Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O Brasil melhorou
Para os azedos, os que interpretam a história em função das titilações das hemorróidas, o Brasil vai mal, está à beira do abismo e entra em colapso, sem falar que as eleições foram falsas e não democráticas, como os derrotados afirmam. Estamos mudando para melhor. O fato de um originário das classes trabalhadoras (hoje é um político profissional como Álvaro Dias ou outro qualquer) como Lula disputar eleições polarizadas é um avanço na condição de país reacionário e com instituições enraizadas no período colonial. Também melhoramos o nível de contestação dos pleitos: em 58, por exemplo, liberais da UDN foram aos quartéis tentar empolgá-los para impedir a posse de Juscelino sob o fundamento de que JK não obtivera maioria absoluta, o que não estava previsto nas regras do jogo. Hoje a maioria é regra e há segundo turno.
Se olharmos nitidamente os resultados, tanto o nacional como o regional, teremos que concluir que a oposição teve todas as chances de emplacar e dispersou também a oportunidade por boa dose de incompetência. Se ela crê na sinistrose que espalhou, enquanto insistia no desafio a FHC para que viesse de público discutir a crise das Bolsas e o pacau de bico em que estava o País, na verdade não soube comunicar outra coisa, a não ser perplexidade. Também Requião parece ter levado tão a sério as pesquisas - aquelas que davam 15 a 17 pontos para Lerner na frente - que não soube botar calor nas suas falas e nas suas exortações quando tinha tudo para fazê-lo.
Tiveram, portanto, chances iguais dentro dos limites e do grau de evolução político-institucional da sociedade brasileira para ganhar. Essa idéia fixa de que as pesquisas induziram o eleitor, especialmente no caso de São Paulo, é uma tolice: num universo de dezenas de milhões de votos, com as amostragens limitadas, o resultado, num pleito polarizado, foi próximo das sondagens. O choro é para manter a idéia conspiratória de que a mídia e mais os institutos manipularam tudo. Lula se saiu pior do que há quatro anos em São Paulo, sua base: perdeu de 59,89 a 28,84 quando em 94 marcou 27 contra 55.
Já na primeira eleição que disputou, Lula foi o culpado da derrota: perdeu bisonhamente um debate para Collor quando o havia massacrado no anterior. É claro que houve a sórdida manipulação da Globo para avacalhar ainda mais o desempenho do petista, apoiado naquela oportunidade por uma frente de esquerdas e liberais mais ampla do que a de agora, mas suas responsabilidades na derrota são facilmente identificáveis - e hoje também.
É também notório que ainda persiste uma carga preconceituosa contra Lula e que ele pouco faz para abrandar. A idéia de colocá-lo ao lado de uma estante de livros é tão ridícula quanto a de trocar a bandeira vermelha pela branca.
No Paraná, igualmente, a oposição desperdiçou uma oportunidade excepcional para ganhar, explorando vacilações e silêncios, covardias e prodigalidades, do situacionismo. Nada como uma purgação de culpas, no exercício da autocrítica, para mostrar humildade e confiança na democracia. Bateram pênalti fora.
AFORÍSTICO
Mais frequência de eleições é bom para a democracia e melhor para o mercado de trabalho informal. Onde há segundo turno há mais gente trabalhando
AXIOMA O PMDB escolheu a Internet para fazer denúncias: pretende tocar uma contra Algaci Túlio em cima de favores oficiais. A denúncia sobre o Banestado com as amostras de atas não teve sequência no horário eleitoral e já se diz por aí que isso decorreu de ameaça de revelar o que houve na gestão de Requião no mesmo estabelecimento.
GLOSA O Paraná sob enxurrada, e com muitos flagelados, e o governador viajando ao exterior. Nada muda: só falta, a partir do ano que vem, viajar para receber prêmios no exterior. Até na bagagem dele se vê a quebra de empresas regionais: não leva mais as malas Ika, que deixaram o mico para o Banestado.
BIZARRICE Num programa de televisão insisti que nada tenho de pessoal contra Aníbal Khury, campeão de votos (e até por isso merecendo a presidência, como rezava tradição antiga), mas que sua atuação revoga o sistema tripartite de poderes imaginado por Montesquieu em O Espírito das Leis ninguém duvida. O pior, porém, está nos outros que se submetem a esses transbordamentos.
SPRAY Ninguém está acreditando que as regras do jogo político mudem na questão do voto distrital misto e da fidelidade partidária, o que está sendo, como sempre, prometido. - Basta ver as megavotações no Paraná para perceber que esses recordistas são os menos interessados na mudança. - Um beneficiário desse sistema, Reinhold Stephanes, de outras ocasiões, acabou não emplacando. - Mas houve, em várias regiões, mobilização para eleger políticos da área e isso acabou não funcionando. Excesso de candidatos disputando o mesmo espaço, por exemplo, prejudicando uma figura indispensável à bancada: o Paulo Bernardo que dividiu o território com excesso de gente, inclusive do seu PT. - Agora estão convocando o Paulo Bernardo para consultoria parlamentar num campo que domina como poucos, o da estrutura orçamentária. Antes essa delegação era dada a burocratas, como ocorreu, durante muitos anos, com o celebérrimo Antoninho do Orçamento dos tempos de Ney Braga. - Chocante nas eleições o desempenho pífio do Luis Eduardo Cheida. Considerado, teoricamente (afinal em seu currículo havia apenas a eleição para prefeito de Londrina, na qual teve uma ajuda muito especial do Antonio Belinati), como o maior eleitor do partido, saiu-se mal. - A surpresa foi a façanha de Nedson Micheleti para um candidato de esquerda no Paraná ao obter mais de 20% dos votos, a maior até agora.
FOLCLORE Sou um ser político e vou continuar fazendo política enquanto houver injustiça social no País. Declaração de Lula. Isso aí lhe garante, de saída, a vitaliciedade de cátedra e o envolvimento na política até o fim da vida. Pelo jeito essa injustiça só termina quando for eleito e como isso não vai acontecer persistirá na luta, menos árdua do que a fresa metalúrgica.
EPIGRAMA Como uma sociedade não pode só cuidar do lado social, como se dá em Cuba (saúde, educação, cultura bem atendidos com economia de baixo desempenho), também não há como aceitar o paradigma contrário que é o Brasil, forte como mercado, todavia com a parte social abandonada.
CROMO A menina arregalou os olhos à procura da santa, que todos diziam ver no Bosque do Papa, e acabou quase cega. Curiosidade maior do que a fé.





