Deixar parentes, amigos, casa, língua natal e se aventurar em um novo país. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, essa é a realidade de 3 milhões de brasileiros. Os principais destinos são América do Norte, Europa e América do Sul, nesta ordem. Segundo o Itamaraty, destes, aproximadamente dois terços vivem em situação irregular.
''Uma exceção é o Japão, país em que virtualmente todos os pouco mais de 250 mil brasileiros que vivem lá estão regulares'', explica a diretora do Departamento Consular e de Brasileiros no Exterior, Mariangela Rebuá de Andrade Simões. Ela ressalta em entrevista à FOLHA que o Brasil não tem fatores que forçam a emigração, como guerras ou perseguição religiosa. Por isso, a decisão de emigrar é pessoal e nem sempre motivada por questões financeiras.
O Itamaraty considera alto o número de brasileiros vivendo no exterior?
Não existe um parâmetro muito claro para definir o que seria um número alto ou baixo. Claro que o número estimado de 3 milhões de brasileiros vivendo no exterior é bastante significativo. Porém, se levarmos em conta a relação entre o número de brasileiros vivendo no exterior e a população brasileira como um todo (de acordo com essa estimativa, menos de 1,5%), esse contingente não é tão alto. Esse exercício ajuda a colocar um pouco em perspectiva a dimensão do fenômeno migratório brasileiro.
Qual a política de apoio para quem está vivendo fora do País?
De um lado, temos aqueles serviços tradicionalmente prestados pelos nossos consulados, que são verdadeiros balcões de serviços públicos que, no Brasil, são oferecidos por diversos órgãos. Também é oferecida a assistência consular a brasileiros em dificuldades (assistência jurídica, repatriação, pequenos auxílios a desvalidos).
As políticas de cunho mais coletivo englobam o apoio ao autodesenvolvimento das comunidades e reforço de seus laços com o Brasil (por meio de iniciativas na área cultural e outras visando ao aproveitamento desses brasileiros em favor do desenvolvimento nacional); esforços de regularização migratória em países vizinhos, como vem ocorrendo no Paraguai desde que entrou em vigor recentemente o Acordo de Residência do Mercosul; e a criação de canais de diálogo entre as comunidades brasileiras no exterior e o governo brasileiro.
A maior parte dos emigrantes está em busca de melhores condições de vida. Existe algum incentivo do Brasil para que as pessoas permaneçam no País?
Esses incentivos existem, e confundem-se com a ação governamental voltada para aumentar a prosperidade econômica, reduzir as desigualdades sociais e regionais e acabar com a pobreza. Além disso, o crescimento econômico e as oportunidades de emprego que agora se verificam no Brasil são grandes incentivos para que as pessoas permaneçam no País.
Não seria melhor que essas pessoas pudessem permanecer aqui, já que emigrando ilegalmente estão mais sujeitas a dificuldades no exterior?
Considerando que em nosso País não se verificam circunstâncias que obriguem os brasileiros a emigrar, já que não ocorre perseguição política ou religiosa (historicamente razões para importantes fluxos migratórios) nem situações de penúria extrema que ameacem a sobrevivência física das pessoas, ir viver no exterior ou permanecer no Brasil é basicamente uma decisão individual, de foro íntimo.
Claro que por termos contato diário com situações de dificuldades que os brasileiros enfrentam no exterior gostaríamos que todos pudessem alcançar seus objetivos por aqui mesmo, ou emigrassem apenas em condições favoráveis. O que é importante é que a iniciativa de emigrar seja feita de maneira informada, ou seja, que o brasileiro não alimente ilusões quanto às dificuldades e perigos que irá enfrentar no exterior. Para tanto, o Itamaraty já publicou cartilhas informativas aos brasileiros que viajam à Europa, à Guiana Francesa e ao Suriname.
O índice de brasileiros no exterior não é um indicativo de que o País não tem dado conta de gerar oportunidades suficientes?
Conforme foi dito, o número de brasileiros no exterior em termos relativos não é tão alto quanto em alguns outros países. O auge do fenômeno emigratório brasileiro deu-se nas décadas de 1980 e 1990. Desde então esse fluxo não cresceu tanto. Além disso, temos de lembrar que o fenômeno é complexo e não se esgota em seu sentido econômico.
Um aspecto bastante conhecido das migrações é o efeito demonstração. Ou seja, em uma determinada região cria-se um início de fluxo migratório para um determinado país. Os brasileiros que vivem nesse país criam uma rede de apoio que facilita e incentiva a vinda de novos brasileiros de sua relação (parentes e amigos), aumentando o fluxo. De outro lado, na região de origem, as famílias dos brasileiros que emigraram e tiveram sucesso começam a ostentar sinais de prosperidade. Isso vai criando nessas comunidades uma cultura que leva os cidadãos a considerar a migração uma possibilidade mais real.

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