Não bastassem os sem-terra invadindo propriedades alheias, agora quem toma de assalto nossos bolsos são os integrantes do MLE - o Movimento dos Lojistas Especuladores. Estes que embutem nas vendas a prazo juros de até 9% ao mês, contra uma inflação de apenas 0,4% (atentem: abaixo de 1 dígito). Falamos disto em artigo recente e agora (12/9) o jornalista Joelmir Beting denuncia a mesma especulação, qualificando-a de ‘‘imoral e ilegal’’. Ele mostra números estarrecedores: desde agosto de 1995 até hoje (2 anos) a inflação oficial foi de 20,85%, contra juros de 1.176% praticados pelo comércio, no mesmo período. Mas não só: lojas de aparelhos de ginástica (isto em SP) castigaram com juros astronômicos de 63,82% ao mês. Sim, ao mês! De arrepiar! E, mais ‘‘generosas’’, lojas paulistas de telefones celulares, de bens de informática e artigos de ótica ferraram seus fregueses em 20%. Contra, repita-se, uma inflação de 0,4% e juros ‘‘empresariais’’ dos bancos de 3% a 4%.
Beting solta seus cães chupa-cabra: ‘‘Isto é caso de polícia’’! E acrescentamos nós: Polícia que não esteja ‘‘assim’’ com os homens, senão quem vai preso é o freguês.
E Miguel Ribeiro de Oliveira, consultor financeiro em Sampa, bota a boca no trombone: ‘‘As lojas estão vendendo dinheiro disfarçado de produto. O crediário deixou de ser atividade-meio para ser atividade-fim’’.
Criança não devia ler estas coisas!
As lojas agora são bancos. E, com tanto espaço ocioso, logo os bancos podem virar shoppings. Está lançada a idéia.
Dna. Jandira, sábia senhora que faz o cafezinho aqui na ‘‘Folha’’, divaga: ‘‘É nostalgia dos tempos do Sarney (diz e benze-se), quando se especulava na ciranda financeira e amiúde no overnight (quem se lembra?), se comprava a prazo vendendo à vista, e até abaixo do preço de custo’’.
Agora, pela falta de prática em operar na calmaria de inflação quase zero, o lojista ainda em sono letárgico joga lucros lá em cima (e obtém pouco, porque vende pouco) e enfia a faca no freguês com juros 3 a 20 vezes acima da inflação, tudo embrulhado no pacote das vendas a prazo.
E o cliente, ainda meio grogue da ressaca dos tempos citados por dna. Jandira, faz os cheques sem olhar a conta.
Havia, aqui em Londrina, o caso célebre de um conceituado cliente de banco que tinha duas assinaturas: a dele são e a dele bêbado. O banco identificava as duas e validava os cheques, por autorização prévia do emitente.
No caso presente, a maioria está assinando os ‘‘voadores’’, nestas compras a prazo, sem se dar conta do porre. O resultado pode ser a inadimplência depois da ressaca. Aí o credor precisa negociar para receber. O devedor que tem maquininha de calcular percebe que, a esta altura, já pagou a conta e moralmente não deve mais nada, e que, com 60% dos pré-datados pagos, já está de bom tamanho.
Em rio de piranha - já ensinava Stanislaw - até jacaré nada de costas.
Razão tem o Nagib: ‘‘Marca vamosa, tudo baratínia’’. Ele já faz liquidação no lançamento. Vende no inverno o que é do inverno, no verão o que é do verão. Já as franquias (de que são dependentes as franqueadas) chegam gulosas demais com suas coleções de estação, vendem meia dúzia e deixam as lojas à espera do freguês, que passa arredio e só chega dois meses depois, para comprar pela metade do preço, na liquidação. Esses comerciantes ainda não aprenderam que ganhariam mais vendendo vinte peças a preço real do que cinco no lançamento e encalhando o restante, que acaba em oferta pelo precinho do Nagib.
Mas, os altos juros embutidos! É deles que falamos. Não são todas as lojas, é verdade, mas a maioria força a venda a prazo, para entrar na ciranda do juro especulado, e se o cliente quer pagar à vista a loja não lhe dá desconto na mesma proporção dos juros. É rapinagem, e este mal gera um mal maior: a quebra do negócio. Muito difícil escapar, porque assim ninguém prospera. Destes maus comerciantes - diríamos maus brasileiros - não é preciso ter pena.
Mercadoria já cara e ainda sustentada por juros altos nas vendas a prazo mofa nas prateleiras, enquanto o dinheiro - que quintuplica de potência se gira veloz - mofa no bolso do consumidor retraído.
A turma da alimentação, mais esperta, já descobriu o macete!
Estes maus empresários, não é ruim que quebrem, porque assim o meio se purifica e eles irão abrindo espaço para os homens do Brasil novo, que estão chegando.
A nação melhor que queremos não será, com toda certeza, construída por brasileiros assim. Porque eles não são amigos da pátria, apenas servem-se dela.
A mentalidade, lúcida e consciente, de explorar as pessoas, não difere da atitude do marginal que assalta e rouba, do governante corrupto, do servidor que cobra e aceita propina, do que se vale da injustiça trabalhista para extorquir da empresa que lhe deu sustento, do sequestrador que faz da vítima o instrumento do resgate. Todos assaltantes do patrimônio alheio. Diferentes na forma mas iguais no sentido.
A vida é regida por leis imutáves de causa e efeito e nenhum negócio prosperará estribado nas ilicitudes. No máximo durará um tempo, mas não todo o tempo.

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