A políticos não se pode oferecer certificado de qualidade, uma espécie de ISO 2000 ou 14 mil. É possível conceder notas boas aos do passado e em maioria zero ou números baixos aos da atualidade. Nenhum paranaense teve a expressão nacional do primeiro presidente da província o conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcellos: foi ''premier'' no Império na condição de presidente do Conselho de Ministros, governador de vários Estados e até ministro da Marinha.
Um alertamento deve ser feito: nessa época, apesar das discriminações e da fraude e do voto a bico de pena, a representação era mais simétrica à sociedade do que o que foi obtido com a voragem do populismo que até hoje vigora, ainda que sem o talento dos tempos de Getúlio, Juscelino e mesmo de João Goulart. Tirando a gestão de Richa, das recentes, a mais inovadora, na medida em que tentou levar à prática o anseio da participação, o que temos tido é desolador.
Ainda ontem lembrava aqui a eleição majoritária de 1962, a primeira com acesso ao rádio e a tevê no governo democrático de João Goulart, e que visava duas cadeiras no Senado, como se vai dar em 2002. Nada menos de três ex-governadores as disputavam: Bento Munhoz da Rocha Neto, Adolpho de Oliveira Franco e Moysés Lupion, figuras fortíssimas, incomparáveis com os atletas da atualidade. Munhoz foi o maior parlamentar do Paraná nos últimos cinquenta anos (há um livro montado por Norton Macedo e Luis Roberto Soares que reconstitui essa passagem).
Os outros candidatos eram Amauri Silva (PTB) e Sebastião Vieira Lins (PSB), que havia sido deputado federal e líder da maioria no governo Vargas. O eleitorado do Paraná pouco ultrapassava os 800 mil votos. Há aí um dado curioso e que pode repetir-se no ano que vem: a soma de votos em branco e nulos ser maior do que a obtida pelo primeiro colocado. Amauri saiu na frente com 390.057 votos, Adolpho com 326.837, Munhoz da Rocha com 224.959, Lupion com 217.627. Houve 347.346 votos em branco e 59.458 nulos. Tudo isso é como Itabirito para Carlos Drummond de Andrade: um retrato na parede e como dói!
O GÊNIO DE VOLTA Um dos maiores orgulhos do Paraná no jornalismo e militância política é José Augusto Ribeiro. Na terça-feira, ele lança na Saraiva Mega Store (Crystal Plaza Shopping Center) o livro ''A Era Vargas''. Zé foi um dos maiores oradores que tivemos ao lado de Milton Luis Pereira, Jacob Holzmann, Alir Ratacheski e Alcides Munhoz. Peça-chave da campanha de Ney Braga em 60 como orador e editorialista engajado (''O Estado do Paraná''), sempre mais à esquerda, foi um dos baluartes da defesa da posse de João Goulart e serviu, junto com outros paranaenses, dentre eles Tatinho Taborda, Nilo Biazeto e Jairo Régis, no gabinete de Amauri Silva, ministro do Trabalho.
Identificado com o avanço das lutas sociais, Zé desenvolveu o livro encarando Vargas como o comandante do período ditatorial e na condição de estadista, o que é muito oportuno no momento em que Fernando Henrique, o presidente, tem pedido para que se arquive esse ciclo da história brasileira.
A vida é cheia de sinuosidades: FHC é filho do general Leônidas Cardoso, um dos criadores da Petrobras no comando da campanha ''O Petróleo é Nosso''. O lançamento da obra será às 7 da noite.
NOSTALGIA Há o risco, sim, de ''idealizar'' o passado até porque o vivido é menos opressivo do que aquilo que está por vir e quando o presente aponta para dificuldades crescentes. Costumo dizer que o maior comício havido em Curitiba foi o da campanha de Getúlio Vargas em 1950, na sacada do Braz Hotel. Por isso que o bar lá existente leva o nome de ''Getúlio''. Havia 50 mil pessoas na extensão da Praça Osório até a Monsenhor Celso e não existia naquele tempo o ''showmício'', pois o ator principal era o candidato. Não tínhamos estradas asfaltadas e mesmo com o macadame veio gente de municípios distantes. Ir a Ponta Grossa consumia umas quatro horas.
PROGRESSO Nessa comparação temos também motivos para dizer que o Brasil melhorou muito de lá para cá. Nossa pobreza era notória: a qualidade dos calçados, da roupa, alpargatas e tamancos. O tênis, usado nas passeatas, era quase pintado com uma substância chamada alvaiade para despistar o seu desgaste. Não havia economia de escala: nem as mercearias haviam ainda aparecido e comprava-se 300 gramas de feijão e arroz, de banha. Não havia produto embalado.
Muitos de nós andávamos descalços e, vejam bem, o País já experimentava os efeitos daquilo que andam reivindicando hoje - a substituição de importações que Getúlio Vargas já havia deflagrado na Segunda Guerra: conseguiu com apoio americano, em troca dos aeroportos de Afonso Pena e o de Natal (este para a campanha da África), a instalação do fundamento da industrialização na Siderúrgica Nacional com Volta Redonda.
A mutação foi violenta, mas vez por outra há quem reclame do progresso. Lembro de um senhor, o cartorário Alípio Maciel, meu amigo, mas que tinha divergências por causa do socialismo. Quando houve o golpe de 64 ele trocou uma idéia comigo como se buscasse reafirmação de que a revolução e o socialismo iam demorar bem mais, aquilo operava como uma compensação para quem se achava no fim da existência e era contra o comunismo.
Um dia ele parou na esquina da Rua XV com a Ébano Pereira e exclamou: ''Por que os bárbaros retiraram os trilhos dos bondes da Rua das Flores?'' A retirada dos trilhos era um dos sinais de mudança, já de há muito tempo, mas que mexia com o ar europeu da cidade. Cadê a bruma da manhã, cadê as colonas em pregões anunciando a batata, o pepino, a abóbora; cadê o cortador de vidro e o amolador de facas que acompanha seu trabalho cantando ''Suspiros de Espanha'' e o jornaleiro azougue gritando a segunda edição do ''Diário da Tarde''?
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

mockup