Luiz Geraldo Mazza
O Brasil que submerge
Nada como um chavão sociológico do tipo ‘‘qual o Brasil que emerge das urnas de 1998?’’. O mais apropriado, tal a compulsão nacional pela sinistrose, que se perguntasse qual o país que submerge, principalmente se confirmarmos os vaticínios dos economistas críticos e da oposição diagnosticadora. Tanto os nossos políticos quanto os nossos economistas, alquimistas do óbvio, são muito bons para diagnósticos e nada eficazes para terapias. O Brasil está doente, dizem todos, mas, embora condenem a terapia governamental, não têm proposta de medicamento para debelar a moléstia. E por isso estamos lascados.
O Brasil que emerge e/ou submerge das urnas mudou muito pouco. No Paraná, por exemplo, tido como sociedade aberta, o mais votado deputado federal é Rafael Greca de Macedo, brilhante e capaz de recuperar o fastígio do discurso que tivemos com Munhoz da Rocha e Accioly Filho, como ele próprio enuncia, um exemplar clássico da sociedade cartorial paranaense. E vemos ainda outro desses exemplares como Affonso Camargo Neto, pai do vale-transporte, no topo da lista, herdeiro de uma das mais luminosas oligarquias da terra. No outro extremo, duas expressões do Paraná novo, Álvaro e Osmar Dias, transformando a representação senatorial em domínio de uma família, o que nem no Nordeste é facultado ocorrer.
Assim, pois, dependendo do raciocínio que se faz, o veredito eleitoral pode ser olhado por vários matizes, inclusive alguns positivos como a renovação, ainda que insuficiente, do Legislativo estadual que deveria ser mais apurada.
Significativamente não teremos melhora na representação. Lerner de hoje nada tem daquele que se elegeu em 94: mais gordo e menos mito, minado pelos atos de corrupção de sua gestão, que Requião não soube explorar com a devida frequência e intensidade, especialmente o ocorrido nos chunchos do Banestado e nessa vergonha, próxima do escabroso, que é o ‘‘investimento’’ em propaganda. Aliás, pela votação oposicionista, fica demonstrado de que pouco vale o caráter chapa-branca da mídia. Aliás, ela já era assim, o que não impediu a ascensão do PMDB e, muito menos, a sua inexorável queda, ora reafirmada.

AFORÍSTICO
Curioso é que muitos dos adversários do princípio da reeleição não conseguiram reeleger-se como deputados. Ironia ou justiça poética?


PESQUISAS Sobre institutos de pesquisa urge estabelecer a proibição para que não possam ser contratados por partidos e candidatos. É fácil arredondar um número com a manipulação da chamada margem de erro. Carrega num e esvazia no outro, lá se vão 6 ou 8 pontos, como está acontecendo até agora pelo andamento das apurações. Proibir as pesquisas é idiotice, mas submetê-las a regras mínimas de ética é uma necessidade, reafirmada pelos casos notórios de manipulação havidos em nível nacional e regional.
Nestas eleições, mais derrotados do que governo e oposição foram os Ibopes.
GLOSA Milton Buabsi, dirigente peemedebista e coordenador eleitoral, dizia, lá pelas 11 horas de ontem na Rádio CBN, que com a chegada dos votos manuais Requião passaria, no final, pelo menos 2 pontos à frente de Lerner. Como o comandante do barco é o último a descer no naufrágio, a recomendação é útil, mesmo quando despropositada, para manter a fiscalização atenta.
Fica provado com isso que o PMDB é agora o partido dos grotões, como se dava com a Arena no regime militar. Vai atrofiar sua representação parlamentar.
AXIOMA Se o Álvaro Dias se bate na hora de votar, a troco de quê vão querer que o Zé da Esquina, que nunca viu um videogame, não demore para computar?
BIZARRICE Álvaro Dias sai da seção eleitoral se queixando da máquina. Não podia ser a máquina eleitoral do governo, que até o ajudou no acordo secreto, mas da urna eletrônica que teria pifado em Londrina. Há quem afirme que ele está fazendo charme para ocultar o voto dado a governador, qualquer que fosse o colocaria mal: Lerner por causa do ressentimento; Requião pela esnobada sofrida em 94, quando evitava apoiá-lo ostensivamente para não se desgastar.
SPRAY Pronto-socorro cardiológico esteve a pique de funcionar para atender candidatos diante do ritmo das apurações do TRE. O esoterismo em torno do coeficiente eleitoral perturbava o entendimento e havia candidatos à reeleição que já no início da tarde desistiram de acompanhar os boletins eleitorais. - Duas boas notícias de qualquer forma: a votação do doutor Rosinha para federal (ele que era um cricri necessário nos desmandos da Assembléia) e a do Hauly, um dos melhores parlamentares de nossa bancada. - Votação excepcional de Rafael Greca é inconfrontável com registros anteriores, feita a adequação ao colégio eleitoral, como as de Jânio Quadros e Ney Braga em 58 (o primeiro, mais de 70 mil, o segundo, mais de 50 mil), as de Paulo Pimentel e Álvaro Dias. Mas é um feito que o credencia, como aconteceu com Jânio, Carlos Lacerda e tantos outros, a aspirar patamares mais elevados. - Uma explicação da diretoria financeira do Banestado de que o havido com os R$ 110 milhões em títulos podres de Santa Catarina e Osasco era apenas uma transferência entre a corretora e o banco é ‘‘menas’’ verdade, como diz o Lula ao lado daquela estante de livros. O fato é o seguinte: essa é ultimação de venda e tira o pepino da Divalpar, uma das organizações que mais operam na área, e passa o ‘‘mico’’ para essa Mãe Joana de inadimplentes e fraudadores, que é o Banestado. - Empresários que sempre meteram a mão no bolso para ajudar Lerner passaram para o outro lado, isso é para assinantes do ‘livro-ouro’’ da oposição. E isso não se limita ao caso do empresário que esteve envolvido no Clube dos 60%, farra do ICMS, mas outros mais afinizados. - Tribunal Regional Federal de Porto Alegre cassou a liminar que sustava a cobrança do pedágio na BR-277 no trecho entre a BR-466, na entrada de Guarapuava até a fronteira do Brasil com Paraguai. - Quem havia feito o pedido tinha sido o procurador da República em Cascavel, Celso Antonio Três, fundamentado no direito de ir e vir. O despacho é da juíza Luiza Dias Cassales. - O público anda com medo de que a baixada em 50% adotada por Lerner acabe caindo e isso, se acontecer, vai ser o caos. Para uma época de aperturas, como a que virá com a recessão, será um suplício de Tântalo.
FOLCLORE Jingle mais cantado pelo Ratinho: ‘‘Ê Martinez, tô te chamando’’.
CROMO Qual a melhor imagem para Lula: Dom Quixote lutando contra os moinhos do FMI, ou um dos cavaleiros do Apocalipse junto com o doutor Brizola?

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