Luiz Geraldo Mazza
Que felicidade!
Há uma piada pedagógica: a do cara que bate a cabeça no poste, seguidamente, mas que tem a compensação de um estado quase nirvânico ao parar de fazê-lo. Essa dialética se aplica ao processo eleitoral. Que felicidade a nossa em não termos segundo turno! Imaginaram a tormenta das denúncias superficiais, do jogo solerte dos publicitários tentando alugar a nossa cabeça: nós, como sempre, os idiotas, eles, como manipuladores, os gênios.
Aqui a oposição não teve competência para explorar, ao fundo, os erros do governo, insensato e descuidado, de Lerner. Como, aliás, a oposição se revelou incompetente no plano nacional para levar a decisão ao segundo turno. Tinha tudo para fazê-lo: os números o comprovam de maneira clara. A choradeira de Lula, no sentido de que a mídia e as pesquisas (que aliás agem juntas) lhe foram fatais, é ‘‘menas verdade’’. Nunca a declarada esquerda (tenho as mais sérias restrições à colocação genérica, pois a nossa, como é descrita, ainda não se libertou da pior das pragas, o populismo) teve tantas chances de chegar junto e só se pode atribuir a derrota ao mau desempenho. Bobeiras que vão da idiotice de trocar a bandeira vermelha pela branca, a da rendição, como alertou Brizola, a de colocar Lula perto de uma estante de livros para tirar da mente das pessoas o preconceito contra o homem de poucas letras e que apenas serviu para acentuar a caricatura.
Requião, aqui no Paraná, teve todas as condições de emplacar, a despeito da desigualdade de recursos (falam que o oficialismo queimou mais de R$ 60 milhões) e da circunstância de se postarem contra ele todos os níveis de governo. Não foi a esponja suficiente para absorver todo o descontentamento aberto contra os governos estadual e federal (o municipal de Curitiba vai muito bem), pois é visível que boa parte dos votos que obteve são contrários a Lerner e não a seu favor. Voto de protesto, com raiva, próximo da irracionalidade.
Felizmente, porém, vivemos um momento de euforia por não termos que suportar essa carga intolerável de segundo turno, ainda que com horários reduzidos, mas lugubremente chatos, que não educam, que não motivam. Indispensável que todos os atores da cena política, vitoriosos e derrotados, refletissem sobre essa questão. Falharam redondamente. E no Brasil há tudo por fazer, há espaços para doutrinas, para o exercício do pensar, do sentir, tão duros são os nossos problemas.

AFORÍSTICO
Um cientista político afirmou que Lula ainda acabaria presidente, como se deu com Mitterrand que disputou várias vezes. Na analogia, a distância imensa de um processo civilizatório diferenciado que a ideologia tenta, de forma singela, simplificar.


AXIOMA A eleição passou e ficamos sem saber quem quebrou o Banestado. Requião diz que foi Lerner e este acusa o acúmulo dos governos anteriores. Essa é uma das maiores provas de que não sabemos praticar a democracia em profundidade. Agora vem o processo de saneamento do banco, toda a poeira é lançada para baixo do tapete, uma anistia geral para fraudadores e inadimplentes é adotada e nós, como sempre, pagamos a contar sem sequer obter a informação mínima.
GLOSA Frieza é uma coisa que irrita. Quando houve, na IIª Guerra Mundial, o debate se os Estados Unidos deveriam ou não lançar a bomba atômica sobre Hiroxima e Nagasaki, o presidente Harry Truman argumentou: ‘‘Quem não gosta de calor que se afaste da cozinha.’’
BIZARRICE Empresários condenam nova CPMF, querem também que o governo baixe as taxas de juros e que abra fontes de financiamento à atividade econômica. A arte de fazer omelete sem quebrar ovos é uma constante na cabeça de todos. O Brasil quebrou e todos ajudaram nessa obra. Na partilha das responsabilidades, vão querer certamente que apenas a vítima de sempre, o consumidor, pague. Não há como acertar o desequilíbrio fiscal sem mexida nos tributos. Maioria dos empresários não está pagando tributos, previdência, FGTS, mesmo quando os desconta da massa assalariada. Basta olhar o panorama no Paraná.
SPRAY Qual será o novo mapa da política brasileira, logo que tivermos o final das eleições em segundo turno? Acredita-se na criação de um partido de centro- esquerda, tanto no governo, quanto na oposição.- Figuras fortes como Jaime Lerner e Álvaro Dias permaneceriam nas legendas atuais, PFL e PSDB, que sustentam o governo.- Requião poderia permanecer no PMDB, mantendo o domínio regional, mas sem espaços no quadro nacional. Haveria ainda a hipótese de ficar com o espólio do PDT, o que já foi cogitado anteriormente.- O PT sai rachado, como já estava desde a convenção, quando os xiitas perderam por pouco para os moderados que apóiam Lula.- O PPB sai emagrecido da disputa, ainda mais se Covas derrotar Maluf em São Paulo. Há quem preveja sua absorção pelo PFL, mas tudo isso tem um acento forte de direita.- O surgimento de um partido trabalhista (obviamente não o PTB, que pouco tem a ver) na base de uma fusão do PT com o PDT é considerada. O funcionamento do pacto Lula-Brizola, este um condestável, mas identificando no petista a referência maior, é pré-requisito.- O PSDB ganhou maiores espaços e, dependendo do segundo turno, pode fortalecer, na aliança de governadores, suas posições de aproximado equilíbrio com o PFL, que teve perdas significativas.- Na esquerda, o PC do B, que sempre colocou um ‘‘cordão sanitário’’ para manter a doutrina, é o que mais se alista entre os declarados comunistas e os encabulados (como o PPS). Mas Ciro Gomes ganhou credenciais especialmente na fase final da campanha quando, com Lula, fez declarações conjuntas de condenação às distorções do processo eleitoral.-
FOLCLORE Miguel Zacarias, delegado da DOPS, durante muitos anos, boêmio, estava no fim de sua vida meio ‘‘baleado’’, mas assim mesmo persistia no gosto pela madrugada. Consta que foram visitá-lo e lá estava ele com o seu corpo magro na cama com aspecto pouco saudável. De repente, alguém mexeu nas cobertas e lençóis e lá estava o doutor Zacarias, de terno e grava, calça vincada, pronto para sair que a madrugada era criança. Só não estava de sapatos.
MÁXIMA ‘‘Os homens são os únicos animais que se devotam diariamente a tornar os outros infelizes. É uma arte como outra qualquer. Seus virtuoses são chamados de altruístas.
CROMO No menino de rua, cheirando cola, adulto precoce, a certeza de que o culto de ontem é uma empulhação. De cada dez, nove terminarão mal, alguns nas mãos dos esquadrões de extermínios. Nem poesia, nem discurso, os redime.

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