Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Concessão demasiada
Não bastasse a diluição alienante dos marqueteiros que despolitizam, de forma sistêmica, as eleições, temos ainda um outro fator perturbador no emprego de figuras populares do showbizz para animar os programas, como o Nerço da Capetinga fez com a campanha do PSDB em Goiás e que agora o PMDB promete, para o segundo turno, repicar com o Tom Cavalcante, aquele do Sai de Baixo, que continua cada vez mais sem graça. Como Lerner teve aqui a apoiá-lo a empatia do Boldrin e o Zé Carlos Martinez deve, em grande parte, a sua eleição ao Ratinho (senhor Rato, segundo o Enéas), percebe-se que a política é uma área que se sustenta em indignidades das mais vís. Não dá para imaginar uma pessoa séria e com alguma profundidade fazer esse cortejamento servil a um conceito vago em torno do desejo mais profundo da plebe ignara.
Não bastassem as figuras do Boneco, do homem do espanador, como no passado tivemos o Soltowski, que desfilava nas ruas com uma enxada para pregar as virtudes do trabalho, e como houve em Paranaguá o Segismundo, que quase levou uma eleição de prefeito decalcando o Sujismundo de uma campanha institucional do governo, uma espécie de embrião do lixo que não é lixo, há quem deseje investir cada vez mais nessa linha, que seria menos degradada do que as liofilizações marqueteiras. O circo se torna dominante quando não prevalecem as ações dos publicitários tratando o candidato como um produto, em grande parte das vezes um urinol, com o seu mutismo branco e o braço, de um lado só, na cintura.
E depois de tudo isso há ainda quem faça um ar misterioso e pergunte por que houve tanta apatia (e militante, o que é mais grave), abstenções e votos nulos e brancos no processo eleitoral. Por que não levar um macaco amestrado, um mago, um comedor de gilete e de vidros, um assoprador de fogo e um faquir, que pegaria bem num petista radical? Ou então aparecer no ar com a ex-loira do Tchan, a Carla Perez, a fazer abundantes movimentos, como fez o Précoma e que se tivesse maior frequência, levaria muitos a um pré-coma.
Dentre as passagens que recordamos sempre com algum constrangimento está aquela do Affonsinho Camargo em campanha presidencial ao lado do Tião Macalé, repetindo a purgação nojento e falando com os baixinhos como se decalcasse a Xuxa. Parece incrível que aquele que foi o maior articulador político do Paraná na arrancada dos anos 60 - e um dos elementos-chave da articulação que elegeu Tancredo Neves - fosse capaz de tanto. E foi. Felizmente passou e estamos à espera daquele Affonsinho que queríamos como governador em 1965.
GLOSA
O governo Lerner está em férias coletivas. Como quase sempre. Em eleições saem do normal e trabalham. Agora, como são filhos de Deus, viajam
AXIOMA Nos anos 40, um cidadão achou um anel de advogado precioso, um chuveiro de brilhantes e o rubi destacado. Honesto, foi a um jornal e entregou a jóia para que fosse procurada pelo verdadeiro dono. Orgulhoso da reportagem do jornal, que o tirou do anonimato, passava na Rua XV, perto da loja dos Abreu, e quis transferir aos outros a sua alegria pessoal em servir ao próximo. Aí dois típicos curitibanos da rodinha dialogaram: Quem é o rapaz simpático que nos cumprimentou? - Não sei, não, mas tenho a impressão que esteve envolvido no caso de uma jóia.
BIZARRICE Pelo jeito, o crime organizado, que viu a moleza que é operar em Curitiba, atendeu ao apelo da Caixa Econômica Vem pra Caixa, você também! Os ladrões foram lá e levaram R$ 210 mil. Logo na sede principal, ali perto da Praça Carlos Gomes.
EMÍLIA A governadora em exercício, Emília Belinati, tem uma explicação nova para a pequena diferença entre Lerner e Requião: Nos grandes estados como São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, faixa mais ou menos do Paraná, o governo, na melhor das hipóteses, ficou para o segundo turno. Aqui nós ganhamos de saída. Esse é o raciocínio que deve ser feito. É um ponto de vista bastante razoável e a analogia tem alguma procedência.
O fato é que Requião foi uma espécie de esponja para as insatisfações contra os vários governos, dos municipais aos federais. Na verdade, o handcap em questão o favorecia e isso parece ter sido subestimado, enquanto se dava uma super-estimação ao poderio de Lerner.
SPRAY Derrubada a liminar que garantia às concessionárias do pedágio a não realização de obras. O decisório é da juíza Maria de Fátima Freitas Labarrére, do Tribunal Regional Federal de Porto Alegre. À exceção do Lote 4, o que vai de Guarapuava a São Luís do Purunã e de Guarapuava a Ponta Grossa, os outros vão ter que basquetear. - Essa batalha vai continuar, mas o governo tem o dever imperioso de impedir que se frustrem as esperanças da população, exigindo o andamento das obras, já que foram suprimidas muitas delas e foi bastante alterado o respectivo cronograma. Caso contrário, vai parecer golpe eleitoral a baixa dos 50% nas tarifas, o que seria intolerável. DER começa já a fiscalizar as concessionárias. - Hoje, às 9 da manhã, sessão plena no Tribunal de Justiça para acertar a fusão com o Tribunal de Alçada. Um dos que mais se bateram por esse objetivo, quando na presidência do Alçada, foi o juiz Luíz Gastão Alencar Franco de Carvalho. - Os abusos parlamentares constituem outro dos fatores que levaram o povo nas eleições a fugir das urnas (maior taxa de abstenção) e de votar branco e nulo. Há, por exemplo, na Assembléia uma picaretagem sem tamanho: a que rompe o sentido estamental dos quadros da Receita abolindo o concurso público e deixando área tão relevante nas mãos da politicagem. Calhordice inominável.
FOLCLORE Depois daquela piada sobre as coisas impossíveis - negros gêmeos, cabeça de bacalhau, enterro de anão, santo de óculos e eleitor do Aníbal Khury (que aliás contestou com seus números a blague) - apareceu uma nova: pagamento do jornal Indústria & Comércio não ter bronca de atraso ou de cheque frio. E as vítimas não acabarem cedendo ao charme e à sedução do Odone Fortes, como quase sempre acontece. Deveria ser o negociador da dívida externa brasileira. Seguiria o conselho do mestre John Keneth Galbraith: ela é impagável.
CROMO Chove. Chove sangue. Não esqueço da cena do filme francês Os três mosqueteiros. O espadachim entra na estalagem e do teto escorre sangue de um ferido que goteja em sua mão. E o dito em francês é deslumbrante: Il pleut. Pleut du sang.
AFORÍSTICO Como na moda, os políticos ficam fora de padrão. Caso do Enéas. Se ele faz os 270 mil do outro pleito, elege o Moreno para federal.





