Lógica da nova internacional - André Stumpf
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 14 de outubro de 1998
André Stumpf 
Negociação entre o governo brasileiro e o Fundo Monetário Internacional não é novidade. Tem sido uma constante na história. Os brasileiros não são os principais usuários dos dinheiros do FMI. Em primeiro lugar, como tomadores usuais, estão os mexicanos, depois, em surpreendente segundo lugar, figuram os sisudos ingleses. O Brasil ocupa um modesto sexto lugar entre os frequentadores daqueles empréstimos que sempre chegam cercados das famosas condicionalidades.
Negociadores de várias nacionalidades estão, neste momento, em Brasília e Washington, discutindo a extensão e a profundidade das medidas de contenção. A missão do FMI deverá chegar ao Brasil no fim da semana, e no dia 20 o presidente Fernando Henrique vai anunciar, em toda a sua extensão, o início dos tempos difíceis. Acabou a farra. O Natal fica adiado para o próximo ano e as férias de janeiro deverão ser suprimidas.
Os pacotes do FMI são muito parecidos uns com os outros. Corte de despesas, aumento de receita e melhoria do perfil das exportações. Até aí morreu Neves. O problema é que esses pacotes são imaginados para aplicação em sociedades cujas economias estão superaquecidas. Onde não há desemprego. Onde cabe algum tipo de desaquecimento. Não é o caso brasileiro. Aqui, há elevado desemprego, a recessão já mostrou a face e a queda da atividade econômica é perceptível em todos os quadrantes.
O receituário monetarista vai se aplicar sobre uma sociedade que enfrenta problemas estruturais complexos. O mais sério deles está na maneira como os governos tratam a questão social. O discurso oficial tem escamoteado algumas verdades. Por exemplo, na pátria do liberalismo, os Estados Unidos, as transferências do Tesouro norte-americano para os indivíduos ultrapassa os US$ 100 bilhões ao ano nas suas diversas formas - seguro-desemprego, previdência, assistência ou o que for. Há uma enorme preocupação em defender o cidadão dos rigores do sistema.
Nos países mais desenvolvidos da Europa, é difícil até comprar uma aspirina sem receita médica. E os médicos, na Inglaterra, por exemplo, relutam em assinar requisições de remédios. Preferem internar o paciente em hospitais do sistema público para que seja curado de sua eventual gripe. Na França é assim. Na Alemanha, também. A preocupação com as crianças vai muito além disso. Alguns governos, incluindo o norte-americano, chegam ao extremo de monitorar os pais para que eles exerçam bem os deveres da paternidade. Entre os quais está a obrigação de mandar os meninos para a escola.
Quando o avião que trará a missão do FMI a Brasília iniciar a operação de pouso na capital, os poucos programas de assistência social existentes no Brasil vão entrar na zona de tiro. Aqui, muito antes da chegada do Fundo, os hospitais não funcionam, a medicina transformou-se em comércio, as escolas estão sucateadas e as crianças não merecem atenção do Estado. Os poucos programas que perseveram nesse caminho poderão ser atingidos pelos cortes de verbas e vão entrar em processo agônico. Economistas gostam muito de cortar verbas. Dinheiro que deixa de chegar à planície significa um pai de família desempregado e uma criança que sai da escola para mendigar na via pública. Mas a lógica da nova internacional não contempla o homem e suas circunstâncias.
- ANDRÉ STUMPF é jornalista em Brasília


