Longe de outubro - Hélio Doyle
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segunda-feira, 07 de setembro de 1998
Hélio Doyle 
Os comunistas têm maioria na Duma, a Câmara dos Deputados da Rússia. Certo. A população russa está muito insatisfeita. Certo. Como são fortes politicamente e a população está insatisfeita, os comunistas podem ganhar se houver novas eleições. Certo. Se isso acontecer, o comunismo voltará à Rússia. Erradíssimo.
Raciocínios tortos e absurdos como esse são fruto ou da ignorância que muitos analistas têm sobre determinados assuntos ou da deliberada intenção de desinformar as pessoas - com intenções nem sempre muito explícitas.
Sabe-se muito pouco sobre a Rússia e menos ainda sobre comunismo. As análises são simplistas. Não há eleição capaz de restaurar o sistema socialista na Rússia, nas condições econômicas, sociais e políticas vividas atualmente pelo país. Se houver eleições e se o Partido Comunista vencê-las e formar um governo, o tipo de poder que exercerá estará muito longe de ser comunista. Pelo menos, comunista tal qual se entende usualmente o comunismo - que, a rigor, nunca existiu, pois seria uma fase posterior do socialismo, não alcançada por nenhuma sociedade. De qualquer maneira, um governo comunista, no sentido usual, é o que socializa os meios de produção, implanta um planejamento centralizado e exerce um sistema político que nada tem a ver com o existente nos países capitalistas.
Algo assim não se instaura por eleições, muito menos em um país gigantesco como a Rússia e em tempos de economia globalizada com hegemonia dos Estados Unidos. Só uma revolução social com amplo respaldo popular seria capaz, e assim mesmo em meio a terríveis dificuldades, de restaurar o comunismo na Rússia, mas alguns não entendem ou fingem não entender isso.
O governo que o Partido Comunista liderado por Guennadi Ziuganov exerceria na Rússia nada teria de comunista. As mudanças que poderia imprimir - ou, pelo menos, tentaria imprimir - poderiam até ser profundas, mas estariam longe de se caracterizar como comunistas. Medidas que apenas tentariam corrigir o mal feito por Boris Yeltsin.
Yeltsin ficará na História como o irresponsável que fez o que pôde para destruir um país. Amparado pelas potências ocidentais ansiosas por implantar o capitalismo a qualquer custo, Yeltsin acabou com o Estado, desestruturou social e psicologicamente a sociedade, incentivou as máfias, abriu campo aos criminosos, desmoralizou as forças armadas, manteve o autoritarismo político e deixou a economia em frangalhos.
Mikhail Gorbachev será lembrado como o dirigente em quem tantos apostaram, mas que não teve competência para fazer a transição de um regime fechado e autoritário para uma sociedade aberta e democrática. Sua auto-suficiência e a incrível ingenuidade em acreditar que Ronald Reagan e George Bush queriam ajudá-lo levaram-no a abrir o caminho para o caos na antiga União Soviética.
Se Yeltsin e a Duma não conseguirem romper o impasse em torno de Viktor Chernomyrdin (outro que muito ajudou a destruir o país), poderão ser convocadas eleições - os comunistas poderão ganhar, mas não restaurarão o socialismo. O povo está descontente, as forças armadas estão irritadas, e isso até poderá levar a uma revolta popular. Mas as potências podem se tranquilizar: não será um novo outubro de 1917.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília


