebeu da oposição os apelidos de ‘dr. Barbado’, ‘Seu Lulu’, ‘Vais, então, Luís?’’’

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