Lobos são lobos
A estória do lobo e do cordeiro bebendo água na beira do córrego pode muito bem ser aplicada ao processo de privatização das empresas estatais de um modo geral. Entretanto, no caso específico da Companhia Paranaense de Energia Elétrica (Copel) a fábula se encaixa de forma perfeita.
No início deste ano foram publicadas várias notícias na imprensa do Paraná falando sobre a venda da Copel. Nenhuma novidade. É de conhecimento de todos o compromisso perverso do Brasil com o FMI e com o Banco Mundial no sentido de privatizar todas as empresas estatais. Processo este já em fase final, restando bem poucas empresas nas mãos do estado.
Também não é novidade que o Paraná sempre sai na dianteira no atendimento a qualquer aceno neoliberal vindo de Brasília ou de interesses financeiros privados. Tanto isto é verdade, que no estado sobraram apenas a Copel e a Sanepar para serem vendidas pelo governo. Do Banestado às estradas mais movimentadas, tudo foi torrado. E o que é pior: o governo do Paraná continua endividado e sem dinheiro em caixa.
As razões apresentadas pelo governador na abertura do processo de privatização da Copel, se não são piores, muito se assemelham às explicações do lobo ao cordeiro. A diferença entre o lobo antigo e Lerner, está na argumentação. Enquanto o lobo da fábula apresentou argumentos novos, ainda que perversos, Lerner repete antigos chavões privatizantes, como a falta de competitividade das estatais e a necessidade imposta pelo mercado.
A experiência das empresas estatais vendidas até agora prova que os motivos apresentados para privatizá-las, novamente repetidos para a entrega da Copel, são mentirosos. Sobre as estatais vendidas, além de perguntas ainda não respondidas sobre valores que envolveram as transações e a origem dos recursos que as financiaram, de um modo geral, os serviços pioraram, ocorreu desemprego, os preços dos produtos aumentaram e há sérios questionamentos sobre a conservação e a modernização das instalações das empresas leiloadas.
Este último ponto sempre foi um cavalo de batalha dos defensores das privatizações. Eles repetem o tempo todo a incapacidade do estado em promover melhorias por falta de dinheiro. Esta situação gera degradação dos equipamentos e a empresa não consegue se manter em condições de enfrentar o mercado, segundo eles.
Os números de 2000, divulgados pela Copel no início deste ano, são dados importantes para mostrar que a intenção do governo Lerner é ajudar a trucidar o cordeiro a qualquer custo. O lucro líquido da empresa de energia elétrica paranaense foi de R$ 288,7 milhões no ano passado. Houve um aumento no lucro, em relação a 1999, de mais de R$ 11 milhões, quase R$ 1 milhão a mais por mês. Isto explica a voracidade com que os lobos se atiram sobre a empresa, cujo patrimônio líquido beira os R$ 5 bilhões.
Se o governo quer vender, é sinal de que não utiliza o lucro oriundo da Copel para outras finalidades e, portanto, não lhe fará falta. Logo, o dinheiro deve permanecer na empresa. Portanto, se fica na Copel, ele pode ser reinvestido na própria empresa para deixá-la tecnologicamente atualizada.
Ninguém tem dúvidas de que o interesse do empresário privado é, em primeiro lugar, conseguir lucro no seu empreendimento. Isto não condiz com os princípios de muitos setores já privatizados ou em vias de sê-lo. Serviços essenciais para a população como energia, comunicação e água, por exemplo, não podem ser vistos sob a ótica do mercado. Fazem parte do atendimento de necessidades básicas.
A análise da trajetória da Light do Rio de Janeiro é um exemplo, no próprio setor de energia elétrica, a mostrar o equívoco que é privatizar determinados empreendimentos. Antes de pertencer ao Estado, a Light fora de um consórcio estrangeiro que a exauriu e a entregou ao Estado, sucateada, depois de 50 anos. Este mesmo Estado, através dos impostos da população, levou um bom tempo para recuperá-la. Uma vez saneada, veio nova onda de privatizações e a Light voltou para um grupo privado. Pelo número de reclamações junto ao Procon-RJ, publicados em janeiro último, a piora na qualidade dos serviços da empresa é um fato inquestionável.
Como na estória do lobo, no Paraná também se tenta legitimar o processo. Lá, o lobo buscou o convencimento através da argumentação. Aqui, além disso, para garantir a transparência da privatização da Copel, o governador Jaime Lerner assinou um decreto nomeando representantes da população para fiscalizar a sua execução. O lobo não teve este cuidado.
O curioso (ou triste) é que o comportamento do lobo da fábula é em tudo igual aos atos que encaminharam a venda da Copel. É sempre uma pessoa quem decide, manda ou até, de repente, nomeia representantes. Mas nunca deixa de ser o único a indicar o caminho e jamais aceita, de fato, argumentos contrários aos seus mesquinhos interesses pessoais.
- PADRE ROQUE ZIMMERMANN é deputado federal pelo PT-PR e professor universitário licenciado em Ponta Grossa





