Luiz Geraldo Mazza
Pajelança na aldeia
Com as chuvas, Curitiba se presta para tudo menos aos comícios. Anteontem, o da oposição foi cancelado, substituído por uma entrevista chocha. Hoje é o da situação, com FHC e com a maior atração o encontro do século entre Álvaro Dias e Jaime Lerner, o primeiro fazendo biquinho e posando de independente, outro querendo ocultar o óbvio da nefanda ‘‘aliança secreta’’.
Se Franz Kafka estivesse em Curitiba quando bolou ‘‘A Metamorfose’’, o seu trágico personagem Gregório Samsa despertaria não como uma barata, porém certamente com um sapo. Afinal, o batráquio e o seu coaxar melhor se ajustariam ao ecossistema da praça. Como o sapo já é um produto de metamorfoses por sair como girino - um grão de feijão escuríssimo, com uma cauda - e depois virar essa cobaia útil que se presta ao exame de Galli-Manini, para ver se a urina da mulher acusa a gravidez ou ainda para exercícios de anatomia.
Quem não metamorfoseia é Curitiba que fica ainda mais chata com chuva e essa insuportável campanha eleitoral de baixo astral que nada esclarece e que, no entanto, serve para confundir. Pois ontem a preocupação nos comitês oficiais e no Palácio Iguaçu era uma só: a previsão do tempo e a reza braba para tudo ficar nos trinques nesta quarta-feira, que promete outro dilúvio. A idéia de haver bom tempo funcionaria também como um sinal mais forte para a vitória do que as pesquisas: como o arco-íris foi o sinal para Noé, em sua arca, de que Jeová havia restabelecido sua aliança com as criaturas depois de havê-las castigado com a mega-enchente, o sol seria a confirmação do que é esperado. Aliás, redundância, pois nada mais parecido com o Rei Sol do que FHC, Luis XIV redivivo.
A campanha está de tal forma ruim que nem a encenação dos professores ao invadirem a Secretaria da Fazenda emplacou: queriam algumas vítimas, outra vez, como as de dez anos atrás. Nem no agito há inovação, com os mestres querendo jogar o governo na parede quando estão carecas de saber que não há dinheiro e que se trata de um quase milagre o fato de os funcionários estarem recebendo seus pagamentos em dia.
Hosanas, Glória a Deus nas Alturas: o horário gratuito vai ter o último dia justamente amanhã. Devolvam-nos a inspiração das novelas e do Ratinho, do Leão e do Falcão, mas livrem-nos dessa caretice despolitizadora, graças aos marqueteiros que desfiguram o sentido da política ao submeterem-na à alienante liofilização da diluição cultural, da fragmentação do discurso, a bobagem travestida em glamour, a vacuidade policromática.

AFORÍSTICO
Programas eleitorais de tevê como os nossos, repetidos no mundo, despolitizariam até mesmo países avançados como os europeus


AXIOMA Só faltou o Curtume 2 comemorar com foguetes o Datafolha, que tirava 4 pontos de Lerner, tal a ansiedade dos piromaníacos. Quem ficou feliz com isso foi a cachorrada que entra em paranóia no momento do foguetório. Se cachorro votasse, os daquele bairro seriam Requião, com a cauda vibrando de alegria, porque nem tem foguete e nem motivo para comemorar. Au, au, Requiau.
GLOSA Em 1985, o apoio a Requião era tão grande que um panfleto insidioso, feito pelos lerneristas, sugeria que na linha Santa Cândida-Pinheirinho o usuário iria pagar duas passagens. O cartel dos transportes estava a favor, obviamente, e a jogada visava cobrar a antiga fidelidade do sindicato. A militância (que existia àquele tempo e hoje é substituída por profissionais) foi em massa até o ‘‘Jornal do Estado’’, em cujas oficinas o volante era impresso. A denúncia veio lá do jornal, é claro. Houve intervenção de Polícia Federal e do presidente do TRE e a manobra foi abortada. Agora, 1998, deve ter acontecido a mesma coisa em Cascavel, com os panfletos anti-Lerner que nada têm demais e estão longe de ser apócrifos. Alguém da cidade deve ter denunciado para que a Receita Estadual apreendesse o caminhão que conduzia o material.
BIZARRICE Se fizer tempo bom hoje, com a chegada de FHC, o que parece impossível, oposição pode dizer, tranquilamente, que o governo tem parte com as forças ocultas, e conseguirá, inclusive, credibilidade para a denúncia absurda, já sugerida pelo senador Requião no programa eleitoral de ontem.
EPIGRAMA Pobre quando diz que vai ver as Cataratas não está na porta da agência de turismo, mas no consultório do oftalmologista.
SPRAY Sai comício de qualquer jeito: persistindo a chuva, vai todo o mundo ao Marumbi Expo na Vila Guaíra. Objetivo é imagem para a TV, de Lerner com FHC, mais Marco Maciel e Álvaro Dias. - Como houve estiada, ontem à tarde, as ações preparatórias para o comício na Boca Maldita prosseguiram. O que chamava atenção ainda era a série de vídeos de programas do Requião proibidos pelo TRE recentemente. - Em 1990, o expediente deu sorte: o vídeo proibido do Ferreirinha passou em todo o Paraná. Mas aí havia governo e dinheiro que facilitavam. - Outra tentativa de ‘‘politizar’’ reivindicações do magistério gorou com aquela cena selvagem da invasão da Secretaria de Fazenda. É muita coincidência promover esse tipo de manifestação no estertor de uma campanha eleitoral. Querem criar mártires. Professor não é boi-de-piranha de aproveitadores políticos. - Mas o governo que pare de mentir em relação aos salários do magistério. É verdade que os aumentou, mas não no percentual alegado. O Paraná, segundo recente publicação, está longe de ter o maior salário. Isso está, de forma cabal, amplamente desmistificado. - O TRE, pelo jeito, perdeu a paciência com Requião. Já o advertiu, várias vezes, que não pode usar o horário dos deputados e ele continua fazendo e, ao que tudo indica, vai assim até amanhã.
FOLCLORE Essa é antiga e do Nordeste. O orador melodramático, na Praça Marechal Floriano, vira-se para o monumento e implora que ele se manifeste sobre a eleição. ‘‘Vossa Excelência, que resistiu ao estrangeiro, que é a expressão da brasilidade, me responda se devo ou não ser eleito?’’ Passam alguns segundos, o silêncio chega a perturbar, quando o orador, agora muito emocionado, a voz embargada, chorando: ‘‘Obrigado, Marechal de Ferro. Sabia que não me faltaria. Afinal, quem cala consente!’’
CROMO Tamborila a chuva na calha: a orquestra rotineira mais constante do que o pulsar do relógio enche o quarto de dormir. O ritmo ajuda a dormir, mas a esperança é tênue: a galocha, impassível, à porta do guarda-roupa enuncia a enxurrada do dia seguinte.

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