Londrina 1934 - .... ?
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de dezembro de 2001
Fausto Lima 
Neste mês Londrina comemorou 67 anos de emancipação política mostrando a força dos londrinenses, de várias raças e culturas, que trabalharam, sonharam, idealizaram a construção desta cidade.
Nas primeiras décadas do século 20, principalmente após a Primeira Guerra Mundial, a economia mundial passou por um realinhamento, onde os países hegemônicos, os vitoriosos, buscaram ampliar sua área de influência e se valem das técnicas do planejamento para potencializar seus investimentos. Foi neste contexto que se deu o encontro de interesses nacionais com o capital internacional. De um lado o Brasil, que necessitava de recursos financeiros para modernizar sua estrutura produtiva e, de outro, o capital internacional, que buscava novos mercados.
Assim, atrás de oportunidades, os ingleses compraram uma vasta área de terras no Norte do Paraná, ditas ''devolutas'', para venda e produção de matéria-prima para sua indústria têxtil. Na ocupação deste território os ingleses estabelecem um plano global com base na boa experiência da colonização paulista. Praticada lá, de modo empírico, com base na pequena propriedade, na rede de cidades e no transporte intermodal da ferrovia e rodovia. No Norte do Paraná, estes elementos foram organizados espacialmente para criar uma rede de drenagem da produção regional em direção ao Porto de Santos.
Em 1929, Londrina foi fundada com um planejamento preciso, espacialmente distribuído, com áreas definidas para cada atividade, respeitando as técnicas e a conjuntura socioeconômica de seu tempo. O desenho da cidade é hoje criticado, pelo seu acanhamento, principalmente de sua área central. Não esquecemos que a economia mundial passava por crise no final da década de 1920. E que não podemos estabelecer a crítica ao passado pelas necessidades do presente.
Londrina, apesar do seu traçado acanhado, cresceu, e cresceu muito, até o final da década de 1940, quando a área urbanizada pelos ingleses começou a ser ampliada. Foi neste momento que a Sociedade Amigos de Londrina (SAL) se fez presente e cobrou a elaboração de um plano urbanístico, moderno. A SAL, uma associação civil, foi criada em 1943 por profissionais liberais, comerciantes e prestadores de serviços, para discutir as necessidades da cidade.
O prefeito Hugo Cabral, em 1949, premido pela cidade que extravasava seus limites e pelo ideário moderno da SAL, contratou o urbanista Francisco Prestes Maia, prefeito de São Paulo durante o Estado Novo, para elaborar um Plano Urbano para Londrina.
O plano de Prestes Maia era composto de um plano de avenidas e da legislação urbanística. O plano de avenidas previa uma avenida periférica à área central e avenidas radiais ligando o centro aos bairros. Do anel periférico sobrou o trecho da Avenida JK, o resto não foi executado. A legislação foi aprovada e ficou conhecida com a Lei 133/51, que foi parcialmente revogada em 1968 por uma nova lei de zoneamento, entretanto o capítulo do loteamento só foi revogado com o Plano Diretor aprovado em 1998. No plano de Prestes Maia, destaca-se, também, o início da preservação dos fundos de vale que criam na cidade uma paisagem diferenciada.
Hoje, analisando a estrutura de Londrina, percebemos o quanto se deve aos seus dois primeiros planos, o dos ingleses, principalmente pelo plano rural hoje urbanizado, e o de Prestes Maia. Estes dois trabalhos foram feitos com apuro técnico, idealismo visando ao futuro. Depois disto, a partir da década de 1970 entramos no período do fazejamento com intervenções que criaram cicatrizes urbanas, fragmentaram o espaço e encareceram o custo urbano, e que beneficiaram só a especulação. Isto sem falar na obra malfeita, superfaturada, pessimamente localizada ou de projetos que só serviram para financiar campanhas eleitorais.
Desde 1978, os arquitetos lutavam pela criação de um órgão de Planejamento Urbano para a cidade. Em 1993, o prefeito Cheida, sensibilizado com os problemas urbanos, cria o IPPUL. Nestes últimos oito anos, apesar da estrutura pequena para o desafio de gerenciar a terceira cidade da região sul do Brasil, o Instituto já demonstra a sua importância pelo estabelecimento de diretrizes que só serão vistas na sua totalidade no futuro.
Hoje nos encontramos numa discussão extemporânea de fechamento do órgão de planejamento, na contramão da história, no momento em que se debate a sustentabilidade, a responsabilidade civil, onde até o Congresso Nacional, lerdo, corporativo, aprovou o Estatuto da Cidade, que veio apresentar novos instrumentos para o planejamento, possibilitando uma nova gestão do espaço urbano.
Nos debates sobre o planejamento normalmente só se fala de zoneamento, parcelamento do solo, sistema viário e meio ambiente, entretanto, outros elementos devem estar presentes em um bom plano, tais como: habitação popular, assentamentos, industrialização, localização de prédios públicos (escola, posto de saúde,
pronto-socorro, etc). Estes elementos são tratados desvinculados do planejamento urbano, eles não são problemas da cidade, mas, de uma determinada secretaria.
O imediatismo de hoje, repete o fazejamento do passado, compromete o futuro, ou melhor, rouba o futuro da cidade. Esta postura chega muito próximo ao assalto ao erário publico que comprometeu nosso presente.
- FAUSTO LIMA é vice-presidente do Núcleo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) Londrina


