Pelo tempo que demorou a aprovação dos empréstimos no Senado, subordinada que foi à revelação dos protocolos das montadoras, era de esperar-se que o governo tivesse um mínimo de cautelas com o que pretendia manter oculto, salvaguarda tida como indispensável para novas conquistas. Da mesma forma que estripulias do Banestado ganham o público, supostamente protegidas pelo sigilo (e isso se repete novamente com a Leasing diante de uma denúncia de aquisição de 500 carros com duas revendedoras e com prejuízos para o banco numa escala menor do que aqueles da gestão do Osvaldo Magalhães), também a peça de sustentação do governo acabou devassada.
É, aliás, uma temeridade revelar essa suposição que pode desencadear, com apoio nos puxa-sacos de sempre, uma ‘‘caça às bruxas’’ no interior do governo. Na gestão Lerner houve um feito importantíssimo em matéria de espionagem: o da quadrilha do ICMS e que negociava com figurões, aliados políticos. Também para apurar os desvios da Leasing foram indispensáveis ações de investigação feitas com rigor técnico. Se neste caso a política interveio para colocar ‘‘panos quentes’’ ao ponto do ex-dirigente da Leasing virar secretário do Esporte e ganhar posição de relevo em iniciativas que envolvem generosos recursos, no outro isso foi impossível, ainda que a arraia miúda dos operadores e da gangue é que tenha sido atingida. Há quem acredite até que os empresários que foram beneficiados na fraude acabarão anistiados, apesar do delito fiscal.
Essas vulnerabilidades do governo mostram que, da mesma forma que não há como evitar esses desvios, é impossível, também, bloquear as denúncias. Nosso tempo é oposto ao regime da caixa-preta. Bastam interesses contrariados para que aflorem as irregularidades denunciadas pelos que disputavam o espaço. Isso se dá muito em concorrência pública. Uma delas, a da ferrovia Norte-Sul, que deu ao jornalista Jânio de Freitas o prêmio Esso, decorreu precisamente disso. As vencedoras tiveram apenas a troca dos lotes que haviam sido denunciados num anúncio cifrado como este da ‘‘Leasing’’ em meio a classificados.
Há acontecimentos em que a simples intuição é suficiente para colocar mal o poder: o caso da vistoria eletrônica dos veículos é um desses óbvios. Ocorre que é inseparável dos negócios públicos, a despeito dos rituais do Tribunal de Contas, esse traço cartorial na proteção dos amigos, dos colaboradores da campanha eleitoral, enfim da tchurma, isso em todos os governos. Como o regime democrático virou a representação dos interesses, deturpação apontada como um dos débitos do sistema por Norberto Bobbio e que se agrava no capitalismo sem entranhas que temos, a vulnerabilidade aumenta, ainda mais quando o governante não sabe se impor, não mostra determinação na liderança e, pior, no instante em que o fato conhecido, tornado público, não é punido e o autor ainda premiado.
Vai haver mais vazamentos e se não forem contidos, não as denúncias e sim os fatos; isso acabará lembrando uma cloaca mal protegida e cujos líquidos ganham a rua e a contaminam, empesteando o ar, como quando se descobriu que havia algo de podre no reino da Dinamarca.
BIZARRICE Amanhã, os produtores de leite vão fazer manifestação diante do Palácio Iguaçu. Contrariados com o poder de fogo das multinacionais, que promovem verdadeiro ‘‘dumping’’ no mercado e também com a importação dos excedentes de países protegidos, convém atender o pedido dos manifestantes para que pessoas do governo tomem o leite. Seguir-se-ia a expressão do anúncio da Parmalat ‘‘tomou?’’ seguida de outra ‘‘se não tomou, vai tomar’’. Pode ser uma elegância, cortesia, mas também uma ameaça eleitoral. Top, top.
DOUTRINA Finalmente, apareceu alguém no governo para articular uma doutrina e esse é o secretário do Planejamento, Miguel Salomão, com sua brilhante análise do simulacro de federalismo brasileiro. Aliás, foi sob a sua gestão que se apurou o chuncho do ICMS e que abrangia, na mesma fraude, tributos federais.
Surpreende o fato de um governo que tem pessoas como Salomão, Ficinski, Deli e especialmente Alex Beltrão, este o genuíno autor da ‘‘revolução’’ neysta, não conseguir um mínimo de teoria sobre o processo das transformações. O que vai prejudicar o governo será a denúncia de irregularidades que inundará jornais paulistas sem que haja no público, a despeito de toda propaganda, uma predisposição para apoiá-lo.
Diante de denúncias concretas, não vale apelar para a condenação do que nós chamamos no passado, tempo da ‘‘guerra fria’’, de imperialismo paulista, ao qual se subordinava o Paraná. Obviamente, a escala da corrupção paulista é muito maior, o que não elide o problema interno porque não se trata de uma questão de medida e sim da patologia em si, condenável mesmo quando menor.
Lerner prefere ‘‘marketing’’, propaganda saturante como vemos agora em cima da ponte de Guaíra, sobre a doutrina, com o que não se diferencia de Álvaro Dias e Requião. Por sinal que a própria propaganda desperta suspeita.
FOLCLORE Dá para imaginar os concorrentes de FHC em missão como a que acaba de desempenhar na Suíça: Itamar Franco (a passagem no sambódromo com a Lílian Ramos dá calafrios, conquanto as proezas do Clinton estejam na moda), Lula (com Brizola ao lado falando nas perdas internacionais), Sarney. Há gente que acha o brilho de Fernando Henrique no exterior tão intenso que sugere até um governo lá do exterior com mensagens para o público interno.
CROMO Quando choverá água benta para remir tantos pecados?
AFORÍSTICO Na oração política, há mais o sujeito inculto do que o oculto.

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