LUIZ GERALDO MAZZA - As calendas de agosto
Tudo o que há de aziago na cultura popular relativamente a agosto ocorre em dobro entre nós: ontem foi a comemoração do suicídio de Getúlio Vargas em 54 e hoje o da renúncia de Jânio em 61. Se a tragédia de Vargas foi uma ruptura num golpe em montagem, a saída teatral de Quadros iria colocar no centro de todos os acontecimentos a figura de Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, e que do Palácio Piratini, pelo rádio (êta veículo adequado para isso, como já o demonstrara na Segunda Guerra), montou a resistência que com apoio da Brigada Militar levaria o IIIº Exército à adesão naquele jogo de xadrêz.
Para as forças em choque no país, hoje descaracterizadas desde a Queda do Muro, que mestre Hélio Jaguaribe (como é que botam o Paulo Coelho e não ele na Academia de Letras?) dividia em liberal-cosmopolitismo oposto ao nacional- trabalhismo, tivemos apenas moratória do golpe que viria em 64 e que não deu certo em 1955. A encenação janista é típica de populistas como o Chaves, da Venezuela, e tantos outros arquétipos dos tristes trópicos: visava claramente um retorno nos braços do povo para desobstruir as resistências do Congresso.
Na sequência ficou demonstrado que Jango era um conciliador, razão pela qual aceitou a emenda parlamentarista como parte das difíceis negociações que chegaram ao campo das manobras militares e que encontraram como fator dissuasório a arregimentação do sul com a Brigada e o IIIº Exército.
''GUERRA FRIA'' O ''background'' da Guerra Fria animou fortemente esses acontecimentos: no suicídio de Vargas sobrou para instalações norteamericanas no país e para os jornais ''Tribuna da Imprensa'' e ''O Globo''. Na resistência de Brizola e posse, negociada, de Jango mais fagulhas em cima dos ianques. Há aceleração do golpe com os acontecimentos de 1961, ampliados com a derrubada do regime parlamentarista, artificialíssimo, e na continuidade com a pregação das reformas de base, especialmente uma que é a unha encravada do reacionarismo nacional- a agrária, já em funcionamento as ligas camponesas, embriões do MST hoje muito mais organizado e, mais do que tudo, a liberação sindical no campo assumida por um ministro paranaense, Amauri de Oliveira e Silva, do Trabalho, e que doía mais do que a indicação de áreas próximas a açudes, estradas e benfeitorias públicas para desapropriação de terras.
Não é de espantar, no evoluir dos acontecimentos, que estivesse na costa brasileira, no fim de março de 64, algo mais do que simbólico, uma unidade da frota norte-americana. Militares da Segunda Guerra como o líder Castelo Branco e generais como Nelson de Mello e Cordeiro de Farias, estes, já na reserva, participaram ativamente das negociações e vieram inclusive a Curitiba porque tinham informações de que Ney Braga poderia ficar em cima do muro, o que não era verdadeiro, apesar do esforço que fez pela queda do parlamentarismo e a favor também de muitas das reformas preconizadas e que faziam parte da doutrina do seu partido, o PDC, do qual era líder nacional ao lado de Franco Montoro e Plínio de Arruda Sampaio.
POPULISMO SOBREVIVE Se o tiro que matou Vargas anatematizou os apontados difusamente como o seu carrasco e impediu o manobrismo que visava obstruir a posse de JK, a renúncia de Jânio serviu de aceleração para a operação bem sucedida de 64 e que era inegavelmente apoiada nas passeatas de milhões de pessoas no país (''com Deus e a Família pela Liberdade'') e que superavam, de longe, como batalha de rua, os comícios das reformas. O poder do Estado, minado pela quebra de hierarquia nas rebeliões dos sargentos, acabou acuado pelas massas nas ruas e pela intervenção militar. Nela um divisor também ideológico entre ''pombos'' e ''falcões''. A democracia se consolidou, mas o vírus de sua destruição está aí visível na campanha: a praga populista.





