O segundo turno é uma forma de depurar a manifestação popular. Há quem não goste e faça até uma comparação com o futebol sugerindo que a disputa por pontos corridos é uma espécie de campeonato decidido em um só turno. Essa analogia, além de primária, ignora o drama que seria criado, ainda mais com a crise que atravessamos, sem o octogonal dos ''play-off'' que permitiria uma chance a mais para a sobrevivência dos nossos quebrados clubes de futebol.
Como os candidatos principais, em que pese a polarização, tiveram votação inferior a 46%, discute-se a legitimidade dos votos em branco e nulos para os que encaram o afunilamento havido como desrespeitador da vontade da maioria e, portanto, como ausência de opção verdadeira, se é que consideramos o ato de votar como uma expressão profunda da vontade e algo intransferível. Não é preciso, pois, uma razão ideológica revolucionária e radical para anular o voto como quando se enfrenta a tirania ou se está num país dividido e sujeito à pressão da guerrilha que ocupa grande parte do território. A simples evidência de que se tornou complicado identificar o ''mal menor'' ou o menos ruim já o justificaria plenamente.
Isso se dá com a eleição regional, mas não se repete com a nacional e, esta, sim, oferece alternativas com diferenças substanciais. É possível votar em Serra ou em Lula sem constrangimento pela circunstância de que expressam valores e programas. E é o pleito nacional que pode, pelas alianças que forem estabelecidas pelas lideranças locais, fornecer nutrientes à emulação regional. Se ambos, no entanto, ficarem com Lula isso desaparece e os sinais de que líderes do PDT poderiam pleitear liberdade de ação para apoiar Serra acabam transferindo substância para a eleição local.
Nesse sentido tem mais conteúdo uma decisão de políticos como Hauly e Hélio Duque montando espaços para Serra-Alvaro do que a opção de Martinez em favor de Lula sob o argumento de que o PTB não o ama, mas que odeia o postulante do PSDB. Constrangedor o papel de Beto Richa ao mostrar-se ressentido e pretendendo um tipo de neutralidade que não pode exercer pela circunstância de ser tucano. Se prefeitos deixaram de apoiá-lo em favor de Alvaro Dias é porque o governo, insensato e cego, não percebeu que o senador com maior número de votos jamais abandonou bases, inclusive, a do PSDB que ajudou a construir, enquanto Lerner viajava mundo a fora e até ganhava uma eleição na Europa com presidente mundial dos arquitetos, enquanto perdia melancolicamente a daqui.
BIZARRICE Como todos os candidatos costumam, nas suas apresentações, mostrar a esposa e os filhos é válido que apareçam os havidos fora do casamento. Dá nojo e engulhos, mas faz parte da biografia das pessoas.
AXIOMA A bancada ruralista perdeu, no Senado (10) e Câmara (71), delegados. É sinal correspondente à modernização do país.
GLOSA Requião diz que se for eleito nomeia o irmão Maurício para secretário de Educação sob o argumento de que como professor de universidade pública recebe R$ 530 por mês e conhece o drama da classe. Uma forma de acariciar a classe que teria sido agredida pelo adversário em 1988. Demagogia ilimitada.
EPIGRAMA No Rio Grande do Sul a primeira pesquisa mostra Lula com 49% e Serra com 40%. Lá o governo é petista e se viu atingido por uma CPI sob acusação de o PT utilizar-se do jogo-do-bicho.
FOLCLORE O problema de falta de quadros humanos é agudo. No Brasil parece que se resolve tudo com um trocadilho pela convocação de quadrúmanos.
CROMO Serenidade é sono de criança. Nos adultos, quando extrema, é a morte.
AFORÍSTICO Impossível o voto camarão quando o cabeça de chapa é lula.

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