Há os que insistem na crise, que choram e clamam pelos pobres enquanto lotam aviões em busca de lazer ou desfrutam de hotéis de luxo, de praias paradisíacas, do agito noturno de restaurantes e boates. De fato a pobreza nunca nos faltou. Basta perceber a desgraça da miséria estampada em rostos que nos sorriem (pobres são impressionantemente alegres em sua desgraça) e com os quais nos deparamos a todo momento. Falta aos miseráveis uma vida decente em todos os aspectos mal resolvidos de um viver que, beirando a sobrevivência, avilta quem nada ou pouco possui em bens materiais. E na escala mais baixa da sociedade permanece não só a degradação de quem é pobre, mas da Nação que comporta a pobreza.
Padecemos de nossas diferenças sociais e nelas se incluem aqueles que minha saudosa mãe chamava de pobres remediados. Penso que ela queria se referir à classe média a qual pertencíamos, pois vivíamos decentemente mas sem luxo ou ostentação.
Talvez ninguém nunca cogitou de especular sobre os pobres remediados e o quanto sua pobreza dói, martiriza, desespera. Efeitos provavelmente muito mais profundamente dolorosos do que os que ocorrem aos pobres preocupados apenas com a sobrevivência do dia seguinte. Mesmo porque, os que pertencem à classe média planejam a médio e longo prazo e desenvolvem aspirações de classe alta. Se não as alcançam provam da terrível humilhação de não poder ostentar o que tanto desejavam: a riqueza.
A classe média (o certo também é dizer classes médias) é por excelência aquela em que a necessidade de ter de muito ultrapassa a importância de ser. Esta, aliás, é uma das marcas que diferencia esse estrato social dos muito pobres ou dos muito ricos que são o que são e ponto final. Relembre-se também que é a classe média que sofre de crises existenciais ou de má consciência diante dos pobres. Ao mesmo tempo é aquela que apela para símbolos de status superior para aparentar algo que não possui nem é.
Indivíduos das classes médias (média-alta, média-média e média-baixa), entre os quais se incluem intelectuais, universitários, parcela do clero, o operariado especializado, artistas, funcionários públicos, categorias de comerciantes, etc, são os que costumam se compadecer dos pobres sem nada por eles fazer de efetivo a não ser passeatas e discursos. E os pobres remediados saem de férias porque crise stressa e é preciso viajar, comprar, divertir-se bastante para distrair-se dos efeitos perversos da dita crise.
Enquanto isso os despossuídos estão se alimentando melhor, consumindo mais, tendo mais acesso a certos direitos como educação, habitação, sa© úde e, por que não, ao lazer. Neste último aspecto basta ir às rodoviárias para se tentar a difícil conquista de uma passagem nesta festiva época de ano. Então se verá como os pobres disputam com pobres remediados passagens para os mais variados lugares desse meu Brasil de imensidões e belezas, que entre o Natal e o Carnaval fica paralisado numa modorra tropical e carnavalesca.
Portanto, há um certa hipocrisia nesta minha classe de pobres remediados onde muitos cultivam ideologias ultrapassadas, vivem de aparências enganosas, esbanjam falsa moral, ostentam o detestável bom-mocismo.
Era nisso que eu pensava na última noite do ano de 2001, à beira da piscina de um lugar aprazível onde me refugiei por quatro dias. Enquanto ouvia um cantor de cor negra que lançava aos ares sua voz bonita, vi surgir esplendorosa e descomunal lua cheia. Ela subiu num gigantismo desses de luar de sertão que me desconcertou. Fiquei a quilômetros de mim mesma vagando por entre estrelas e nuvens sob aquela luz. Quando voltei busquei o sentido da vida, da riqueza e da pobreza, do ser e do ter e nada encontrei entre os hóspedes do hotel que tagarelavam indiferentes a mim e ao esforço do cantor. Ficamos, eu no meu canto, ele no palco improvisado entre duas palmeiras, como melodias isoladas entre piscinas de águas azuis. Ocorreu-me, então, como consolo, que pelo menos eu tinha a lua cheia. Uma lua de luxo.
MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é professora universitária em Londrina

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