Não foi só o Brasil que assumiu esta semana a postura dessas lojas tem-de-tudo em posto de gasolina. Além da conveniente crise do PFL, sob indignação tardia ‘‘contra o arbítrio’’, ao deixar – estrategicamente – um fim de governo, revelou-se o ato mais enfático sobre a farsa da globalização: a taxa de importação do aço em 8% a 30% feita pelos EUA.
A prática dos poderosos é antiga. John Dulles (1888-1959) bateu o martelo com a frase-manifesto: ‘‘Um país não tem amigos, tem interesses’’. A taxação demonstra que a solidariedade global antiterror só é conveniente quando o ‘‘eixo do mal’’ não toca o bolso. Se a medida vai desempregar e aumentar a miséria alheia. Danem-se. Bush foi mais eficaz que um punk anti-McDonald’s. Revelou a hipocrisia do ‘‘abram seus mercados, privatizem, modernizem-se, que o mundo livre sorrirá para vocês’’.
Irônico é que a Europa, atingida pelo ‘‘homem do aço Superman’’, leva a questão para o tribunal da Organização Mundial de Comércio (OMC), mas se fecha ainda mais. A OMC tem 144 países e abriga 90% do comércio no mundo. Nessa feira, os EUA participam com quase 16% do volume e o Brasil não chega a 1%. Pelo grau de dependência militar dos europeus com a OTAN, os EUA podem jogar a taxa em custo-benefício.
Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve, afirmou:‘‘Estamos bem!’’ E anunciou um crescimento da economia próximo aos 3%. Nosso presidente – Vive la France! – deve tomar cuidado ao receber tapinhas nas costas pelo zeloso dever de casa brasileiro: podem colar em suas costas um punhal ou, na pior das hipóteses, um bilhetinho escolar, tipo ‘‘eu pago o pato’’.
Conveniências entre países, óbvio, refletem-se como doutrina à beira do cinismo em questões internas. O tal desembarque do PFL, aqui, soou como ‘‘vão-se os cargos mas ficam os cartéis’’. Na verdade, uma saída – picados pelos Marimbondos de Fogo do poder – vista sob a febre das pesquisas e a possibilidade de, enfim, reinarem exclusivos no poder. Poder onde o partido sempre foi base e fundamento, mas como coadjuvante.
Atávico, no código genético do tráfico de influências, a ira tardia do PFL bem revela a diferença entre sistema e governos. O sistema está aí, intacto, coeso, estrutural, claro nos sucessivos ‘‘danem-se’’ mundiais de Bush (anti-resfriamento-clima, pró-corrida-armamentista; filo-intervencionista-militar e até, antilivre-mercado, pasmem). Governos periféricos catam migalhas! Embora finjam de pompa e circunstância. Mas é só conveniência.
TT Catalão é jornalista em Brasília

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