LUIZ GERALDO MAZZA - Literatura e jornal (3)
Com o texto ''Garimpo: Canaã das Ilusões'', o jornalista-médico Percival Charquetti venceu o primeiro ''Prêmio Esso'' do Paraná. Nada mais apropriado para evidenciar as relações de técnica narrativa entre jornalismo e literatura como o gênero essencial da área, a reportagem, hoje meio abandonado (esta ''Folha'' ganhava todos os concursos do Paraná quando o cultivava), até pela fragmentação gráfica dos veículos, cada vez tão mais parecidos entre si.
O Charquetti fazia coisas sensacionais com o texto, quase uma adaptação do que constitui o mistério da prosa de Guimarães Rosa, ajustando-se ao estranho e rico universo vocabular das ''ilhas culturais'' desse arquipélago, o Brasil. Atento ao falar dos seus personagens, narrou-lhes a saga no documentário, com muito de realismo fantástico sobre os garimpeiros. Desce a detalhes dos equipamentos da época, precaríssimos, como os escafandros que permitiam, no máximo, três descidas. E soube da façanha de um deles que na terceira descida ao chegar à tona soube que enviara do fundo uma enorme gema que cintilava ao sol da manhã.
ABRAÇO NO RIO Ficou um mês atrás do homem, que se dedicou a outros ramos, emtre os quais o de dono de boteco, até encontrá-lo. E com atenção descreveu a reação dele ao ver a gema: ''quando eu vi o diamente quis abraçar o rio...''
Uma cena dessas no lendário Tibagi só poderia gerar quadros dessa ordem, vivos e emotivos, mas naturais, sem adornos excessivos, como quem lapida o diamante. Charquetti, médico-parteiro, era também um personagem do teatro diário do mundo de jornal. Como funcionário do DNER, deve ter chocado os formalistas da profissão e códigos éticos ao operar um cachorro acidentado.
Era, também, vítima de perfídias: bom bebedor como a maioria daqueles tempos, uma noite dormiu na sua mesa na redação de ''O Estado do Paraná'' e fizeram-lhe uma sacanagem olímpica apagando todas as luzes da sala com todo mundo batendo a máquina como se estivesse na claridade. Ele desperta, ouve as máquinas e, não captando a molecagem, grita ''Estou cego''. Só lhe faltou como Goethe na hora final pedir ''Luz, luz, luz''.
O ROMANTISMO Vivi dois momentos importantes do jornalismo: o final da fase dita romântica, amadorística e que dava a impressão de que todos éramos, mesmo os casados e mais velhos, seres em disponibilidade, abertos à curtição, e o início do profissionalismo, não tão chato quanto hoje com redações que lembram laboratórios de análises clínicas, liofilizados, como agência bancária. Havia quase sempre o emprego público, que garantia a retaguarda, e o salário era tão simbólico, usado para queimar energias na madrugada, que como colaborador no ''Estadinho'', eu recebia por uma crônica por semana o que os outros ganhavam pelo mês todo com a diferença de que não tinha vínculo empregatício.
Para que se tenha uma idéia de como acabávamos nos envolvendo no mundo cosmopolita lembro que o Roberto Mugiatti, que foi da BBC, em Londres, e conviveu no mundo do ''jazz'' (vagava pela madrugada curitibana com Raulzinho do Trombone), mantinha correspondência com o escritor ''beat', o romancista Jack Kerouac. Uma outra incrível história foi a amizade do artista gráfico Marcel Leite com Orson Welles que lhe deu de presente um ''móbile'' do artista visual, Calder. Quando Calder morreu eu dirigia o jornalismo do Canal 12 e atravessei a rua até a casa da Edde Isabel, colega de trabalho e última companheira de Marcel, e emprestei o ''móbile'' que coloquei um pouco acima da cabeça dos apresentadores para, ao final do jornal, lembrar da morte daquele que revolucionara as artes plásticas.





