Luiz Geraldo Mazza
Deus e o diabo
na terra da chuva
Sem querer parodiar o genial Glauber Rocha as últimas sortidas da campanha eleitoral - seja a do senador Requião assumindo uma postura pastoral, meio pentecostal ou a do deputado Luis Carlos Alborghetti exorcizando o demônio que o candidato oposicionista em frase descontextualizada admitiu em seu palanque - sugerem um drama picaresco a ser denominado, em função das atualizações de cenário e ambiente, ‘‘Deus e o diabo na terra da chuva’’.
Parece incrível essa compulsão dos políticos para se identificarem com místicos e religiosos. Alguns o fazem por vocação de magistério como tantos pastores, que estão por aí esperando votos como se fosse o maná bíblico, ou em casos de identificação cultural (Francisco Julião, das Ligas Camponesas, piada perto do atual MST, era a encarnação híbrida do Antonio Conselheiro e do Padre Cícero) e de transbordado populismo.
Fernando Henrique, em seu aprendizado, teve uma passagem ridícula quando, para expor o seu entojado intelectualismo e querendo posar de materialista, afirmou não acreditar em Deus. Ora um sociólogo, que pede votos no Brasil, e se diz ateu está mais perto de ser à-toa, uma pisada na bola sem tamanho. E isso aconteceu numa eleição para a prefeitura de São Paulo, que ele perdeu por causa dessa asneira e de outra escorregada, a de fazer o gênero liberado, confessando que fumou maconha, ainda que estivesse longe de lembrar um chibabeiro. Ora o horror das famílias é esse vestiba dos tóxicos que começa com o plebeu ‘‘fumo’’, o ‘‘baseado’’, da erva e que chega à pós-graduação do pó-de-anjo, da heroína, da cocaína e do crack.
Com Requião, o pessoal da situação fez o que a sua turma costuma fazer com os outros: ‘‘descontextualizou’’ uma frase do senador numa entrevista em que mostrava que era possível ser pragmático, usar certos meios para atingir fins morais e éticos, sem abrir mão de convicções pessoais. E partiu para o exagero ao admitir que aceitaria o ‘‘coisa ruim’’ em seu palanque eleitoral. O demônio pessoal de Álvaro Dias pode ser o Lerner e, a rigor, com o comício de ontem, acabou na prática chegando à metáfora de Requião.
Essas coisas para o povo comum tem um outro tipo de tradução. Tanto que muitos até hoje não enunciam a palavra Satanás para não invocá-lo, conforme um conceito antropológico, aqui já explicado, de ‘‘noa’’, o anverso do tabu, dos polinésicos, que faziam da atenuação do nome ou da coisa interditada uma forma de neutralizar seus efeitos maléficos e mágicos. É evidente que a frase pinçada é terrível. Tanto quanto a forma como liquidaram Richa em 1990 por haver praticado um ato legal, o de aposentar-se como governador, ainda que discutível para o moralismo de circunstância da política. O que acabou também como um caso de justiça poética: Richa se valera desse expediente para vencer Saul Raiz. É o bumerangue da fatalidade, embora pareça punição divina.

AXIOMA
Por causa dessa estória do Sata, que era como Cantinflas chamava amavelmente o diabo, houve demonstrações de erudição explícita na Boca Maldita sobre o Doutor Fausto e Mefistófeles, encarnações desse tipo de literatura


GLOSA Esperavam 800 pessoas no jantar do Gustavo Fruet em Santa Felicidade e a reunião foi de 3.180 participantes. A velha guarda trabalhista (Léo de Almeida Neves, Amadeu Geara, Arlindo Ribas de Oliveira, Moacir Tosin, Nelson Maculan) lá estava. Muita emoção. Lá estive espiritualmente e me lembrei do Maurício Fruet, embalando um desses jantares, cantando ‘‘Voa, minha linda borboleta// Voa, procurando a ilusão// Voa que é a vida é tão boa// Quando se tem um amor no coração//.’’ Há algo mais simbólico do que borboleta, resultado da mudança da larva em ninfa, paródia da imortalidade em sua provisoriedade bela.
BIZARRICE Voltando ao tema demoníaco: há uma piada de um bebum que depois de tomar várias no boteco à custa dos frequentadores diz que estaria disposto a vender a alma ao diabo se lhe dessem mais uma pinga. Lá no fundo do balcão um cara sinistro, de chapéu e capa, voz soturna, dispõe-se a pagar. O bebum toma, e quer se mandar. O cidadão que pagou cobra o compromisso. Aí o pau-dágua diz que não acredita nisso. O homem estranho o conduz para fora: mostra-lhe primeiro o coração pegando fogo (seria o do Lerner?), em seguida o pé de cabra e na linha dos sucessivos espantos ele só se acalma quando o cara tira o chapéu e o bebum desperta ‘‘Ai, gaúcho! Você já estava me assustando’’. No Rio Grande do Sul a piada é com nordestino. Afinal este é um país fraterno.
SPRAY Várias tentativas de criar mártires nos últimos dias fracassaram: a primeira, a encenação na Secretaria da Fazenda; a segunda, a de ontem na prefeitura. Foi um selo que não colou. - IPMC era padrão, hoje é sucata e as críticas são à última diretoria que Taniguchi destituiu. - Reclamação de que a prefeitura não cobre a sua parte não daria para ser cobrada no caso do IPE. Governos jamais pagaram à exceção do de Pimentel, gestão Juvenal Pietraróia, sob a forma de investimentos nas sede de Curitiba e Londrina. Por isso que não há credibilidade na eficácia de fundos de previdência, tanto o de Requião que acabou ‘‘gorando’’ como esse prometido de Lerner, tocado Renato Folador. - A burocracia do Banco Central estaria criando dificuldade pontuais no processo de privatização do Banestado. Sobre isso, Requião disse que, se fosse eleito, renunciaria se privatizassem o Banestado, com o que sugere resistência, de precária viabilidade. - O meio empresarial imobiliário, incorporadores em especial, está em dificuldades sérias. Assim mesmo, a Galvão toca uma torre imensa, lado da Rua 24 horas, com lançamento de R$ 27 milhões em debêntures. - Outra área em crise, próxima da insolvência, é a dos transportes coletivos da Região Metropolitana, e isso favorece o grupo Gulin, que opera o filé do sistema em Curitiba. Houve promessa na gestão Greca, caso dos urbanos, de renegociar dívidas com BNDES e isso não aconteceu.
FOLCLORE Já vi de tudo em comício. Até um discurso iniciado com uma apoteose pelo então estudante Orlando Soares Carbonar (encerrou a carreira diplomática na condição de embaixador do Brasil em Roma) em favor do PSD: ‘‘Vitória... Consagração... Aos candidatos do Partido Social Demcorático.’’ Curiosa, no entanto, foi a do candidato no Nordeste, vestido impecavelmente de branco, declarando: ‘‘Irmãos, antes de tudo eu vim de branco para ser claro.’’
CROMO ‘‘Chove, chuva: os defuntos no cemitério bebem água.’’ Jeito do Dalton Trevisan dos tempos experimentais de surrealismo.

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