Antes de ser cidade, Londrina era uma grande floresta. A natureza gastou milhões de anos para edificá-la. Bastaram poucas décadas de atividade humana para que seu equilíbrio fosse rompido. O que temos hoje é o resultado das investidas da técnica sobre aquele mundo natural.
O homem ganhou o jogo. A floresta perdeu. As conhecidas fotografias, de pioneiros sobre troncos de imensas perobas, troféus abatidos no meio da mata, são parte das provas. O século 21 começa e o progresso que, para muitos, justificou cada árvore tombada, deixou-nos de herança sérios problemas.
Acreditando na natureza como algo infinito e de recursos inesgotáveis, a cidade acumulou sérios problemas ambientais. Até porque seu modelo de desenvolvimento baseou-se no crescimento a qualquer custo – a mata deu lugar ao progresso! Ainda comemoram os ufanistas.
Na década de 80, a festejada Londrina e seus arranha-céus, cidade de maior crescimento vertical do Brasil. Uma ocupação irracional do solo urbano, que usava mão-de-obra desqualificada e barata saída do campo após a geada de 75, e poupava capital de quem vendia o sítio pelo mesmo motivo. Quase ninguém parou para pensar no que dariam aquelas bravatas. Hoje, quarteirões que chegam a 2 mil habitantes (mais pessoas em uma quadra que 20% das cidades do Paraná), ausência de sol para as crianças, bueiros entupidos, buzinas, roncos de motores, falta de espaços para lazer e estacionamento, excesso de veículos por área, acúmulo de resíduos e outras tantas mazelas. A poucos metros dali, quarteirões inteiramente vazios! Individualmente, o comportamento não é diferente.
As ligações clandestinas de esgoto, em galerias pluviais, comprovam o pouco caso para com o ambiente por milhares de pais de família que agem ou agiram dessa forma. As toneladas de entulho depositadas nos fundos de vale. Os pneus, sofás e fogões velhos atirados para dentro dos mananciais. O envenenamento voluntário da árvore que incomoda. O escapamento aberto da moto ou do carro que polui. O letreiro, cada vez maior e reluzente...
O poder público não interfere e, muitas vezes, estimula, ao dar o primeiro exemplo. Executivo e Legislativo, na maioria das vezes, ocuparam-se em atender interesses paternalistas e contentar os mais ricos e influentes. Assim, construiu-se em áreas de preservação, permitiu-se atividades ilegais, fechou-se os olhos para crimes ambientais e foi-se conivente com as agressões que hoje nos causam tantos danos.
Em uma cidade, o ambiente é o que fazemos dele. Somos nós a nossa própria herança. Londrina é o resultado do que fizemos até agora.
Toda cidade é o destino final de produtos vindos de áreas florestais, agropecuárias, marinhas e mineradoras. Eles geram resíduos que se acumulam e sobrecarregam o ambiente. Na natureza, há poucos exemplos semelhantes. Um deles é o da saúva, que realiza um trabalho de corte e transporte de folhas para o formigueiro. Ali, o material processado transforma-se em resíduos que não retornam à origem. Por consequência, sua colônia tem um tempo limitado de vida. No caso da saúva, não ultrapassa os 15 anos. As cidades não são diferentes. Ou modificamos o modelo ou, progressivamente, perderemos a qualidade de vida, até inviabilizarmos por completo o ambiente.
Nesse sentido, a cidade não pode ser vista só como gastadora de energia. Ela precisa ser poupadora e até produtora de energia. O gás do lixo pode virar combustível; as podas de árvores transformarem-se em brinquedos infantis; suas folhas e galhos mais finos, adubo para uma agricultura orgânica; os entulhos construírem casas e calçadas.
A circulação de veículos deve ser contida, estimulando o transporte coletivo de boa qualidade, taxando pesadamente os estacionamentos na área central, como já fazem países mais adiantados. Qualquer injúria ambiental, sem exceção, exemplarmente punida.
Tão importante quanto estas ações, é o compromisso pessoal na edificação desta cidade ambientalmente equilibrada. E é preciso acreditar nisso pois não há pecado maior do que alguém que não fez nada porque só podia fazer pouco. É uma mudança de comportamento.
A administração municipal chama a todos para darmos os primeiros passos na solução deste novo desafio: crescer sem destruir. Usufruir, satisfazendo nossas necessidades, sem colocar em risco as futuras gerações. Esta é a proposta da 1ª Conferência Municipal de Meio Ambiente, que pretende iniciar a discussão de uma agenda para o século XXI, a Agenda 21.
- LUIZ EDUARDO CHEIDA é presidente da Autarquia Municipal do Ambiente de Londrina

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