LUIS GERALDO MAZZA Herança de Lerner (I)
Alvaro Dias já a comparou ao Inferno, aquele do Dante Alighieri, não do Dante Mendonça. Roberto Requião se refere a ela como se viesse anunciada pelos três cavaleiros do Apocalipse. O tema em questão é a herança de Lerner.
Nesta semana a Rádio CBN colocou em questão esse tema em seu esforço para fazer jornalismo interativo: as opiniões dos ouvintes vieram com a aura tensa do clima eleitoral, obsessivo e passional. Especialistas como Belmiro Valverde e José Pio Martins fizeram balanço favorável. Valverde acentuou deficiências na área que domina, como PHD, a da administração. Ambos destacaram as mudanças no perfil da economia, nas novas evidências de diversificação da economia, e as colocaram como fatores inquestionáveis.
Na condição de comentarista repeti as restrições, umas agudas, outras suaves, acentuando o exagero da propaganda relativa aos efeitos multiplicadores das montadoras que obviamente não se confirmaram por serem, como quase todo o complexo industrial, poupadoras de mão de obra, agregadoras de tecnologia e intensificadoras de capital. Desde o início do processo e preocupado com o agravamento das tensões nos desequilíbrios regionais internos mostrei que a tendência dessa vanguarda fabril era de concentrar-se no eixo Curitiba-Ponta Grossa-Litoral, como se já não bastassem os ganhos no setor terciário, o de serviços (a atividade portuária e dos transportes por exemplo).
REFÉM Outro ponto, gravíssimo, é do excesso de incentivos financeiros e fiscais a empresas de porte como a Renault, na qual o governo chegou a ter 40% do capital na fase inicial, representados por R$ 400 milhões dados de mão beijada como diz Requião e com sobras de razão. Como também ele e Osmar Dias tiveram razão ao exigirem, como senadores, a devassa dos protocolos, com a qual Belmiro Valverde também concorda e como impositiva de sociedade democrática.
Apesar de reeleito e de ter ''queimado'' R$ 500 milhões em propaganda no primeiro governo, Lerner foi de uma incompetência política assustadora, próxima da sublimidade, o que ficou amplamente confirmado agora no pleito. Jogou fora, com a compulsão de um pródigo, o seu capital pessoal como o que detinha maior potencial para um papel nacional e até internacional. Essas se incluem entre suas deficiências políticas e inabilidades como a forma usada para leiloar a Copel, o que a população repelia e o mercado, com sua sabedoria orgânica, rejeitou apoiado no fracasso do modelo energético de FHC e na sequela dos ataques às torres geminadas em Nova York.
EQUILÍBRIO O saneamento financeiro e o esforço para o ajuste fiscal são valiosos, posto que gerem crises e pressões como a do funcionalismo civil e militar sob arrocho de quase oito anos. Foi frouxíssimo na questão da Segurança, fato exemplarmente acentuado na passagem da CPI do Narcotráfico e uma dessas demonstrações aquele circo do MST no Centro Cívico durante meio ano. Parece refém do sistema político econômico que o respaldou e isso ficou visível nos escândalos do Banestado (Leasing e Corretora), eventos de Londrina-Maringá, e nas parcerias que armou, ao longo da gestão, na Copel (29 beneficiadas), na Sanepar (concessões exageradas ao ''Dominó'', a grupos nacionais e um internacional), na manutenção de ''terceirizações'' injustificáveis como a de alugueres de automóveis, área de informática e do sistema eletrônico de multas nas estradas. Por falar nelas abusou também nos favores a concessionárias de pedágio, mantendo planilhas com o mesmo segredo de Estado que adotava no transporte coletivo quando prefeito de Curitiba.
Uma das ironias econômicas tem sido a de que o Interior respondeu melhor no campo do emprego e junto às nossa vocação agroindustrial. O Paraná mudou e para melhor. Não há como negá-lo, apesar de tudo que é agora exagerado no andamento emocional da campanha eleitoral. Análises são viciadas e subestimam que hoje há mais liberdade para criticar, maior controle fiscal e os dutos financeiros foram devidamente lacrados, graças a Deus.





