A bandinha tascou o dobrado, os ''peludos'' se perfilaram e lá vem o desfile de todo o ''cast'': o trapezista, o mágico, o acrobata, o motoqueiro do Globo da Morte, os contorcionistas, os domadores, os palhaços, a mulher barbuda. Essa cena felliniana, com adaptações adequadas, marcou o início do processo eleitoral: todos os candidatos sorriem e são palatáveis, apertam as mãos das pessoas e as abraçam comovidamente. Mágicos, acrobatas, contorcionistas, domadores de feras (menos perigosas que eles próprios), palhaços. Estes ficariam, na verdade, melhor representados por nós, eleitores que pagamos a conta e somos obrigados não apenas a suportá-los como a votar.
Quem passou pelo Paraná, Curitiba e Cascavel no itinerário, foi o José Serra que se reuniu com Lerner no Chapéu Pensador e depois passeou pelo centro da Capital, beijou criancinhas e fez aquele ritual de reconhecimento. O jeitão dele é diferenciado: assume a calvície, algo inimaginável em Alvaro Dias que fez duras e penosas intervenções para acertar a melena, e também o aspecto de durão. Isso é um risco terrível, pois o povo é condicionado pelos políticos ''galinhas'' àquelas manjadas exteriorizações, traduzidas em intimidades e abraços efusivos.
REJEIÇÃO AO SÉRIO Não sei porque lembrei de pessoas sérias e com esse jeitão, que dificilmente suportariam o filtro de uma eleição: Manoel Ribas, o meu tio Ângelo Lopes e o estadista (nós os temos?) Pedro Viriato Parigot de Souza. Desses Ângelo, que já foi prefeito de Curitiba e secretário de várias pastas estaduais, foi um dos poucos que tentou a eleição. Enfrentou Munhoz da Rocha e perdeu quando o ideal para o Paraná era juntar a reflexão do sociólogo vencedor, um padrão muito próximo do de Fernando Henrique Cardoso, e a capacidade gerencial de Ângelo Lopes.
MODELOS Como revolver arquétipos e fazer o público assimilar o anti-modelo do político tradicional? Se Jânio não fosse histriônico dificilmente conseguiria eleger-se. De Getúlio (ah aquele magnetismo, a oratória vibrante) sobrava o carisma e em Juscelino a vibração quase juvenil, voluntarista sem o exagero de um Collor e de um Ciro Gomes. Sisudez sobrava nos militares, mas o mais aberto deles, ligado aos esportes, Emílio Médice, foi o que orquestrou uma das fases mais pesadas em termos de violência política e torturas.
Há quem veja em José Serra uma reedição do general Henrique Teixeira Lott, o que também é rematado exagero. Talvez isso decorra do desempenho até agora nas pesquisas e que indicam distância, cada vez maior, diante de Ciro Gomes que ameaça aproximar-se de Lula. E o Ciro é, em tudo, uma reedição melhorada de Collor. Se der ele e Lula, voto de novo no barbudo, embora sabendo que, como na primeira vez, perderei a eleição.
PARIGOT Se Lott era exemplo de honradez e nacionalismo, mas difícil de absorver eleitoralmente (no Paraná ainda havia a agravante de como ministro da Guerra ter derrubado um governo em que havia dois ministros da terra e ainda haver detido a ''Marcha da Produção'' dos Cafeicultores), não dava para imaginar um Parigot de Souza se dando ao desfrute de ocultar o que pensava sobre as coisas. Foi governador porque se tratava do substituto legal de Leon Perez que caíra no regime militar por acusação de tentativa de extorsão. Quando inauguraram o prédio do Tribunal de Contas, que parecia um Taj Mahal, não perdeu em discurso a oportunidade de fazer uma reflexão perguntando se aquilo era enquadrável como uma prioridade da gestão pública. Esse padrão de sinceridade e clareza é impraticável para quem se dá ao trabalho de qualquer forma de proselitismo partidário e de busca de votos.

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