LUIZ GERALDO MAZZA - Literatura e jornal (I)
Quando se instalou o ''Diário do Paraná'' da cadeia associada em Curitiba uma das mais fulminantes advertências do diretor de redação, Gilson da Rocha Pitta, e do Chefe de Reportagem, Ferdinand Baeder, era no sentido de escoimar do texto o adorno literário. E a advertência vinha de uma forma radical ao dar a conotação de pejorativo a tudo que se aproximasse da literatura. Vínhamos do jornalismo do nariz-de-cera (ou de folha), que era uma espécie de exórdio, de abertura da matéria, quase sempre com sentido opinativo, esta, então, um tabu, já que isso era pertinente às colunas assinadas ou do editorial e dos tópicos.
A maior parte dos redatores e repórteres era vinculada de alguma forma à literatura e o clima do jornal ainda mais fortalecia os liames com a arte. Basta lembrar que os ilustradores do jornal eram dois pintores de renome, um da velha guarda, Guido Viaro (o bico-de-pena da edição inaugural recompondo o ato de fundação de Curitiba com o índio pronunciando o ''taqui queva'', a indicar a localização do fundamento da cidade), e outro, mais jovem, Loio Pérsio que teve também nome nacional. O editor da página cultural era o Temístocles Linhares, já aquele tempo expressão da crítica brasileira.
DO TEXTO À IMAGEM Para impor o aprendizado de uma técnica de texto centrada no ''lead'', então novidade nos padrões da terra, Pitta e Baeder endureciam no rigor do filtro para os quadros da redação. Junto com isso o jornal trazia tecnologia como o uso do teletipo, de um sistema possante de rádio e da diagramação, ''lay out'' que marcaria um avanço diante da ''paginação''.
Com o tempo observávamos que o ''script'' moderno tinha muitas semelhanças com a ''short history'' americana. Era literatura também, concisa, em busca do despojamento (''o adjetivo é o câncer da frase'' era um dos bordões). Havia dois campos em que escritores - a referência aqui é aos grandes nomes - buscavam trabalho: nos jornais e na elaboração de roteiros para o cinema, algo parecido hoje com esse ajuste entre atores teatrais e a telenovela.
Aos poucos fomos derrubando as resistências, especialmente depois que os dois paulistas foram embora, e acabamos transformando as referências às artes e à literatura num instrumental de trabalho. Ilustrar uma reportagem com poema, fazer uso de alusões a expressões artísticas como ''panorama visto da ponte'', ''fio da navalha'', ''entre quatro paredes'' era uma evidência de que essas colagens em títulos e subtítulos, legendas de fotos, mostravam a raiz comum.
ESPAÇO LIVRE É claro que isso compunha o jornal comum que também tinha o seu suplemento de artes ou cadernos culturais. Um dos melhores críticos de cinema do país, que não se desligara da terra, Armando Ribeiro Pinto, fazia uma análise parecida com a de Tinhorão para a música popular. Bem mais tarde integra a equipe o Sílvio Back, primeiro como redator e depois como coordenador de um decalque do caderno ''B'' do ''Jornal do Brasil'' no DP.
Quando o cerco da ''Guerra Fria'' apertou, e isso era complicado porque a esmagadora maioria dos jornalistas era de esquerda, o dono do jornal, Adherbal Stresser, achou que o nosso espaço livre seria o suplemento de artes. Mesmo no cotiadiano deitávamos e rolávamos: um jornal de linha conservadora chamar o patronato de ''tubarões'' dá bem a idéia da inutilidade das formas de controle. Prova da ''democracia'', que construíamos, estava nas crueldades de caricaturas como as que eu fazia numa coluna de humor, ilustrada por Loio, que seriam hoje abominadas pela prática do ''politicamente correto'' como a de chamar Máximo Kopp, magnata da rede de farmácias, de defensor dos frascos e dos comprimidos. Éramos subprodutos da literatura e também do circo.





