Londrina despertou
Manuel Joaquim Rodrigues dos Santos
‘‘Grandes mentes discutem idéias; mentes médias discutem eventos pequenas mentes discutem com pessoas.’’ Os cálculos sobre o espólio da história recente de Londrina ainda estão longe de serem efetuados. Tenho ouvido várias pessoas afirmarem por aí que está na hora de devolver a paz a esta cidade que passa por um dos momentos mais vexatórios de sua curta existência.
Não posso deixar de discordar desses profetas de última hora, que preconizam uma paz sobre escombros ainda não remexidos nem removidos. A tranquilidade que todos almejamos e necessitamos vai chegar! No entanto, diga-se que há um ano atrás respirávamos aqui uma paz aparente, que estava muito distante de ser a paz que é intrínseca à democracia e à prosperidade dos povos, envolvendo desenvolvimento, justiça e acima de tudo verdade.
Queremos Londrina livre dos vexames sim! Mas não tem como alvorecer ou raiar o sol da dignidade e da paz sobre a cidade, sem que os pés-vermelhos respirem aliviados, livres da opressão e da obscuridade dos tempos que a espoliaram e maltrataram.
Despertar, já por si é um processo! Despertar de um pesadelo é um processo demorado! A conscientização levada a cabo, bem como as vitórias alcançadas, faz parte de uma caminhada dinâmica e austera que perpassa todas as dimensões da vida desta cidade e que desembocará necessariamente no grito: ‘‘Corrupção nunca mais’’!
O passado nos mostrou o que é possível acontecer num ambiente democrático, quando os legítimos promotores do sistema se omitem e se calam. Democracia sem participação e educação não evita as mazelas dos sistemas autoritários. Londrina foi acordada pela própria democracia que lhe bateu levemente no rosto e a chamou para um novo dia – de lutas e alegrias! Os pioneiros londrinenses sentiram orgulho de sua cidade!
Londrinenses unidos, sem mágoas, sem rancor nem ‘‘caça às bruxas’’ terão a árdua tarefa de repassar para os filhos a grande lição de vida que sobra do caos em que a cidade caiu – a corrupção, venha de quem vier, tropeçará sempre na determinação do povo pé-vermelho, na justiça e numa imprensa livre, que quando unidas, serão invencíveis.
É hora de reconstruir e olhar para a frente com fé e determinação. Já fomos paradigma para outras cidades, neste ato de não tolerarmos em nosso seio esquemas que nos roubem a dignidade e permitam o enriquecimento ilícito de meia dúzia de espertalhões. Urge tomar cuidado com os que forem surgindo, tentando se apropriar indevidamente desta tão nobre herança e repudiar qualquer tentativa de embalar Londrina em novos pesadelos!
Percebo também tentativas de desviar o cerne da questão, do confronto original e legítimo da sociedade londrinense com a corrupção que estava entranhada em suas estruturas, para querelas individuais e pessoais que estão longe de corresponderem à verdade. Os homens responsáveis pelos seus erros devem ser julgados por quem de competência; a sociedade combate idéias e situações que coloquem em risco a sã convivência dos cidadãos. Nesta lógica não há lugar para sentimentos que roubem o verdadeiro sentido de nossos atos.
Senti que muitos londrinenses, mesmo participando de perto da administração que abominamos, mantiveram-se firmes e íntegros numa clara atitude de serviço à cidade que amam. Ato de nobreza que não poderemos deixar de enaltecer!
- PADRE MANUEL JOAQUIM RODRIGUES DOS SANTOS é o representante oficial da Igreja Católica (Arquidiocese de Londrina) junto ao Movimento pela Moralidade na Administração Pública de Londrina, assessor do Conselho Arquidiocesano de Comunicação, diretor da Rádio Alvorada e pároco da Igreja Imaculada Conceição

mockup