Londrina, a capital do agronegócio - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de abril de 1999
Maria Lucia Victor Barbosa 
Com a abertura oficial da 39ª Exposição Agropecuária e Industrial, promovida pela Sociedade Rural do Paraná, Londrina se transforma até o dia 18 de abril na capital brasileira do agronegócio. Para a realização do evento, a diretoria da SRP, presidida por Francisco Galli, não mediu esforços. Sob seu comando, duas mil pessoas levantaram estandes, melhoraram pistas e pavilhões, construíram novos currais, providenciaram limpeza, fizeram novo calçamento de pedras, cuidaram da rede elétrica, ornamentaram locais, se esmeraram em todos os detalhes, inclusive os de segurança, uma vez que se espera um milhão de pessoas entre brasileiros e estrangeiros que virão para visitar a Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina, uma das mais importantes do País.
Neste cenário que impressiona pela força e efervescência, gente, animais e máquinas se misturam num emaranhado de shows, leilões, rodeios, negócios, cursos, restaurantes. Nos pavilhões, bois de raça, alguns como enormes montanhas brancas, contrastam sua placidez com a agitação proveniente da comercialização, que pode chegar a R$ 25 milhões; com o ruído provocado pela multidão, que conversa e passeia; com o rebuliço do parque de diversões, onde crianças e adultos se divertem aos gritos. Nesse mundo provisório, onde se vê as entranhas do meio rural a borbulhar, a dita crise brasileira parece piada de mau gosto. Todos, conforme suas posses e possibilidades, compram, vendem, comem, bebem e se divertem numa democracia country de luzes, cores e alegria.
Paira no ar um clima de festa, uma indefinível sensação de volta ao berço da terra, onde se é acalentado pelo mugido de um boi, pelo cantar de um pássaro, pelo roçar da grama sob os pés. E nesta Exposição, onde tantos são atraídos pelo fascínio do telúrico, a impressão que dá é que Francisco Galli laçou a crise pelas quatro patas e a derrubou no chão.
Entretanto, existe o avesso da força do Brasil que produz, o qual reside na falsa reforma agrária, dirigida por mentores políticos e religiosos. Em nome da Justiça eles instigam hordas a burlar a Lei. Em nome da paz, alimentam o ódio e a violência. Em nome da defesa dos oprimidos, semeiam o atraso, incompatível com o mundo moderno e que tem como consequência tornar os pobres mais pobres e, portanto, mais fáceis de serem dominados espiritual e temporalmente.
Os ideólogos das invasões de terras, aparentemente tão sensíveis aos infortúnios causados pela miséria, ou tão sequiosos do poder pelo poder, acabaram por engendrar forças descontroladas que se dispersaram pelo Brasil, e que atendem pelo nome de MST ou de suas várias dissidências.
Entre os que aderiram ao movimento, seduzidos pelo canto de sereia das falsas lideranças devidamente treinadas pelos ideólogos da revolução, pelos arautos do caos, não se encontram apenas os despossuídos verdadeiramente vocacionados para o trabalho no campo. O movimento acena para mendigos, desempregados, ou simplesmente para malandros de classes mais elevadas, que vêem nesta reforma agrária de mentira a maneira fácil de ganhar uma terrinha para futura comercialização.
No país da impunidade, das leis não cumpridas como é o caso dos inúteis mandados de reintegração de posse de terras invadidas, o MST e suas divisões prosperam. E enquanto produtores rurais, enfrentando as mais diversas dificuldades, algumas de ordem climática, muitas de ordem governamental, tentam manter suas terras para produzir, invasores pilham, destroem, matam o gado, roubam as colheitas e se apropriam do que não lhes pertence com a certeza de que nada lhes acontecerá. Pelo contrário. São premiados com terras produtivas, alimentados com cestas básicas, sustentados em alguns casos com salário mínimo, paparicados por autoridades. É a malandragem oficializada, enfim, o que se vê no lugar de uma verdadeira reforma agrária.
Perante a inércia governamental, as invasões recrudescem, e é criada uma nova data: o Dia Nacional de Ocupação de Terra. Neste Dia, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que pretende fazer invasões em massa, contabilizou anteontem 84 em todo o País, em pouco mais de 30 horas, totalizando 8.388 famílias.
No Paraná, as invasões prosseguem, como foi o caso da Fazenda Transval, situada em Querência do Norte, no noroeste deste Estado, de propriedade de dona Lourdes Pagano. Usando sua tática habitual, os chamados sem-terra chegaram como bandidos no início da semana e se apropriaram do que não lhes pertencia. Estavam cientes de que a Fazenda de 573 hectares era 100% produtiva, pois afirmaram com a insolência que os caracteriza, que cansaram de invadir terra improdutiva, o que aliás não é verdade. Uma vez estabelecidos, procederam como bando de assaltantes. Impediram os donos de entrar, o que causou enormes transtornos a Horácio Pagano, filho de dona Lourdes, que mora com a esposa na sede da fazenda e que se viu de uma hora para outra sem seus pertences pessoais como roupas, livros, talões de cheque, etc., sofrendo assim um confisco bolchevista para ninguém botar defeito. Depois, os chamados sem-terra expulsaram empregados, sumiram com tratores e começaram a colher o milho como se a colheita fosse sua.
Com um mandado de reintegração de posse que não é cumprido entre as mãos, a saúde de dona Lourdes baqueia. Seu presente é quebrado, seu futuro e o de sua família se esvai diante da complacência governamental. E quantos proprietários rurais terão ainda de tombar como já ocorreu várias vezes, por desgosto e desespero diante do terrorismo do MST e dos seus vários tentáculos que se estendem pelo país asfixiando o campo, impedindo a produção e matando, portanto, as cidades? Até quando, nós, cidadãos brasileiros, teremos que presenciar estes absurdos?


