Nada mais pedagógico e correto do que se falar a verdade num momento em que impera a bajulação. E isso pode acontecer hoje no retorno de Jaime Lerner lá no Palácio Iguaçu. Como nem Lerner muito menos a sua sequiosa equipe gosta de ouvir certas coisas, isso independentemente do momento e da circunstância, dá para imaginar a cena bufa que seria um ‘‘jogo da verdade’’, um psicodrama, do que ocorre nos bastidores deste governo, minado pelo cochicho regougado das denúncias cabeludíssimas.
Um grupo de deputados, em número de 34, o que não é para brincadeira, quer derrubar a amurada medieval que os impede de conversar com o governador nem que seja obrigado a valer-se de um instrumento bíblico do porte das trombetas de Jericó. Particularmente irritados com o fato de empresas de prestação de serviços vinculadas ao sistema estarem fazendo atendimentos diretos aos prefeitos sem a audiência do deputado da região, o que nas proximidades de eleições é mortal.
Claro que a turma do deixa disso tentará obter moratória para essas coisas, como sempre fez para afastar o governador desses padecimentos intoleráveis de ouvir coisas negativas do seu governo sob o fundamento de que ele convalesce, tanto que usa muletas e até cadeira de rodas.
Se tudo o que se anuncia por aí for dito teremos o Juízo Final ou, quem sabe, o ‘juízo, afinal’ nesse meio para o fim de governo, até agora com nenhuma obra e pródigas intenções. É possível que o fulgor do poder cegue e cale as pessoas, mas as queixas cumulativas, se colocadas num processo eleitoral, não deixariam pedra sobre pedra. Uma das acusações genéricas é de advocacia administrativa, o que em certa escala até se compreende como inerente à nossa cultura política bem macunaímica, mas que, quando extrapola limites, sufoca até por bloquear espaços aos outros que afinal também são filhos de Deus.
Não esqueçamos Talleyrand, que de tanto citar já desgastei, quando adverte que ‘‘a palavra foi dada ao homem para dissimular seu pensamento’’, com que parecia estar se referindo essencialmente aos políticos. E dando um conselho aos que prometiam ainda ontem virar a mesa.
BIZARRICE - Justamente quando se badala o tema das prisões e do encarcerado da Campanha da Fraternidade, a polícia do Paraná atribui boa parte da safra de delitos de ultimamente aos presos que saíram da Colônia Penal, liberados para o Natal e que não retornaram.
A polícia está na defensiva e tanto que ontem tentou contraditar a pesquisa do Ministério da Justiça; passa agora, em termos locais, a jogar a culpa em outra secretaria no clássico jogo de empurra. Antes de culpar os presos deveriam cuidar de recapturá-los, tarefa mais relevante do que correr atrás da prostituição (antiga como o musgo das árvores centenárias) no Passeio Público.
SPRAY - Quem manda mais no governo dentre os GG existentes: o Guelmann ou o Gionédis? Essa pergunta, maliciosa, é de parlamentares que tentam falar com o governador e não conseguem. Uma coisa se pode dizer: as figuras nada têm de simétricas, nem na forma e nem no conteúdo. - Empreiteiro ameaça parar obras se o governo não pagar os atrasados. Estava habituado, no regime inflacionário de até outro dia, a buscar saídas em empréstimos gigantescos no Banestado. Não há mais espaço para esse tipo de manobra. Resultado: não podem ficar blefando, mas devem se mirar no exemplo dos índios que derrubaram as torres da Eletronorte para pressionar o governo. Ou os sem- terra porque, caso contrário, se verão impelidos a demitir funcionários. - Por que não abrir o cadastro do DER, mostrando o que foi pago e o que há a pagar? O diretor do DER desafia a Apeop a comprovar o que afirmou. - Se o interior não ficar submetido às regras do meio ambiente se poderá dizer que haverá afrouxamento do ambiente inteiro. Insisto no caso do lixão de Porto Amazonas, que com a subida das águas do Iguaçu espalha a carga pestilenta por todo o rio. - Além do Natálio Stica, os vereadores Jorge Bernardi e José Aparecido Alves defendem a Vale do Rio Doce contra a sua alienação. - Maior saída política para Lerner seria de voltar às origens, ao PFL, substituto do PDS ao qual era filiado: neutralizaria as ações federais (truculentas ou sutis, através de Serjão ou de FHC), poderia emplacar na vice-presidência, mas implodiria a malha de interesses político-empresariais que lhe dá sustentação se não fosse reeleito governador. Essa a reflexão que um analista político fazia ontem enquanto capturava lagostas no Rio Belém. - O povo do Paraná tem o mesmo orgulho do brasileiro quando vê o desempenho de Fernando Henrique no exterior em relação a Lerner? É para pensar antes de mergulhar no templo do ‘‘Chapéu Pensador’’. Pensar não ofende e comparar também não. - O Crea desaprovou tanto o primeiro teleférico quanto o segundo, surgido de reformas, por entender, pericialmente que não pode operar sem risco. Mandou ofício para o juiz de Guaratuba e o prefeito de Matinhos.
FOLCLORE - O Paraná foi comparado à terra da promissão, à Canaã, agora em Paris por empresários franceses. Nos anos 40 e 50 éramos, a um só tempo, as duas coisas: terra da promissão e da promissória. E essa promissória, como o papelucho que valia dinheiro, na base da confiança mútua, ajudou a irrigar a civilização do café. Sobre a terra pometida, a verdadeira, há uma anedota: Moisés vai ao Sinai e ouve um elogio e uma admoestação de Jeová - a de que foi preciso na divulgação das tábuas da lei, mas que não entendeu bem a mensagem sobre a terra da promissão. ‘‘Eu falei, Moisés, em Canadá, e você entendeu Canaã!’’

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