Londrina pode ser feita de bairros com futuro
É preciso tratar cada bairro como projeto estratégico – começando por um projeto-piloto integrado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de julho de 2025
É preciso tratar cada bairro como projeto estratégico – começando por um projeto-piloto integrado
Luiz Cândido de Oliveira 
Londrina cresceu sob o signo do café, mas seu futuro exige outro tipo de sementeira: a dos bairros que não apenas abrigam pessoas, mas cultivam comunidade, dignidade e resiliência. Na Alemanha, cidades grandes e pequenas já transformaram esse ideal em padrão, com espaços públicos que convidam à vida, mobilidade sustentável e adaptação climática inteligente. Por aqui, ainda lutamos contra a herança da expansão desordenada, dos "não-lugares" e da segregação que marca nosso mapa. A pergunta que nos persegue é: como semear esse futuro em solo londrinense?
O desafio é claro: temos ilhas de excelência (como o Lago Igapó ou o Calçadão), mas bairros inteiros à mercê da carência. Faltam-lhes equipamentos públicos dignos, calçadas transitáveis, sombra para o sol de 40°C e, sobretudo, proximidade. Quantos de nós não perdem horas no trânsito porque trabalho, escola e mercado estão a quilômetros de casa? A receita para mudar esse cenário existe, e passa por cinco eixos:
INFRAESTRUTURA QUE UNE, NÃO SEPARA
Precisamos de praças que sejam praças – não canteiros abandonados. De postos de saúde que não exijam peregrinação. De creches em cada bairro, não só nos "pontos nobres". O Lago Igapó prova que espaços bem desenhados atraem vida; replicar isso nas zonas sul, oeste e norte é questão de justiça urbana.
MISTURA QUE DÁ VIDA
Chega de bairros-dormitório! Precisamos permitir que padarias, oficinas, pequenos comércios e residências coexistam – como no bom Centro Histórico. E combater a especulação imobiliária com instrumentos reais: ZEIS (zonas especiais de interesse social) efetivas, IPTU progressivo e parcerias para habitação popular inserida na cidade, não confinada em guetos.
A REVOLUÇÃO VAI A PÉ (E DE BIKE)
Enquanto 30% do espaço público for dominado por carros estacionados, seguiremos sufocados. A prioridade absoluta deve ser: ônibus eficientes e integrados (com faixas exclusivas de verdade); rede cicloviária contínua e protegida – não tiras de tinta entre carros; calçadas largas, sombreadas e sem buracos.
CLIMA: ENFRENTAR HOJE O CALOR DE AMANHÃ
As enxurradas que alagam a zona leste e as ilhas de calor na zona central são avisos. A resposta está: na arborização maciça (nossas "sombras de gratidão"); em parques que absorvem água (Soluções baseadas na Natureza, SbN); em telhados verdes e pisos que respiram, não impermeabilizam a cidade.
O obstáculo maior? Interesses instalados. Fazer bairros com futuro exige coragem para priorizar o coletivo sobre o privado (menos vagas de garagem, mais espaços de convívio); exigir contrapartidas claras de empreendimentos novos; ouvir moradores - conselhos de bairro com poder real, não fachada.
Londrina tem todas as ferramentas: um Plano Diretor recente, universidades qualificadas e sociedade civil ativa. Falta o passo decisivo: tratar cada bairro como projeto estratégico – começando por um projeto-piloto integrado (sugiro o entorno do Terminal Oeste ou a revitalização da Avenida Maringá).
Não se trata de copiar modelos alemães, mas de aprender com seu cerne: cidade boa não é luxo, é direito básico. O futuro não virá por acaso; será plantado nas calçadas que pisamos, nas praças onde nos encontramos, no transporte que não nos humilha. Bairro a bairro, é assim que se colhe uma cidade para todos.
Luiz Cândido de Oliveira
Arquiteto e Urbanista, especialista em Habitação e Desenvolvimento Urbano e em Direito Ambiental e Urbanístico


