Aqui há chuvas e chuvas. As esperadas são mais raras, tendem a ir e vir de forma rápida, sem aviso prévio, nem despedidas educadas. As inesperadas são as melhores, doces, cálidas. Passa-se sob uma árvore, uma rajada de vento, e fica-se encharcado de folhas miúdas, pétalas coloridas, impregnando cabelos, roupas e sapatos. Na primavera, Londrina estimula as sensações coloridas e o desejo de encontrar o caminho das águas, das quais a região é pródiga.
Situada 576 metros acima do nível do mar, a cidade usufrui de um clima subtropical, que prevê chuvas em todas as estações e uma temperatura média, ao longo do ano, de 20,7 graus centígrados. A área urbana, formada por cerca de 13 mil quarteirões, abriga mais de 100 pequenos rios riachos, arroios, nascentes , em quatro microbacias dos ribeirões Cafezal, Cambezinho, Lindóia/Quati e Jacutinga , protegidos por mais de 25 milhões de metros quadrados de vegetação de fundos de vale.
Em meio a essa exuberante rede hídrica e vegetal, destaca-se o Ribeirão Cambezinho, que corta a cidade de oeste a leste, levando o verde dos vales, ao seu redor, por uma extensão de 15 quilômetros. Origina-se também de suas águas o Lago Igapó, cujo nome significa, na língua Tupi, ''transvazamento de rios''. Projetado em 1957, como solução para o problema de drenagem do ribeirão, e inaugurado em 1959, o lago sofreu, ao longo dos anos, altos e baixos em termos de manutenção e aproveitamento, mas tem se preservado, apesar das intempéries, como o cenário mais representativo da beleza de Londrina.
Além dos limites urbanos, o Rio Tibagi é soberano. Percorre, em diagonal, 550 quilômetros pelo interior do Estado, 86 quilômetros dos quais dentro do município de Londrina, até desaguar mais ao norte, no Paranapanema. Nesse sinuoso fluir, acolhe desde os ribeirões da microbacia do Cambezinho a vários rios, como o Apucaraninha, o Três Bocas e o dos Apertados. Acolhe também, em suas inúmeras ilhas, enseadas e praias, os pescadores, os aficcionados da canoagem e do ''rafting'', e todos que têm espírito aventureiro.
Se existem rios e em tão grande quantidade, naturalmente existem ecossistemas protegendo-os. Muitos deles foram transformados em parques, áreas preservadas para o usufruto de todos. Há o parque Arthur Thomas, em plena área urbana, com pouco mais de 85 hectares de mata, pelo qual passa o ribeirão Cambezinho, deixando um rastro úmido de lagos e quedas d'água. Mais adiante, a 15 quilômetros da cidade, encontra-se a Mata dos Godoy, com 675 hectares de floresta tropical preservada e que há 7 anos está aberta à visitação pública. Lá, ainda se pode apreciar a cidade cenográfica montada para o filme Gaijin 2, que reproduz a Londrina do início da colonização.
Mais 12 quilômetros, a caminho do Distrito de Maravilha, e se tem o Parque Ecológico Dr. Daisaku Ikeda, com cerca de 124 hectares de área, pelo qual passa o Rio Três Bocas. Já a 80 quilômetros do centro da cidade, o Rio Apucaraninha reserva uma surpresa: uma vertiginosa queda d'água, com 116 metros de altura. O ''Salto do Apucaraninha'', como é mais conhecido, fica dentro da reserva indígena dos Kaingang. Por causa disso, antes de visitá-lo, é preciso pedir autorização à Funai.
Para João Batista Moreira Souza, da Organização Não Governamental (ONG) Patrulha das Águas, e Assessor da Prefeitura para Recursos Hídricos, ''por ser relativamente nova, a cidade ainda não dimensionou adequadamente sua exuberância hídrica, o que leva o londrinense a não dar importância à preservação dessa riqueza, para poder usufruí-la de forma plena''.
Como exemplo, João Batista, nascido no sertão baiano, comenta sobre a pouca frequência registrada nos grandes parques da cidade, como o Arthur Thomas; ou o pequeno número de bicicletas, em relação ao de automóveis, e, consequentemente, a falta de ciclovias; ou ainda a pequena utilização dos fundos de vale como áreas de lazer e de descoberta de trilhas para caminhadas. ''De um lado, por parte da iniciativa pública, não há estímulo para tornar toda essa riqueza mais acessível ao cidadão'', explica. ''De outro, no entanto, o londrinense ainda não se conscientizou de que é preciso exigir alternativas de lazer, com base em todo esse potencial existente'', complementa.
Uma demonstração de que exigências assim costumam funcionar é o lago que vai surgir no ano que vem, de tamanho equivalente ao do Igapó II, nas proximidades do Conjunto Milton Gavetti, na Zona Norte da cidade, fruto da reivindicação dos moradores da região. Ali, como conta João Batista, serão represadas as águas do Ribeirão Lindóia. Contudo, a exuberância é tanta que, de acordo com João, ''estudos feitos apontam para a possibilidade de construir futuramente, no local, não apenas um, mas seis pequenos lagos''.
Na cidade e ao redor dela, as opções de integração com a natureza e de aproveitamento de seu potencial hídrico multiplicam-se. Resta conhecê-los e, se possível, mapeá-los, como planeja fazer o assessor da prefeitura. Enquanto isso não ocorre, contudo, ele espera ''que Londrina se descubra e se valorize, para poder usufruir de uma qualidade de vida ainda melhor''.

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