Luiz Geraldo Mazza
O estribilho sem resposta
Anteontem, em sessão do Congresso, quando se discutia o limite orçamentário das câmaras municipais, com uma participação soberba do senador Espiridião Amin, citava-se o caso de São Paulo, que com os cortes da austeridade ficaria em pouco mais de R$ 300 milhões. Aí o senador Roberto Requião pediu para lembrar que importância superior a essa foi gasta pelo governo paranaense em propaganda.
Alguns acharam inoportuna a intervenção, outros a aplaudiram, mas não há como discutir a pertinência da colocação: se o País trava seriamente a batalha do ajuste, situações como essa do Paraná constituem uma espécie de cadáver insepulto na medida em que até hoje o governo, a despeito da contundência da acusação, comprovada em documento assinado pelo secretário de Comunicação Social, não deu a menor bola para o assunto, como se estivesse acima de todos os poderes. Esperamos que a nota pública do Sindicato dos Jornais e Revistas seja para valer e não apenas um ato de mera censura: o jornalista Abdo Aref Kudri, ciente de que nem 10% desse total drenou para a mídia impressa, exigiu, com apoio no direito à informação, uma resposta oficial, para não parecer também que essa prodigalidade se devesse à gula dos veículos.
Se durante a campanha era desconfortável dar essa resposta, embora obrigação moral e jurídica da autoridade, nada mais justifica o silêncio delinquente que faz supor a existência de patranhas inomináveis. Não apenas o senador tem o direito de fazer o estribilho em torno desse tema, mas o conjunto da sociedade paranaense. Tanto neste caso, quanto no do Banestado, cuja quebra é um mistério, quanto à autoria, já que até hoje o governo estadual manteve distância olímpica de qualquer explicação. Até que um dia possa ir a multidão, diante do Palácio Iguaçu, pedir ao governador, travestido de rei, que explique como conseguiu o milagre científico de queimar mais de R$ 100 milhões em propaganda por ano numa economia e num Estado com finanças engessadas. O clamor deve ser ouvido também pelo Tribunal de Contas, a quem cabe o controle da legalidade orçamentária dos atos públicos.

BIZARRICE
Rafael Greca quer antecipar a sucessão estadual: se a despeito do seu porte revela tanta agilidade, imaginem o que faria se tivesse o biotipo do Cássio Taniguchi, que trabalha em silêncio de ninja, sem espalhafato.


AXIOMA Quais os cortes imediatos no governo estadual: o da vaidade em cima da propaganda pessoal, abolindo-a radicalmente; alugueres de carros (botem fim nessa fonte estranhíssima de ganhos absurdos); fim das mordomias (a moleza de viagens a três por dois, inclusive de Sua Excelência e acólitos); corte junto aos ossos na burocracia, seja por programa de demissão voluntária, ou fim de cargos em comissão (ninguém os criou com tanta prodigalidade como agora); controle no oba oba de promoções que não dão retorno na área cultural e dos esportes, como os celebérrimos Jogos Mundiais da Natureza; Assembléia Legislativa dava para ser tocada por 400 servidores e tem hoje (alguém sabe ao certo?) mais de 8 mil, e o Tribunal de Contas e o Judiciário? Indispensável controlar as abomináveis e picaréticas ‘‘terceirizações’’ que não trazem economia ao Estado e apenas criam cartórios, como o que está no ‘‘disparo’’ para vistoria eletrônica dos veículos.
Lerner já obteve um feito: romper a dependência de São Paulo. Que imite agora Manoel Ribas que, por fazer cortes, ganhou o apelido de Maneco Facão.
GLOSA Nenhum país tem a mania obsessiva de ganhar as coisas no ‘‘tapetão’’ como no Brasil, seja no futebol (Botafogo querendo ganhar pontos do Atlético e o Grêmio fazendo o mesmo com o Coritiba, por causa do jogador Cleber, autorizado pela FIFA) ou na política, visível na medíocre jogada do PMDB de contestar o pleito que poderia ter vencido com um pouquinho mais de competência.
Para o mau amante, doutrinava o mestre, até o pêlo atrapalha.
SPRAY O PMDB quer criar um fato político agudo com a contestação da limpidez do pleito que reelegeu Lerner. Além da ação no TRE, tentará o movimento nas ruas, como era comum em passado recente. - O mesmo grupo, que manteve em funcionamento as barracas com vídeo e som, no sábado, quando a lei não o permitia, deve incumbir-se dessa operação ao lado de outras como a de coleta de assinaturas e mais grafitagens contestando a legalidade do pleito. Vai dar em nada, mas que agita não se pode duvidar. - Publicações com os fundamentos do pedido no TRE vão ser distribuídas. - A pulverização dos pesque-pague está preocupando os que investiram no setor acreditando em retornos rápidos. - Há abusos como o do Pesk-Truta, em Garuva, que cobra R$ 8 por quilo de truta (limpa). - Os equipados com mais atrações (tobogã, play-ground, grelhas, bar, restaurantes) levam vantagem. - Mesmo em áreas de pesca abundante, como no Pantanal, eles proliferam. - No antigo Recreio da Serra, em Piraquara, nos mananciais, também há exploração de um deles. - A vantagem que o pesque-pague oferece é a da segurança, pois é comum haver hoje assaltos nos pesqueiros mais escondidos dos rios da Várzea, Negro e Iguaçu. - Não é só o Bill Gates que leva sustos com a telemática que tanto domina. Ontem e anteontem, por falha na emissão, a minha coluna saiu com o mesmo texto. Para quem não é um amante da informática, pelo menos na intensidade e domínio dos meus netos, não é uma surpresa. Quando o sistema ‘‘cai’’ em função do corte de energia, olho, com redobrado respeito, a minha máquina de escrever, arqueológica e útil.
FOLCLORE Piadas de vestiba, nos tempos heróicos em que havia prova oral, são comuníssimas. Uma delas, que teria ocorrido num exame de história, o aluno estava jejuno, não dava uma dentro. Aí o piedoso mestre querendo ajudá-lo, mas próximo da exasperação, perguntou: ‘‘Quem descobriu o Brasil?’’ O cara, nada. O mestre falou em voz alta: ‘‘Pedro Álvares Cabral’’. O aluno sai de mansinho. O professor pergunta: ‘‘Aonde é que você vai se o exame não terminou?’’. Retruca o vestiba: ‘‘Mas o senhor não chamou outro, um tal de Pedro?’’
CROMO No caminho do bisturi, artérias e nervos são como sépalas e pétalas nas mãos dum jardineiro.
AFORÍSTICO Há políticos que não desistem nem mesmo diante da derrota mais acachapante. Estes, no passado, brigavam pela maioria absoluta e como ela é prática legal com a exigência dos dois turnos, são capazes de sugerir, na velha tradição do casuísmo, o direito à repescagem, comum no futebol.

mockup