É altamente hipócrita (a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude, como leciona La Rochefoucauld) e oportunista essa mobilização da classe política, no fervedouro eleitoral, pretextando um amor extremado pela Copel. É adequado lembrar que a mãe pode sufocar o filho por abraçá-lo com demasiado carinho.
Esse Himalaia de poder só foi contestado na hora em que as disputas internas se tornaram inegociáveis, em que pese a capacidade diplomática de barrageiros para fazer composições. E isso se deu especialmente com Segredo. Lembro inclusive de uma abertura para o debate dentro da própria Copel para mim e o meu colega Renato Schaitza. Ocorre que o próprio Richa, governador, se viu surpreendido com o resultado da licitação, o que, aliás, é muito bom. Essas demandas se deram já na primeira etapa, a do Canal de Desvio.
PARANISMO E PARANÓIA A CR Almeida, que estava sediada no Rio, voltou às origens para Curitiba em função da pregação paranista da moda (Dalton Trevisan faz paródia com o que Samuel Johnsson disse do patriotismo como ''último refúgio dos canalhas'' em cima do paranismo). Participando de um consórcio, ela que se habilitara ao setor com as obras do Canal de São Simão, em Minas, para a Fiat e em sociedade com a italiana ''Impregilo'', acabou em último lugar, em quarto. Mesmo assim recorreu e teve a obra adjudicada.
Na gestão Alvaro Dias, quando se chegava ao momento culminante da obra, o governador, inconformado, denunciou a formação de cartel e conseguiu, também, no Judiciário, que se concedesse a empreitada a um consórcio formado por empresas da terra como a DM, a Cesbe e Sinoda. Nesse aspecto não há como subtrair os méritos de Alvaro que lhe custaram a animosidade com Cecílio do Rego Almeida, famoso por ter derrubado um governador, Haroldo Leon Peres, e campanhas contra o hoje Ministro de Minas e Energia, Francisco Gomide, então presidente da estatal e que sustentou a batalha.
Cecílio foi à batalha judicial, sempre o seu forte, haja vista para a prolongada demanda, hoje vertida em precatório milionário, da Estrada de Ferro Central do Paraná. No governo Lerner, numa decisão interna da alta hierarquia representada em Conselho, fez-se a proposta de um acordo com o empresário, sob o fundamento de que estava vencendo a disputa judicial e que o melhor para a Copel seria um acordo. Que foi firmado em torno de R$ 90 milhões e que provocou protestos.
FRACASSO DO MODELO Era mais uma das muitas medidas do governo Lerner de impacto em relação à Copel e cuja liquidação se tramava com paciência budista sem qualquer exame dessas consequências, já que se dava como certo que o modelo energético do Brasil marchava naquela direção, a do leilão. Enquanto o governador Itamar Franco, dado a gestos nacionaleiros e teatrais, fazia até mobilização militar da sua milícia para combater a privatização da Cemig, aqui o processo passava tranquilamente no legislativo numa primeira etapa e na segunda é que haveria a resistência com a discussão de um projeto de iniciativa popular (que toda a minha família assinou como a maioria do nosso condomínio). Ao lado disso, e ainda seguindo o modelo nacional, a Copel firmava 29 parcerias, dentre elas a da Tradener, muito invocada nessa campanha e alvo de solicitação ao Ministério Público por parte do senador Roberto Requião e dos deputados federais Rubens Bueno e Padre Roque.
O fracasso do modelo energético na evidência gritante do ''apagão'' e ainda o ataque às torres geminadas em Nova York deixaram o mercado sem condições de absorver um ativo caríssimo como o representado pelo preço mínimo da Copel e o governo estadual, constrangidíssimo, tirou o time de campo, rabo entre pernas.
Um vexame que contamina a campanha hoje do candidato oficial, Beto Richa.

mockup