No mesmo solo do Oeste paranaense em que os arqueólogos buscam os sinais de antigas civilizações, como a epopéia das reduções jesuíticas, agora também se procura o vestígio da barbárie do regime militar. Nesta manha, desde as 6h30, em operação coordenada pelo deputado Nilmário Miranda, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, presentes antropólogos legistas da Argentina, será procedida a exploração de uma área em que se supõe estejam enterrados corpos de vítimas do regime militar ao lado da pista de um campo de aviação ao lado da fazenda do ex-deputado Fuad Nacli em Formosa do Oeste. Uma verificação a radar, feita anteriormente, numa área de 2 mil metros quadrados detectou duas anomalias, bastante significativas, de subsolo mexido.
Como a Folha mostrou em reportagem ontem, um ‘‘araponga’’ do regime militar teria dado as indicações, uma delas num croqui entregue por ele a José Carlos Mendes num encontro havido num restaurante da Praça Osório, em Curitiba. Como os elementos disponíveis pareciam bastante verossímeis, determinaram a vinda de integrantes da Comissão de Direitos Humanos que fizeram as primeiras sondagens e apurações. Somente hoje, num longo e penoso trabalho, que exige extrema cautela técnica e científica, é que se saberá se de fato as indicações, até agora feitas, têm procedência.
A expectativa é de que essa descoberta possa ser quase tão relevante quanto a havida no Cemitério de Perus, em São Paulo. O interesse em torno do assunto envolve organizações de toda a América Latina, que passou por provações sérias nas infrações aos direitos humanos pelo terror institucional, daí a atenção que desperta. Qualquer revelação, que venha a ser obtida, pode ter relevância para o momento atual da democracia brasileira, que, a despeito dos níveis de liberdade de que gozamos, ainda, por causa da violência generalizada, há quem acredite que as soluções de força seriam indispensáveis.
A banalização da violência, a anomia que marca o quadro brasileiro, a quebra de disciplina e dos códigos nas Polícias Militares em greve, mais a pretensão do governo da União em botar o Exército nas ruas em situações caóticas, teriam, com a possibilidade dessa descoberta, um fator dissuasório e de fortalecimento da democracia e de reflexão contra saídas fascistas. É o que se espera.

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