Luiz Geraldo Mazza
Uma visão poliédrica
A governadora em exercício, Emília Belinati, ao contrário de uma versão corrente no sentido de que a vitória de Lerner teria sido estreita demais, considera que o Paraná deve ser colocado ao lado das grandes unidades federativas como São Paulo, Rio, Minas Gerais e Rio Grande do Sul e nestas, como se sabe, o oficialismo, quando conseguiu o melhor resultado, ganhou o direito de disputar o segundo turno. Apenas Antonio Britto saiu à frente, depois de muito sofrimento (quase tanto quanto o da leitura dos boletins do estado de saúde de Tancredo, que ele fazia com desenvoltura como porta-voz) e de contar com a reação do voto manual. Um detalhe diferencia: nenhum dos pleitos foi rigidamente polarizado como o nosso.
Mas há ainda outras colocações que podem ser feitas. Requião, embora marcando mais votos do que os de Álvaro Dias como opositor de Lerner, fez muito menos do que o obtido quando da campanha senatorial. Outra colocação na mesma linha é a de que somando a abstenção mais os nulos e brancos, tanto Lerner quanto Requião obtiveram percentuais globalmente pouco significativos. Se o resultado é contra Lerner também atinge Requião, pois numa eleição em que à oposição caberia captar o sentimento de resistência, de contrariedade, ao que aí está, ele foi insuficiente para configurar essa hostilidade ao statu quo.
Batalha perdida, seja a política ou a militar, é assunto para sempre e com múltiplas justificativas, seja a campanha de Napoleão na Rússia, seja a primeira derrota de Miterrand para De Gaulle ou, no foco da província, aquela vitória de Roberto Requião sobre Lerner para a prefeitura de Curitiba, em 85. Naquele caso, o atual senador estava em posição parecida com a do governador com toda a máquina na mão. O secretário de Transportes de Richa, o Deny Schwartz, mobilizou milhares de ônibus, que pareciam os elefantes do Aníbal Barca, pra fazer ‘‘boca de urna’’, e acusa-se o fato de que parte dessa claque votou. Como a diferença foi de 17 mil votos, a de agora, de pouco menos de 250 mil, está mais ou menos na mesma condição. Uma espécie de troco.
Aliás em 85, quando o PDT tinha militância, houve agito na Boca Maldita com barracas tomando assinaturas pedindo a anulação do pleito. Hoje o PMDB se limita, através dos boletins de Requião, a ameaçar a contestação judicial do pleito. Percebe-se aí o intento de marcar com as mesmas tatuagens que ficaram em Requião, especialmente as formalizadas contra a sua eleição para o governo em função da fraude eleitoral do Ferreirinha, e a do Senado, com a impugnação levantada. Sub-judice duas vezes, a da prefeitura da Capital se esgotou na ameaça, Requião foi beneficiado por revisões de julgados do TRE, que o acabaram condenando. Esse, no entanto, é o seu ecossistema, o da luta, o da tensão, e sabe-se que tende a crescer na adversidade.
O aliado mais briguento, autor inclusive da devassa nos protocolos, Luíz Cláudio Romanelli, não se elegeu. Também o irmão de Requião, Maurício, aparece na suplência da bancada federal. É a contabilidade negativa. Sua condição de grande eleitor não está afetada, mas figura atrás de Lerner e Álvaro Dias.

AXIOMA
Romanelli alega que perdeu o pleito por ter cuidado mais da campanha de Requião. Mas o seu oportunismo de lançar o comitê com Álvaro e FHC, para fugir à rejeição de Lula e do PT, pode lhe ter sido fatal para o eleitor esclarecido


GLOSA O Ibope está sendo metralhado, mas o Datafolha insiste em dizer, no dia a dia, que acertou as previsões. Do Ibope veio uma crítica dura em audiência de televisão: teria registrado a SBT ganhando da Globo num dia em que aquela estava fora do ar. Essa audiência impossível seria como o ruído do mar no interior do caramujo. Está aí uma frase quase poética para justificar.
BIZARRICE Paranaguá, mais uma vez, está feliz: não elegeu um só deputado e isso por causa da autofagia e uma certa dose de burrice. Houve,aliás, líder ressentido da terra que ajudou a dar votos para Marcos Isfer. Para quem teve Accioly Filho como deputado estadual, federal e senador, e Munhoz da Rocha como deputado federal, governador e ministro, é bom mostrar que deixar a cidade aberta aos pára-quedistas não é uma boa.
MST NA OEA Está criado um problema pela Pastoral da Terra com a denúncia do Movimento caso da morte do Teixeirinha. O organismo de direitos humanos recebeu o pedido de reconstituição do episódio de Campo Bonito em que morreram três PMs e o líder sem-terra, Diniz Bento da Silva, depois de haver se rendido, e submetido à execração e à tortura, seguidas de morte. A instituição procura, em duas semanas, dar a resposta.
Pretende-se com isso pedir ao governo brasileiro que reabra procedimentos e, caso não o faça, seja condenado na infração de vários artigos. A polícia do Paraná e o Judiciário já estão tratando do caso, que chegou a ser ‘‘arquivado’’ quando sob os cuidados de um IPM do foro militar.
É o maior incidente da história recente do Paraná nas lutas fundiárias. Está longe de figurar, porém, ao lado de Corumbiara e Eldorado de Carajás. Agiram bem os que deixaram o assunto para depois da eleição, pelo emocionalismo que provocaria. Um dos pontos fortes dos depoimentos está na carta que Horácio Martins de Carvalho que, encarregado para tratar de ocupações e assentamentos, escreveu para o governador Requião, magoado com o fato de ter havido repressão, que na verdade foi inevitável diante do ‘‘linchamento’’ dos três PMs descaracterizados pelos assustados sem-terra, que haviam descumprido acordo com o governo, invadindo outras áreas. Horácio é dirigente de uma ONG vinculada aos problemas e exercia funções no Instituto Ambiental.
SPRAY Anexação do Alçada pelo TJ não passou por 32 a 4. - Datafolha diz que acertou as pesquisas, mas no Paraná a ‘‘boca de urna’’ deu 56 a 43 para Lerner, e na verdade o resultado foi de 52,21% a 45,91, além da margem de erro. - Bruno Lopes, ex-Ibope, ontem num programa da TV Cultura: ‘‘O registro de probabilidade é feito em bases científicas.’’ Continuo achando que não é ético um Ibope firmar contrato com partidos e candidatos e fazer pesquisas.
FOLCLORE - Se houver nova eleição, você disputa? - Digo. É o que estou dizendo por causa das malditas pesquisas.
CROMO Sisudos senhores conversam seus negócios e não enxergam as evoluções de um colibri na ramagem que transborda o muro: verde e azul é o balê.
AFORÍSTICO Nos States, a Câmara, por 258 a 176, decide investigar, e a pesquisa diz que quase 70% dos norte-americanos são contra o ‘‘impeachment’’ de Clinton. Será que lá também há agora má vontade com pesquisas?

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