Luiz Geraldo Mazza
Luiz Geraldo Mazza
O ajuste nas pesquisas
O Datafolha, em publicação de ontem, fez ajustes nos números das pesquisas que, de fato, pareciam um tanto quanto robustos: de 55 a 37% caiu para 51 a 36% a diferença percentual que separa Lerner de Requião. Aliás, de um modo geral, houve queda nos dez estados analisados. Bastou isso para os que guardam uma visão conspiratória do processo se assanharem: é a hora da acomodação dos números, o que animou, é claro, os que estão perdendo no aguardo da virada. Também a Alvorada, de Londrina, houve alteração: 5 pontos a mais para Requião e 2,4 a menos para Lerner. Assim mesmo, Lerner tem 49% contra 31,2% do oposicionista.
A oposição, de um modo geral, se liga nessas circunstâncias como se fosse uma bóia para náufrago. Basta ver a interpretação que deram à decisão de FHC vir a Curitiba fazer aqui o último comício. O barco está afundando - gritavam, entusiasmados - razão pela qual chamaram o presidente para tentar salvá-los. O presidente vem ao Paraná por uma intervenção do seu assessor-chave, Euclides Scalco, já que nesta região haverá a maior diferença de FHC contra Lula, na base de 60 por 20. Na amostragem de Londrina (Alvorada), a lista está assim: FHC, 62,7%; Lula, 14,3%; Ciro Gomes, 5,8%; Enéas, 1,7%. Esse sentimento é geral no Paraná e acaba influindo negativamente no desempenho de Requião.
Tendências definidas, não há como, tal qual se dava no passado, aguardar ocorrências de última hora e até feitos especiais em comícios. A chuva ontem perturbou a oposição, mas ninguém mais acredita, tanto neste caso, como no da mobilização de amanhã com FHC, que isso altere a marcha dos acontecimentos. No passado, quando não havia pesquisas, acreditava-se mais no fulgor dos comícios, e os cálculos sobre a massa reunida dava margem a discussões intermináveis, como as processadas agora em torno das sondagens do Ibope ou do Datafolha.
Nem sempre quem fazia o melhor comício ganhava a eleição. Assim foi com o brigadeiro Eduardo Gomes, na vitória de Dutra, e também com o segundo pleito da Curitiba autônoma, quando o candidato oficial, Felipe Aristides Simão, fez o mais numeroso e acabou perdendo do trabalhista general Iberê de Mattos. Os que guardam esse tipo de ilusão não perceberam que as eleições se despolitizaram pela ação dos marqueteiros e também pelo tédio do eleitor, o que é um perigo, como se estivesse saturado de democracia, quando na verdade está irritado com tanta empulhação e desfaçatez, mergulhado no mais fundo dos ceticismos à beira da náusea. Esse sentimento tem sido captado nas pesquisas qualitativas. E não fosse a classe política tão arrogante, faria autocrítica e um ato de contrição.
Mantenho minha previsão: a diferença entre Lerner e Requião deve ficar entre 6 a 10 pontos percentuais, o que, para um Exército de Brancaleone como o da oposição, não deixa de ser uma façanha.
AXIOMA
Um carro da campanha oficial passa perto do Cemitério Municipal e seus ocupantes enxergam dois portadores de estandartes eleitorais do Requião. Não deixam para depois e gritam já estão velando?
GLOSA Quando viu a chuva ontem, que poderia atrapalhar o comício da oposição, o áulico do Palácio Iguaçu sugeriu que se convocasse o Raoni para fazer uma pajelança do pagé nacional e do outro, suburbano.
BIZARRICE De comício, uma das histórias mais interessantes é a daquele bebum-candidato de Umuarama que, ao curvar-se no caminhão, caiu de cara no solo, mas se recuperou rapidamente: Em primeiro lugar beijo a terra querida e agora saúdo o seu grande povo.
SPRAY O fato de quatro governos europeus (Alemanha, Reino Unido, França e Itália) serem tocados por uma coalisão de centro-esquerda vai ser explorado no final da campanha brasileira. - A analogia não tem cabimento, dado o caráter primitivo do nosso modo de fazer política e a inexistência de partidos com alguma consistência. O PT é o que mais se aproxima, pelo atraso do Brasil, a uma agremiação social democrata, mas é populista demais, como se tivesse uma herança getulista. O PSDB é apenas o poder, embora sem a autenticidade do PFL, com a tintura de alguns dos seus intelectuais. Somando Brizola a Lula, dá algo próximo da proto-história, curiosidade arqueológica. E FHC lembra Luis XIV. - Foi a vitória de Schroeder para primeiro ministro alemão que deu esse embalo. Não se deve esquecer também que esses estadistas (e não é apenas o caso Tony Blair) estão mais próximos de FHC do que de Lula, apesar daquela aura que Brizola tinha na Internacional Socialista, o que se deve creditar ao horror europeu ao regime militar e à facilidade com que enchiam a bola de dissidentes. - Para ter uma idéia desse fascínio, basta lembrar o choque europeu quando da queda de Allende e com bastante razão, pois o Chile se credenciara como capaz de tocar uma frente popular em padrões revolucionários. A queda de Goulart ou o suicídio de Vargas não foram tão lamentados. - A primeira grande transformação de governo no Paraná será no campo da mídia. Banestado em saneamento (queda nos R$ 5 milhões mensais), Copel e Sanepar mais cuidadosas com gastos na área - levarão a algo que nunca houve: competição. - A idéia de criar a Caixa Econômica estadual pode obstruir o saneamento do Banestado, se prevalecer a doutrina do Banco Central. - Uma aposta ontem em Guaratuba: o agora hoteleiro Rubinho Ferreira jogava que no futuro governo, Lerner não mantém mais do que 20% do quadro atual. Por onde andariam tais quadros? - O Barracão Empresarial do Linhão do Emprego, no Bairro Novo, pode se constituir numa resposta ao maior problema do Brasil. Saque inteiramente de Taniguchi e que pode servir de modelo, como sugeriu o ministro Edward Amadeo, do Trabalho.
MESSIAS Na primeira vez que o jornalista José Messias dos Santos foi submetido a transplante renal, quando estava sob anestesia, teria, conforme me relatou, sonhado comigo, seu colega de profissão. Um dos meus orgulhos era ter servido, no dizer dele próprio, de fator de estímulo para a vida. Messias, no entanto, mais inspirava a gente a ter força com seus exemplos de coragem, bem próxima do martírio e que superava com sua vontade de viver, do que parecia depender. Ao menos não o demonstrava, mas o carinho com que lembrava do sonho que o teria ajudado, revela humildade e, mais do que isso, o senso de fraternidade que tanto difundiu. A passagem para o além é também um sonho do qual despertamos para a eternidade. Até breve, irmão.
CROMO Viajo pela Graciosa e lembro que Rubem Braga, o sabiá da crônica, ao vê-la se derramou diante dos beijos que ornam a estrada e viu em Morretes, uma das belas cidades do Brasil. Talvez tenha lembrado de Cachoeiro do Itapemerim.
AFORÍSTICO Até amanhã ainda sofreremos o horário eleitoral, mas isso passa.





