Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
Sonrisal e Alka-Seltzer
Metáfora frequente em minhas reflexões sobre política é a de comparar os partidos iguais (e como eles assim se apresentaram para a eleição de hoje!) a uma escolha entre Alka-Seltzer e Sonrisal, muito comuns nas driabruras do capitalismo, e cuja especificidade fica menos a uma questão de substância do que de marketing. Pois essa analogia permeia hoje, ainda mais com a visão hegemônica do mercado como valor maior e ao qual todos se submetem, todo o processo político e vai além dos partidos, que assim se apresentam, como também ante os candidatos.
PSDB, PFL e PMDB nunca foram tão semelhantes como nessa quadra histórica. No entanto, nem sempre foi assim: o PMDB encarnou a resistência e não soube ajustar-se à nova realidade do estado de direito democrático instalado. Hoje, por seu agudo oportunismo, está igual aos demais. O PSDB, um PMDB encabulado e em crise de consciência, veio com o papo da social democracia, velho cacoete da burguesia nacional visível no PSD (Partido Social Democrático), de Vargas e do aparentado Almirante (chamado de Alzirante por causa da mulher, Alzira, filha de Getúlio) Amaral Peixoto e nos tempos da milicada no poleiro o PDS (Partido Democrático Social), que entrou em lugar da Arena.
Já o PT também tem a sua crise de identidade, face ao aglomerado de tendências, algumas de um radicalismo infantil, escotismo às avessas. Mas em ação, o resultado, aí sim, é social-democracia. No amálgama das facções, o produto final é desse teor, mesmo que no espectro ideológico, lá no campo do ultra-violeta, haja núcleos tidos como revolucionários. O Vladmir Palmeira, festivo como a área de sua atuação, o Rio de Janeiro, é olhado como xiita pela Convergência Socialista e agrupamentos mais moderados.
Pela experiência regional, dá para perceber que tanto Lerner como Requião, sob o ponto de vista do discurso, têm tonalidades de caráter social-democrata. Nos critérios de hoje, não dá para apurar isso porque o discurso está em aberta dicotomia com a prática: Lerner com sua abertura excessiva ao cosmopolitismo, como faz também FHC; Requião com seu autoritarismo e sua nostálgica procura de apoios no nacionalismo, na autarquia, na visão agroindustrial, distante da economia de escala, hoje impositiva em razão da globalização.
Para completar, o quadro de coisificação, o homem (e o partido) levado à redução mercadológica, foi trabalhado intensamente pelos marqueteiros que conseguiram despolitizar a campanha. E com o modismo de entronizá-los como mais importantes que o filósofo e o técnico, afinal os que trabalham com valores, sepultamos a política na cova rasa do pior dos oportunismos.
AFORÍSTICO
Nesta campanha houve um curso intensivo de deseducação política. A perda desse tempo vai nos ser cobrada, duramente, pelas gerações do amanhã
AXIOMA Alberto Dines, na TV Cultura, mostrou que Clinton é o sujeito mais ferrado do planeta em termos sexuais: deve ter a resistência da mulher, Hillary, por causa da notoriedade dos seus casos; o receio de procurar outras e acabar processado, restando-lhe a alternativa drástica do sexo solitário. Sem charuto, é claro, ainda mais se forem cubanos.
GLOSA Piada sem graça, de tão batida, é dizer que Monica Lewinsky vem aí para fazer a boca-de-urna. Agora não se iludam que, a despeito da proibição legal, os ousados vão fazer boca-de-urna de qualquer jeito. Por falar nisso, a mobilização, pelo lado do governo, vai lembrar aquela que o pessoal do Richa fez para que Requião derrotasse Lerner em 1985. Justiça poética e patética.
BIZARRICE A pieguice do choro do governador no último programa de televisão, com aquele fraseado de opereta só perde em melodrama para o balbuciar lacrimoso do lavrador da oposição, que perdeu o trator vermelho com aquela música sombria ao fundo. O pior é que os caras que bolam isso posam de gênios.
PESQUISAS As últimas pesquisas (a do Ibope saiu ontem, a do Datafolha hoje) vão acabar chegando na previsão que fiz inicialmente: de 7 a 10 pontos. A do Brasmarket já não surpreende, pois, desde a primeira, revelou números bem mais enxutos e distâncias mais curtas. O último deu 46,7% para Lerner, e 39,5% para Requião, numa distância de 7,2 pontos. Perdeu uma fração em relação a anterior, que mostrava oito pontos.
Já a do Vox Populi - que, como todos sabem, faz, também juntamente com o Ibope, pesquisas internas para a coligação situacionista - mostrou a manutenção da diferença de 15 pontos, tanto na estimulada (52 a 37) quanto na espontânea (49 a 34). Como há essa relação de cliente com o governo, a oposição procurou convencer, com os meios disponíveis ao seu alcance, seus cabos eleitorais a continuar soltando resultados diametralmente opostos ou a interpretações extensivas, como o jornal de Cascavel fez ao mostrar o equilíbrio entre Lerner e Requião, afirmando que este subia e aquele caia.
Para o Senado, todas indicam vitória fácil de Álvaro Dias, mas na do Vox Populi ele tinha 60 contra 13 do Nedson Micheleti, este indicador apontado como o maior já obtido pelo PT em majoritárias. Tem que dar o desconto da aliança com o PMDB e os demais nanicos.
CINEMÁTICA Mário Moreno (sem parentesco algum com o candidato a federal do Prona, muito bem sucedido em saque de marketing), o Cantinflas, figura máxima do cinema mexicano, um Chaplin aculturado de índio, cigano e urbano, fez uma paródia de Romeu e Julieta. Na cena em que o frei o esconde na sacristia para um encontro com Julieta, esta entra na sala, onde o amado está à mesa a tomar café, e fala rimado: Romeu, não percebes que por ti meu coração bate? ao que ele replica, em versos também: Julieta, deixa eu terminar meu chocolate.
FOLCLORE Quando Bento Munhoz da Rocha foi candidato contra Pimentel em 65, o Liberalino Estevam fez a quadra: Não assopre contra o vento// que o vento não tem lei// Seja Bento cem por cento// Mil por cento contra o Ney//
Como era agente duplo, o poeta fez a resposta para o outro lado: Nesta era tão moderna// e de tanta confusão// Paraná não se governa// Com uma garrafa na mão! Era a referência a uma mentira corrente de adversários de que Bento era ligado em bebida.
CROMO E essa seiva-leite corrosiva do mamão e da Coroa de Cristo que agride e não amamenta, que serve de panacéia para amaciar carne e remover verrugas?





