Londrina é uma cidade com tradição inegável de soluções de qualidade, tanto na área urbanística (a própria colonização do Norte do Paraná, leis do urbanista Prestes Maia, a preservação dos fundos de vale, o Calçadão...), quanto no campo da arquitetura (como as obras de Vilanova Artigas). Não é à toa que hoje estes são marcos referenciais, que identificam a nossa cidade. Na verdade, se constata que o que há de qualidade de vida urbana hoje, nos foi legado por estes atos coerentes e corajosos, tomados numa época em que ainda se pensava grande, não por serem obras caras ou vultosas, mas pelo fato das ações serem tomadas com os olhos mirando o futuro da cidade.
Este fato traz à tona o problema maior, tão claro que é apontado de forma unânime por todos (tanto pelos profissionais acadêmicos, com visão mais técnica, quanto por empreendedores privados, com preocupações mais econômicas): não há planejamento urbano adequado, hoje, em Londrina; não mais se pensa seu futuro - e isto é muito grave, pois afeta profundamente a vida do cidadão, a qualidade do ambiente urbano e a economia da cidade, que pode perder décadas de desenvolvimento.
Quem paga esta conta, que chega a longo prazo mas é cara e implacável, é a sociedade. Tal discussão acaba por ficar convenientemente distante do público leigo, que não percebe que a origem dos problemas que estão ocorrendo não é recente e não se deve apenas à alegada falta de recursos, mas são consequências desta falta de planejamento. Faltam critérios para o bom uso do dinheiro público (que vem dos impostos que pagamos, e não da benemerência dos políticos que o gerenciam), há degradação urbana e ambiental, menos oportunidades de negócios para a iniciativa privada, menos empregos e moradia para a população, etc.
Deve-se afirmar que o planejamento urbano não ocorre somente para direcionar e disciplinar a expansão da cidade; entre muitas outras atribuições, está o resgate e renovação de áreas já estabelecidas - vejam o debate que se faz sobre a revitalização do centro de Londrina. As já citadas obras de nosso passado são testemunho vivo que planejar a cidade não é tentar organizar o existente ou correr atrás dos problemas que surgem, mas despertar e fazer surgir novos potenciais, e pensar além do final de um mandato.
Isto se torna mais urgente ao se observar mudanças profundas no perfil econômico e urbanístico das cidades atuais, com o advento das novas tecnologias da informática e das comunicações, e o surgimento de espaços dissociados do meio urbano tradicional, como os shopping centers e os condomínios fechados. Se cidades do mundo inteiro, com tradição em planejamento urbano, têm apresentado problemas frente a este contexto, o que dizer de uma cidade onde não há planejamento?
Voltando à nossa realidade: flores nos canteiros centrais ou uma cascata no Igapó, apesar de serem iniciativas positivas, são inócuas e ineficientes para a revitalização de nossa cidade, por serem empreendidas de forma isolada e abordarem apenas o aspecto estético, sem atacar os problemas a nível estrutural, como seria a atitude correta. Portanto, a campanha de marketing se iniciou há algumas semanas - ''Londrina tá diferente'' - pode ser eficiente para alavancar a popularidade de uma gestão, numa época em que se dá tanta importância à imagem. Mas, infelizmente, publicidade e imagens não dão ''alma'' a uma cidade; não garantem que esta se torne um ''lugar'' vivenciado pelos seus habitantes e apreendido e perpetuado em sua memória coletiva; tampouco a torna mais atrativa para os negócios e os investimentos.
Então, o que fazer? Para começar, que haja diálogo e bom senso por parte de nossos dirigentes. Concluindo, resta a uma sociedade com um grau de maturidade que já permitiu a cassação de um prefeito, deixar os interesses puramente políticos de lado e iniciar um debate que sensibilize para este fato tanto a administração atual quanto as que virão no futuro - antes que a falta de planejamento faça com que esta se torne uma missão quase impossível: demorada, dolorosa, cara e tardia, como se pode observar na cidade de São Paulo, onde me formei, exemplo de cidade que cresce sem planejamento adequado e respeito ao meio ambiente (caminho que Londrina vem tomando nos últimos anos, infelizmente).
MARCELO FRANÇA DOS ANJOS é arquiteto em Londrina

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