O mais polêmico salão de artes do Paraná foi o ''anual de Curitiba'' , que ficou na primeira edição, início da década de 60, e que pretendia respaldar uma versão cabocla do Museu de Arte de São Paulo. Como o atual NovoMuseu, não havia acervo e museu sem acervo é São Jorge sem cavalo. Ocorre que a idéia generosa do jornalista Adherbal Stresser, homem do Chateaubriand na terra na condição de dirigente do ''Diário do Paraná'', era a de montar um museu e com ele um clima de maior difusão das artes visuais. Como não tínhamos acervo que fez Adherbal? Gastou uma fortuna para trazer uma seleção de obras do Masp, dentre elas a tela ''Arlesiana'' de Van Gogh, esculturas de Degas e peças de Portinari, Di Cavalcanti, Pancetti.
Tivemos cenas hilariantes, já referidas nesta coluna, em função das mancadas da elite frequentadora desses eventos. Um intelectual da praça, catedrático da Universidade Federal, contemplava a peça principal, o quadro do Van Gogh no salão nobre e perguntado pela esposa se era original ele deu uma risada condecendente e clareou ''e tanto é que Adherbal pagou só de seguro, por esse quadro, nada menos de quatrocentos contos''. Uma avaliação de mercado, um silogismo (ou seria a maiêutica de Sócrates?) em função do seguro.
Houve outras cenas como a da ''perua'' (elas sempre existiram, só que ainda não haviam aderido ao malho do cabelo aloirado) que perguntava ao burguês empertigado a seu lado se Van Gogh era pseudônimo ou nome verdadeiro. Antes que houvesse a explicação, o gozador Fernando Pessoa Ferreira, poeta que o Recife mandou a Curitiba, com apresentação do Gilberto Freire nos anos 50, esgueirou-se com sua magreza entre os convidados e tascou com sotaque: ''é pseudônimo, a senhora está certa. O nome dele é Kirk Douglas''. Nem sempre a blague do intelectual é captada no primeiro momento, mas o ''Belém-Brasília'' (esse era o seu apelido na condição de ''comprido e mal acabado'' no exercício da maldade curitibana) estava se referindo ao filme em que o Kirk Douglas fazia o atormentado pintor e o Antony Quinn o papel de Gauguin.
O ACERVO Como não havia acervo, Stresser pensava em repetir experiências como essa de intercambiar peças, claro que observando algum sentido didático, idéia que é também considerada no caso específico do NovoMuseu. Esperávamos que o Pietro Maria Bardi, a figura maior do Masp, viesse a Curitiba, mas ele mandou um assistente de nome Baboso que era um incorrigível gozador. Como foi guindado ao júri do Salão Anual de Curitiba (houve contribuição de vários pontos do País), fazia exercícios sistemáticos de sarro. Diante de uma escultura do arquiteto Saghy, um violinista com um corpo como o do Marco Maciel, modigliânico, ele tentava sugerir a separação da peça figurativa para aceitar na mostra o pedestal.
O diretor executivo do museu era o Eduardo Rocha Virmond que já presidiu a OAB Paraná e foi secretário de Cultura e de Justiça no governo Lerner e é meu confrade (assim que nos tratamos) da Academia Paranaense de Letras. Não deu para emplacar o museu, mas fizemos um agito cultural em Curitiba que tinha no disparo um movimento de renovação artística e que acabou ampliando, e isso de forma considerável, os espaços para as artes visuais. Isso acabou prejudicado com o fato de alguns produtores culturais se transfigurarem em burocratas do setor, no qual até hoje permanecem, e numa espécie de sacerdotes do templo com juízos estéticos tidos como avançados porque cosmopolitas.
SOCIETY O ''society'' condicionava o processo. Irritados com a falta de diversidade nos critérios fizemos eu, Valmor Marcelino e o livreiro Aristides Vinholes artigos pesados contra o modismo. Um dos artigos que escrevi era ''Arte e Society'', paráfrase da obra de Plekanov, crítico marxista, ''Arte e Sociedade'', título também de estudo antropológico do francês Roger Bastide, reciclador dos cursos de filosofia no País e que em Curitiba deixou um texto saboroso ''Psicanálise do Cafuné'' na Editora Guaíra, algo bem na linha da sociologia do Gilberto Freire.

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