Lobby bancário:
goleiro amarrado
e bola no pé!
Paulo Afonso Rodrigues
Acreditar na baixa dos juros no Brasil, mesmo em função da liberação de compulsórios feita paulatinamente pelo Banco Central (BC) desde setembro do ano passado, sempre foi um desafio. Em vários artigos, alertamos o leitor para as ‘‘intenções’’ do sistema bancário que não permitiriam quedas significativas dos juros, o que parecia contraditório, já que em setembro de 1999 foram injetados R$ 33 bilhões na economia com a liberação dos compulsórios dos depósitos à vista de 75% para 45% e dos depósitos a prazo de 20% para zero.
Em recente pronunciamento, o Banco Central denunciou que os bancos estão realizando reuniões com o objetivo de não repassar, na totalidade ou em coerência com o volume de dinheiro injetado na economia, a baixa dos juros tão esperada pelo mercado.
Observamos um exemplo: antes da baixa do compulsório, ocorrida em setembro de 1999, para cada R$ 100,00 de depósito à vista, somente R$ 25,00 eram emprestados ao mercado. Com as constantes liberações do compulsório, este valor passou a ser de R$ 55,00, o que representa um crescimento de 120% na carteira de crédito.
Com um mercado altamente tomador, considerando a alta descapitalização de pessoas físicas e jurídicas, a política de juros ficou à mercê da famosa lei da ‘‘oferta e procura’’. O Banco Central, por sua vez, não solicitou uma prestação de contas para que cada banco apresentasse as taxas de juros utilizadas até setembro de 1999 e as que passou a utilizar a partir das liberações dos compulsórios.
Como órgão controlador das instituições financeiras, o Banco Central deveria solicitar uma verdadeira prestação de contas do anteriormente praticado e do procedimento atual, penalizando inclusive os aproveitadores do mercado, já que a verdadeira intenção do BC era a de reduzir os juros paulatinamente. E, o mercado foi sentindo que, em proporção as injeções dos compulsórios, estava diante de uma matemática ‘‘maquiada’’.
Em vários artigos alertamos o leitor sobre o que estava acontecendo e, ao nosso ver, de nada adianta agora o Banco Central alegar que os juros não baixaram porque os bancos estão fazendo ‘‘lobbies’’ para não reduzir custos.
Com uma prestação de contas em relação aos custos cobrados anteriormente a setembro de 1999 e os atuais, passando por uma reflexão financeira nos períodos de outubro de 1999 a junho de 2000, aparecerá uma demonstração clara e real da influência que a baixa dos compulsórios teve nos balanços polpudos do setor bancário.
Estamos diante de verdadeiro ‘‘lobby’’ sobre a falta de intenção dos bancos em reduzir custos financeiros de acordo com as injeções de capital na economia feitas pelo Banco Central e, também, do esforço em reduzir as taxas de juros de 17,5% para 17%.
Convenhamos: mesmos nestes patamares, as taxas de juros continuam altas. Porém, o mercado sabe que ninguém tem cheque especial, contas garantidas, créditos pessoais, descontos de duplicatas e capitais de giro convenientes para uma economia que não aceita repasses de custos reais. Isto porque o sistema bancário hoje quer amplas garantias para o crédito, cobrando altos ‘‘spreads’’ que põem em risco toda a atividade produtiva.
Aproveitando um dizer popular, que se encaixa perfeitamente nas altas garantias que o sistema bancário almeja: ‘‘Goleiro amarrado e bola no p钒, embasado com o objetivo eterno de não encontrar obstáculos para auferir os seus lucros.
Demorou mas, até que enfim o Banco Central está tomando a atitude de verificar o que é realizado pelo sistema bancário através das reuniões da Febraban. Inclusive, preocupando-se em multar o setor, conforme recente declaração. Enquanto isto... vamos pagando o preço pela inércia do órgão controlador em não fiscalizar com rigor as liberações e injeções dadas ao setor bancário nos últimos meses.
- PAULO AFONSO RODRIGUES é contabilista e assessor financeiro em Londrina

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