Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O queijo socialista
Tenho, a despeito das reações de intelectuais, às vezes zoológicas, uma admiração muito grande pelo Ratinho como fenômeno de comunicação, o que não significa o meu aplauso a tudo o que faz, pois já lhe disse, pessoalmente, discordar do encaminhamento de casos teratológicos e daqueles em que inexiste a mínima esperança de recuperação e que apenas criam uma expectativa ansiosa em torno dos que padecem da mesma situação. Anteontem, porém, o Carlos Massa bateu todos os recordes ao gritar, indignado, que o Brasil precisa socializar a saúde pública diante de um daqueles casos que leva ao seu pátio do desespero.
Se no tempo da guerra fria ele desse um brado igual em programa de audiência forte, acabaria enquadrado na Lei de Segurança Nacional e passaria pelo risco da tortura e da morte, porque muitos foram trucidados por muito menos. Qual a importância dessa declaração feita em forma de catilinária? É que isso já está no campo doutrinal e vinha como sequência de uma situação paradigmática de exclusão, para usar um termo da moda, dentre as muitas que diariamente desfilam naquele Grand Guignol.
Precisamos socializar neste país a saúde pública! O rosto contraído, com lágrimas de revolta, em primeiríssimo plano, o apresentador, com essa atitude forte, disse mais do que todos os candidatos, durante a campanha eleitoral, mesmo os da esquerda xiita, sobre um pré-requisito de qualquer país moderno: saúde pública não pode ser área de corsarismo e de vôos da iniciativa das privadas. O socializar é usado em sua acepção neutra e não a semântica lavrada pela ideologia. Com o desmanche do aparato estatal em nome de uma mudança que não se enxerga no horizonte - a de devolver ao poder público as tarefas de saúde, educação e segurança (FHC vive a bater nessa trilogia que seria atendida com prioridade assim que o Estado empresarial ruísse) - chegamos ao caos nesse atendimento básico da população.
Ratinho costuma dizer que o seu palco é um estuário da pobreza e da miséria que o Brasil oculta. Que vá em frente nesse tipo de comparação e repita, mais vezes, que precisamos socializar a saúde. Para conter a fúria privatizante da picaretagem do seguro saúde, da previdência particular (o GBOEx e o Montepio da Família Militar são memoráveis), nada como uma frase traumática.
AFORÍSTICO
Com a viagem de Lerner para o exterior, fica tudo como estava: a rotina de sempre, os mesmos áulicos (estavam à beira de um colapso na hora das apurações porque sofrem antes a hipótetica angústia do chefe), vair ser duro de aguentar. E só pra suportar quando a gente lembra da hipótese adversa
AXIOMA Na eleição de 85, a primeira em que Lerner e Requião se enfrentaram e com a vitória deste, Os Menudos estavam em Curitiba e o fanatismo tanto pelos artistas como pelos candidatos era tão intenso que aproveitando gritos das meninas que chamavam Rick! Rick!, a turma do governo pegava carona na frase e acrescentava um ão, fazendo merchandising daquele que ganharia.
GLOSA Das derrotas da campanha eleitoral, as de Romanelli, do Maurício Requião e de Reinhold Stephanes são as mais marcantes. Romanelli não tinha mais casinhas para dar, Maurício não contava com a Fundepar e o último entrou naquela definição de FHC sobre os que se aposentaram com menos de 50 anos.
BIZARRICE Requião anunciou em Brasília que vai expulsar todos os traidores, isto é, prefeitos do PMDB que não o acompanharam. Como com o PDT, vai ser um mistério saber quem apaga a luz dos diretórios municipais.
TEIXEIRINHA Pouco se falou na campanha eleitoral sobre a morte do líder sem-terra Diniz Bento da Silva, o Teixeirinha. Apenas o Jesus, do PSTU (alguns confundem com o IPTU e ficam raivosos), fez menção ao assunto e meio de passagem o Jamil Nakad e o Cândido Martins de Oliveira. Massificado, o tema criaria problemas nas alianças à esquerda. Pois ontem o advogado Darci Frigo, da Comissão Pastoral da Terra, em Washington, levou novas provas para condenar o governo brasileiro na Comissão Interamericana de Direitos Humanos em cima da tragédia de Campo Bonito. Violações de vários dispositivos da Carta de Direitos Humanos são elencados como o artigo 4 (direito à vida), 5 (direito à integridade pessoal), 8 (garantias judiciais), 11 (proteção da honra e dignidade) e 25 (proteção judicial). Com novos depoimentos, inclusive o do filho da vítima, Marcos Antônio da Silva, que indicou o local onde estava Teixeirinha ao entregar-se à PM, pretende-se condenar o governo brasileiro por mais essa infração.
Imaginem se essa audiência se dá no andamento da campanha eleitoral. No material enviado pela CPT aos jornais não há referência ao fato de que os sem-terra executaram três PMs descaracterizados, mas tão-somente que o comandante da operação foi promovido e que houve o flagrante de tortura contra um grupo de sem-terra nas instalações policiais de Cascavel.
SPRAY Ainda ontem o escritório político de Requião mandava notícias sugerindo que o pleito pode ser anulado. Viajar na maionese não é exclusividade do Lerner. - Nenhuma mulher eleita no Paraná. Isso é recuo. - Pessoal da GW, do Paraná, que fez a campanha de Lerner, vai tocar a de Covas em São Paulo. Outro paranaense é chave no comitê do Maluf: o Carlos Nasser. - Ontem, para variar, greve outra vez no Indústria & Comércio. Queriam receber agosto e o Odone Fortes estava a contragosto, como sempre. - Espero que em 99, antes portanto de 2000, a imprensa subvencionada suma do mapa e isso por imposição da crise de Estado e não por vontade de Lerner, que notoriamente é adepto da barbárie.
FOLCLORE 1 Ontem, 6 da madrugada, o zelador do Hotel Regência viu de um carro de Pato Branco, estacionado à frente, ser roubado de um toca-fitas, após o gato haver quebrado o vidro. Saiu correndo, e meia hora depois voltou dizendo que estava com fome e em troca de pão com manteiga entregou o toca-fitas. Uma cena chapliniana de Curitiba no hotel do João Maria Ferreira, presidente do sindicato de hotéis e similares e que anda bronqueado com falta de segurança.
FOLCLORE 2 Guilhobel Camargo, ao saber que até carteirinha de motorista é feita pelos colonizadores, no caso o American Bank Not Company, teme que dentro em pouco tempo imitemos Porto Rico. E diz: O MEC comprou lápis chinês e a Labra quebrou; compramos mala da China e a Ika foi para o saco.
CROMO Na enxurrada, solitários eu e o guarda-chuva: ambos descartáveis.





