LUIZ GERALDO MAZZA - O mimetismo social
Não é a primeira vez que se fala em pacto no Brasil. Houve isso sob Tancredo Neves e que teria, por seu carisma, condições de comandar um processo de mudança, bandeira que Sarney assumiu com a força do Plano Cruzado. E antes vivemos atmosferas assemelhadas com Getúlio Vargas, JK e Jânio. O ''social'' virou prioridade como agora com Lula e seu Plano de Fome Zero. Na prática a teoria foi outra e o ''social'' ficou com expressão retórica, nada mais.
O social sempre foi usado como forma ''mimética'', despistadora, bastante camuflada, sugerindo um tipo de mudança que seus agentes não desejavam. Isso nem sempre é consciente. ''Tudo pelo social'' sob Sarney, o resgate (tenho urticária com a frequência e o abuso da expressão) da dívida social, enfim o repeteco de sempre, meras intenções oratoriais.
A própria expressão ''social democracia'' está mais do que dissimulada na história brasileira. Na verdade só o PT a configura, já que o PSDB é desses partidos que não tem base operária sem a qual é impossível a representação da sociedade de forma pluralizada. Tivemos historicamente o PSD de Getúlio que também tinha o PTB para a cidade. Com os milicos no poder, no pós-64, havia, como substituto da Arena, o PSD com o timbre assemelhado.
Ninguém encarna como o PT essa prioridade ao social como um compromisso de caráter histórico, como razão de ser da organização. E por isso a frustração seria maior na hipótese de não estabelecê-la na prática. Impossível não é de atendê-la, todavia há complicadores sérios em função das amarras celebradas com a panacéia do FMI.
O Brasil tem uma tradição de fala política sobre pobreza, miséria e fome. E isso independe do ponto do espectro ideológico. Há uma tendência, feita com clara intenção ideológica, de ampliar as dimensões do problema, levá-lo a um super-dimensionamento como se deu com o próprio Betinho, cujos números foram contestados por cientistas especializados na matéria do IPEA. Também esse indicador de 50 milhões de carentes é exagerado, como aqueles mesmos técnicos o demonstram. Se reduzir não significa avanço, aumentá-lo não vai aquecer a consciência dos mais sensíveis. Resolver essas questões conceituais não é preocupação acadêmica ou tecnicista. Apesar da emoção que provoca, o tema deve ser encarado nos estritos limites da racionalidade e também não dar bandeira para que os parasitas de sempre, da área política e empresarial, façam disso um negócio da China, o que seria refinado mundo cão.
BIZARRICE Roberto Campos costumava ironizar Josué de Castro, alegando que ele ganhava muito com a fome. Castro era autor da ''Geopolítica da Fome'' e da ''Geografia da Fome'' e tinha respeito internacional.
AXIOMA Consta que Requião já tem 40 deputados em sua base. Que caráter, hein?
GLOSA Se os do governo não foram para a oposição é porque estão mais perto de depurados do que de serem deputados.
EPIGRAMA ''Lá vem o cordão dos puxa-sacos// dando vivas aos seus maiorais// quem vai na frente vai passando para trás// e o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais.'' Música de carnaval brasileiro esquecida, muito praticada.
FOLCLORE ''A essa oposição que me fazem, conheço-lhe as raízes. Sei os métodos que poderia empregar para anulá-la. Mas não darei aos vendilhões do templo o preço que eles querem por essa unanimidade.'' Discurso de Munhoz da Rocha ao receber em Palácio a maioria (discreta) parlamentar.
CROMO O halterofilista diante do espelho: a atração pela própria imagem vai se tornando maior do que o halteres e os músculos já o deformam.
AFORÍSTICO O que prevalece no Brasil ou há de ser a fome ou a fama.
SCAPS Lerner veio e já prepara mais duas viagens ao exterior.
VINHETA Quanto mais velho, o vinho fica mais próximo do vinagre.





