Sabe quando se lê algo de relance mas aquilo fica batendo e incomodando? Aconteceu comigo. Outro dia, uma matéria de revista deixou-me neste estado. Dizia que lugar de empresário é na escola, que desqualificação não é privilégio de operários. Isso foi dito por Luiz Fernando Sá, presidente do Sebrae.
Depois de ler, passei a ficar mais atento aos indicativos desta afirmativa. Durante meus cursos e palestras, sempre fazia uma enquete do tipo: ‘‘Qual o último curso que você fez e qual a sua última leitura?’’.
Luiz tem razão. Poucos se manifestam afirmativamente. Onde então eles aprimoram conhecimentos? Onde se reciclam? Como ficam informados de novas técnicas e procedimentos? Muito estranho. Será que eles chegaram ao ponto máximo do saber?
Outro dia, durante a apresentação de um projeto, fiquei incomodado com a facilidade que o diretor descartava as alternativas propostas, tendo sido necessário, num dado momento, perguntar o motivo daquela posição. Resposta: ‘‘Isto eu já conheço e não vai dar certo em nossa empresa. Meu pessoal não tem capacidade para trabalhar desta forma’’.
Aí eu perguntei: ‘‘Conhece de onde? Quais os resultados do que viu? Quantos projetos puderem ser analisados? De quê seu pessoal não é capaz?’’. Fez-se silêncio. É sempre assim. A culpa é do pessoal que é incapaz, do governo que pune, do mercado que está péssimo e por aí a fora.
Temos muita dificuldade em absorver o novo, mas somos incapazes de nos libertar do velho. Esta liberação somente é possível com informação. E informação se obtém com leitura, visitas, conversas, consultores, cursos, seminários. Tevê, novela, página de polícia ou de futebol, horóscopo e Lair Ribeiro pouco acrescentam.
Preparei-me muito para fazer essa afirmativa numa palestra. A reação foi de completa paralisação. Ainda não sei se minha ou da platéia, mas após ter afirmado, isso gerou um profundo silêncio talvez determinado por uma pausa natural e premeditada que fiz. Ao final, uma pessoa me procurou muito acanhada e confessou ter ficado incomodado porém satisfeito com o toque recebido. Este foi meu prêmio maior.
Esta situação gera um efeito-dominó sobre as empresas. Dono desinformado, gerente mediano, funcionário limitado. Quando este ciclo não ocorre, temos certamente o choque. Como tenho visto pessoas de boa capacidade lutando dentro das empresas para realizarem ações novas, mais ousadas, com grande possibilidade de acerto, mas que não conseguem porque o chefe não concorda. E por que não concorda? Não concorda porque não concorda, uai.
Um dos meus paralelos desta constatação ocorre muito no Sebrae, onde atuo. Fiz uma estatística dos últimos doze meses e percebi que somente 6% dos participantes eram titulares de empresas. Pode-se pensar que os assuntos abordados não são de interesse para este nível. Será mesmo? Marketing. Marketing de relacionamento - formas mais indicadas e atuais para captar e manter clientes.
É rotineira a reação de alunos ao afirmarem: ‘‘Quem deveria estar aqui era meu chefe’’. Com certeza. Nos assuntos tratados fala-se muito de Internet, faxmarketing, netmail, assuntos que para maior compreensão é recomendável pelo menos acessar um micro e esta não é uma realidade nos grupos gerenciais e diretivos. Frases como ‘‘lá na empresa tenho que mexe nisto pra mim’’ ou ‘‘em casa quem lida com computador são meus filhos’’ são de considerados semi-analfabetas.
Tudo isso me faz lembrar Maria Amália Bernardi, repórter que certa vez descreveu o perfil do mau empresário: centralizador, de difícil acesso, gerador de trabalho inútil, simulador de atividades, pequeno tirano, desmotivador, burocrático, não acompanha mudanças, não cumpre o papel de conselheiro, tem defeitos de atitude, não investe no próprio desenvolvimento.
Se você tem um perfil assim ou se está convivendo com alguém próximo que tenha, cuidado; o mercado hoje não dá uma segunda chance.
- IVAGNER FERREIRA é consultor de empresas em Belo Horizonte

mockup