Depois de mais de 30 anos, Londrina celebra este mês a volta do Sagrado Coração de Jesus como padroeiro da cidade. Uma imagem de Cristo com o coração exposto, representando o amor de Deus. A nomeação agora é oficial - os vereadores votaram uma Lei Municipal em dezembro do ano passado decretando feriado para celebrar a data. A lei acabou com uma polêmica que começou na década de 70 quando o arcebispo dom Geraldo Fernandes resolveu trocar o padroeiro da cidade e colocou Nossa Senhora da Imaculada Conceição no lugar do Sagrado Coração.
Essa história, na verdade, começa bem antes, na década de 30, quando foi fundada a primeira paróquia de Londrina. ''No norte do Paraná só tinha um bispo, dom Fernando Tadei, que morava em Jacarezinho. Ao saber que os pioneiros tinham escolhido o Sagrado Coração de Jesus como padroeiro de Londrina, dom Fernando presenteou a recém-criada paróquia com uma imagem do Sagrado Coração que está aqui até hoje '', conta o pároco da Catedral, monsenhor Bernardo Gafá. Durante anos o padroeiro ''reinou'' sem concorrência na cidade, até que o arcebispo dom Geraldo Fernandes assumiu a paróquia. Assustado com as geadas que dizimavam a produção agrícola, dom Geraldo, que era da Congregação de Maria, fez um voto: prometeu criar uma paróquia em cada bairro e nomear cada uma delas com um dos títulos de Nossa Senhora. Por isso, 21 das 39 paróquias existentes atualmente em Londrina homenageiam a mãe de Jesus.
Nos anos 70 o governo federal resolveu diminuir o número de feriados e decretou uma lei limitando em quatro o número de festas religiosas durante o ano. Numa tentativa de ''matar dois coelhos com uma cajadada só'', o arcebispo e o então prefeito da cidade, Antonio Belinati, combinaram comemorar o aniversário e o dia do padroeiro da cidade num mesmo feriado, 8 de dezembro, data da emancipação política do município e Dia de Nossa Senhora Imaculada Conceição. Desta forma a Santa passou a ser considerada a nova padroeira da Londrina. Com esse acordo a Igreja abria mão do feriado do Sagrado Coração de Jesus - uma data móvel que sempre cai numa sexta-feira de junho - e a prefeitura desistia do feriado de 10 de dezembro, data em que foi realizada a solenidade de instalação do município de Londrina.
Com a troca de prefeitos e a morte de dom Geraldo, o acordo começou a ser desrespeitado. A cidade voltou a comemorar o aniversário no dia 10 de dezembro e os comerciantes começaram a abrir as portas no dia de Nossa Senhora Imaculada: ''O comércio reclamava muito desse feriado perto de Natal e a prefeitura sempre dava ponto facultativo. Londrina acabou ficando sem nenhum dos dois feriados'', diz monsenhor Gafá. No ano passado, um grupo de fiéis da Catedral, com aprovação oficial da Igreja, entrou com requerimento na Câmara pedindo a volta do Sagrado Coração como padroeiro da cidade e a instituição de um feriado municipal para a data.
De acordo com a definição da igreja, o padroeiro é um protetor. ''Assim como toda pessoa tem um anjo da guarda, as cidades também tem um padroeiro'', explica o pároco. Monsenhor Bernardo está feliz com a decisão da Câmara. Ele próprio é devoto do Sagrado Coração de Jesus e tem uma imagem, trazida da terra natal, a Ilha de Malta, há mais de 40 anos: ''Ela fica no meu quarto, não me separo nunca dela'', confessa.
A devoção ao Sagrado Coração de Jesus surgiu no século 18 por intermédio da religiosa francesa Santa Maria Margarida Alacoque. Ela teria tido visões da imagem e através desses relatos foi construída uma das mais famosas catedrais do mundo, a Sacre Coeur (Sagrado Coração), em Paris. ''Os devotos do Sagrado Coração dão ênfase especial ao amor de Deus. Esse amor nós aprendemos de Jesus e as características principais são a mansidão e a humildade'', ensina o monsenhor.

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