Lucros bancários
e a privatização

Paulo Afonso Rodrigues

Nos últimos 12 meses, em artigos publicados na imprensa, alertamos os leitores sobre os altos custos reais que estão sendo obtidos pelo sistema bancário, colocando em risco o desempenho e a sustentação dos meios de produção no país. No início do ano passado, nos deparamos com o desequilíbrio financeiro trazido pela desvalorização cambial. Coincidência ou não, o que os especialistas chamaram de possível efeito cascata a incidir no mercado, foi tratado com excesso de zelo pelo próprio mercado e veio se refletir nos lucros apurados no meio bancário nos últimos 12 meses.
Os bancos nacionais que sobreviveram estão por deveras capitalizados e com condições de concorrer com o mercado internacional para a compra dos bancos Banespa e Banestado. Os bancos estatais privatizados nos últimos dois anos já apresentam altos lucros, como demonstram as matérias jornalísticas publicadas sobre o assunto que atribuem estes lucros às grandes facilidades oferecidas pelo sistema de privatização. Isso porque na venda do banco estatal, o comprador ficou, por algum tempo, sem a obrigatoriedade de recolher os depósitos compulsórios (55%), aumentando a sua rentabilidade.
A análise financeira e calculista do setor, que só pensa na rentabilidade, culminou com o fechamento de mais de 700 agências bancárias no país, às quais eram as únicas existentes para atender a população em vários municípios. Só para se ter uma idéia, em 1994, um total de 1.187 municípios brasileiros não possuíam agências bancárias. Ao final de 1999, esse número subiu para 1.862. Essa é uma prova de que com a privatização dos bancos estatais o objetivo dos bancos privados é voltado somente para os lucros, sem que haja preocupação com os benefícios à comunidade.
Está na hora de o Banco Central ficar atento às próximas privatizações, vinculando a compra do banco estatal ao melhor atendimento à população. Com certeza, o mercado qualificará esta atitude como utópica e os compradores vão argumentar que agências deficitárias devem ser fechadas. Aí vem o questionamento: Como ficam as agências de alta rentabilidade cada vez mais lucrativas com os benefícios do Banco Central que vem reduzindo dia a dia os compulsórios dos depósitos à vista e a prazo? O ditado popular cabe com tranquilidade neste caso: ‘‘Casou com a viúva, assume os filhos’’.
Imaginem quantas agências no caso do Banespa e Banestado serão fechadas após a privatização com a alcunha de ‘‘agências deficitárias’’. Já que os bancos privados agem assim, só pensando nos lucros, não seria o momento de o Banco Central aumentar os compulsórios das agências bancárias consideradas de alta rentabilidade e ‘‘filé do mercado’’ e reduzir a zero ou a quase zero o compulsório das demais agências que chegaram a ser chamadas de pioneiras?
Só não pensam assim as pessoas que vivem no meio urbano atendidas pela tecnologia. O que dizer do atendimento ao aposentado que para receber a mísera aposentadoria tem que se deslocar vários quilômetros porque a agência próxima a sua casa foi fechada por não gerar altos lucros?
É lógico que o mercado financeiro nacional e internacional, altamente comprometido com seus acionistas em celebrar altos lucros a cada balanço, será totalmente contra a solicitação de manutenção das agências deficitárias.
Por isso, quando deparamos com as notícias de bancos estatais privatizados que já apresentam altos lucros, ficamos contentes com a recuperação do setor. No entanto, se analisarmos a fundo, veremos que o que ocorreu foi a transferência dos rendimentos de setores da produção para o setor capitalista.
E é bom lembrar: 725 municípios ficaram sem agências bancárias nos últimos cinco anos. Com a palavra, a classe política e aqueles que ditam as regras da privatização para que nas próximas negociações com o mercado financeiro, em relação à venda do Banespa e Banestado, o consumidor não seja novamente penalizado.
PAULO AFONSO RODRIGUES é ex-gerente de banco, contabilista e assessor financeiro da Assessoria Financeira e Planejamento de Londrina

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